música 'As sombras saíram do armário', diz Pitty, que faz show no Recife. Confira a entrevista Com 41 anos, mãe e também apresentadora de TV, Pitty desembarca no Recife com a turnê Matriz, feita para divulgar álbum homônimo que ainda será lançado neste mês

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 05/04/2019 08:41 Atualizado em: 05/04/2019 10:16

Matriz é também o título do novo álbum da banda, o quinto da carreira, que será lançado ainda neste mês e apresentado amanhã no show. Foto: Murilo Amâncio/Divulgação
Matriz é também o título do novo álbum da banda, o quinto da carreira, que será lançado ainda neste mês e apresentado amanhã no show. Foto: Murilo Amâncio/Divulgação

O estereótipo da adolescente inquieta, “revoltada” e fora dos padrões comportamentais e de estilo voltava à mídia mundial através de uma artista do pop rock, em 2002. Era Avril Lavigne, canadense que, aos 18 anos, vendeu 20 milhões de cópias com o disco Let go, um êxito entre juventude ocidental da época. Nesse mesmo período, a baiana Priscilla Novaes Leone, aos 25, entrava em estúdio para gravar Admirável chip novo (2003), seu primeiro disco de estúdio, que se tornaria o álbum de rock mais vendido daquele ano no Brasil. Foram 800 mil cópias, talvez a última grande vendagem de rock no país - se desconsiderarmos a gerações dos “emos” e dos “coloridos”, que viriam logo a seguir.

O tempo provou que Avril Lavigne era, na verdade, uma invenção orquestrada pela Arista Records para conquistar jovens que não se identificavam com os moldes opressores de Britney Spears e Christina Aguilera, criando uma rivalidade entre o “pop assumidamente pop” e o “pop que fingia ser rock”. Pitty, no entanto, provou ser real, estando mais para uma Amy Lee (do Evanescence). Mesmo causando estranhamento por ser da Bahia, histórico celeiro de divas da axé music, ela quebrou estereótipos e manteve sua atitude punk com destreza.

Também conseguiu se manter na grande mídia com uma sonoridade que, apesar de flertar com o hardcore, soava bem acessível para adolescentes. Transformou-se na porta-voz de uma geração que acreditava ser “inconformada”. Desde então, segue sendo a maior roqueira em atividade no Brasil. No ano passado, o aniversário de 15 anos de Admirável chip novo causou furor na internet. Os usuários ressaltaram como as músicas continuam atuais: a faixa-título pode nos remeter aos algoritmos das redes sociais, e Máscara nos leva aos debates identitários sobre diversidade, para citar alguns exemplos.

Agora com 41 anos, mãe e também apresentadora de TV no canal GNT, Pitty desembarca no Recife com a turnê Matriz, feita para divulgar álbum homônimo - o quinto do grupo - que ainda será lançado neste mês. O show será amanhã, no Baile Perfumado, a partir das 22h, com abertura dos pernambucanos Banda Howay e Flaira Ferro. Essa última, que recentemente lançou o frevo-rock Revólver, foi escolhida através de uma campanha chamada Palco Aberto, que abre espaço para que o público de cada cidade visitada indique artistas locais em ascensão.

Pitty adianta que Matriz será uma volta às suas raízes sonoras e memórias afetivas. "É um disco que propõe uma simbiose entre esses sons do inconsciente da terra onde cresci com o rock, que é a minha linguagem. É um disco bem diverso, com várias participações, bastante colaborativo”. O álbum foi gravado entre estúdios do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, cidade que ela deixou aos 23 anos.

“Metaforizando, é como a história de uma blueswoman que sai da plantação de algodão, bota a viola no saco e vai tentar a vida na cidade grande. É uma espécie de retorno de um autoexílio estético e cultural, e isso somente é possível hoje por vários motivos".

ENTREVISTA - PITTY, cantora

Admirável chip novo completou 15 anos no ano passado, causando furor nas redes sociais. Por que acha que o álbum continua despertando isso? 
Vejo as pessoas comentando, é que elas conseguem ressignificar as letras e músicas desse disco através dos tempos. Se isso for um fator, me deixa muito lisonjeada. Pode ser difícil fazer sentido em épocas diferentes. Pensar que essas músicas se aplicam em situações atemporais é interessante. Talvez fale mais sobre coisas comuns ao ser humano de qualquer tempo do que de um período em si.

O disco, por ser inspirado em uma obra de George Orwell, já trazia várias reflexões críticas sobre o sistema. Qual a diferença entre questionar a sociedade naquela época e questionar hoje? 
A diferença é que hoje vivemos uma época em que coisas que sempre foram inaceitáveis e pareciam erradicadas voltaram à tona. Por conta de tudo que aconteceu nos últimos anos e do crescente extremismo, vemos quem acha normal comemorar um período nefasto da nossa história como a ditadura, por exemplo. Essas sombras saíram do armário, e muitos tipos de preconceitos e violências têm sido normalizadas. Não se pode normalizar o absurdo. Antes, a crítica era mais sociológica, filosófica, subjetiva. Hoje, ela pode ser mais direta. Mas, particularmente, ainda prefiro o questionamento através do pensamento crítico e filosófico do quea coisa concretista. Eu acredito no poder da poesia e da subjetividade para alcançar o senso crítico das pessoas.

“Gente se junta para fazer revolução / Gente se junta para falar besteira”. O refrão de Noite inteira, seu single mais atual, tenta dialogar com esse atual cenário político? 
Se propõe a dialogar com a sociedade atual como um todo. Diz respeito a todos, chama pra responsabilidade de se posicionar ou não, de propagar ideias falsas, para a responsabilidade de ocupar seu espaço entendendo e respeitando o do outro. O consumo de música via plataformas digitais impulsionou bastante ritmos como funk, pop e sertanejo universitário. E o rock? Vivão e vivendo! Nunca vi tanta banda legal. Tem um projeto novo nessa minha turnê, chama-se Palco Aberto. Nele, recebemos indicações do público para artistas da cena local abrirem nosso show. A primeira etapa desse processo será no Recife. Eu fiquei maravilhada com o tanto de banda e artista massa que conheci. A cena está fervilhando e se renovando.

Na contramão, lançamento seu em parceria com Tássia Reis e Emmily Barreto, levantou uma discussão sobre uma “mudança de gênero musical”. Como lidou com isso? 
Na real, é só a primeira impressão, porque nós pessoas temos essa mania de ter tudo muito “decodificadinho”. Basta ouvir com atenção para entender que a essência da canção é rock. Usa elementos eletrônicos, tem timbres diferentes, uma pegada de hip hop numa parte. E isso tudo é rock, no discurso, na colocação. Veja ela ao vivo, e depois me diga que estilo de música é aquele. Rock não é ficar na superfície estética de gritar e botar uma guitarra distorcida, apenas. É muito mais profundo do que isso.

Como se sente sendo a maior roqueira em atividade no Brasil?
(Risos). Maravilhosa. Não quero outra coisa da vida, aqui tá bom pra mim. Quero é que venham mais e mais mulheres pra esse bonde!

SERVIÇO
Turnê Matriz, de Pitty 
Onde: Baile Perfumado (Rua Carlos Gomes, 390, Prado)
Quando: amanhã, a partir das 22h 
Quanto: R$ 120 (pista), R$ 60 (pista meia), R$ 190 (frontstage), R$ 95 (front meia) e R$ 170 (lounge open bar)



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