música Por que o k-pop chama tanto a atenção por onde passa?

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 21/03/2019 09:04 Atualizado em:

Grupo BTS gerou US$ 3,6 bilhões à Coreia do Sul em 2018. Foto: ROBYN BECK
Grupo BTS gerou US$ 3,6 bilhões à Coreia do Sul em 2018. Foto: ROBYN BECK
Em poucas horas do último 11 de março, 36.120 ingressos disponibilizados para o show do BTS se esgotaram. Não sem antes milhares de fãs se avolumarem em filas quilométricas nos arredores do Allianz Parque (São Paulo), palco da apresentação. Para conseguir um dos ingressos — de valores pouco modestos — fãs da banda sul coreana acamparam por dias em frente à bilheteria do estádio. Houve confusão, protestos e choro. Inicialmente, a apresentação, então a única prevista, estava marcado para 25 de maio. A organização do show, depois de ser pressionada, abriu uma nova data, em 26 de maio.

“Ninguém esperava essa febre do k-pop no ocidente. De um lado, tem as empresas de entretenimento por trás desses grupos que sabem trabalhar muito bem o marketing e a divulgação nas redes sociais. De outro, essa geração que agora tem entre 13 e 14 anos e adotou o k-pop muito facilmente graças à internet”, explica Babi Dewet, 32 anos, uma das autoras do livro K-pop - Manual de sobrevivência e locutora do recém-lançado podcast Kpapo. 

Para a escritora e blogueira, a disponibilidade de pré-adolescentes e adolescentes permite que passem horas comentando sobre os ídolos na internet, o que alavanca fortemente a popularidade de grupos como Exo, Twice e BTS. “Os fãs com menos idade têm tempo e disposição para espalhar ainda mais o nome desses artistas nas redes sociais, divulgando para novos fãs, o que vira uma bola de neve”. 

O k-pop começou no início dos anos 1990 assimilando referências americanas e misturando-as com a cultura própria do país asiático. “Agora são os países do ocidente que pegam o k-pop e incorporam na música ocidental”, diz Dewet, que acredita que a alta ascensão do gênero fora do oriente se deu a partir de 2015.

Um dos grupos mais famosos — e lucrativos — do k-pop é o BTS (sigla para Bangtan Boys), que, desde seu surgimento em 2013, abre cada vez mais espaço no mundo do entretenimento.  Só no ano passado, BTS gerou 3,6 bilhões de dólares à Coreia do Sul. Os jovens músicos Jin, Suga, J-Hope, Rap Monster, Jimin, V e Jingkook integram a banda, que foi a primeira de pop coreano a liderar o ranking semanal da Billbaord.

Em 2017, BTS figurou no Guiness Book como o grupo musical mais mencionado mundialmente no Twitter, fato que se deu após apresentação no American Music Awards. No ano passado, a boy band ganhou pela segunda vez consecutiva o Top Artista Social da Billboard na categoria que premia os artistas mais seguidos nas redes sociais. Também participou dos programas de Ellen Degeneres e de Jimmy Kimmel, além de aparecer em episódio desta semana de Os Simpsons nos Estados Unidos. Em abril, serão convidados musicais do humorístico Saturday night live. 

Fábrica de ídolos
Com visual chamativo, passos milimetricamente sincronizados e pouco espaço para a espontaneidade, os astros do mainstream coreano cantam pop e rap em idioma que até pouco tempo atrás era incomum no Brasil. Hoje,  membros da army — como se autodenominam os admiradores do grupo — aprendem a língua oriental e copiam o visual dos ídolos.

Para para facilitar a identificação com o público, mais recentemente, os grupos de k-pop passaram a recrutar vários membros. Boybands com mais de 10 ou 20 integrantes não são difíceis de se encontrar. “Acreditam (empresários) que, quanto mais pessoas na banda, mais chances o público tem de gostar, porque cada uma delas carrega características e personalidades diferentes”, explica Dewet.

São estratégias, continua a pesquisadora do mundo k-pop, para garantir o sucesso comercial. “Existe uma fórmula tanto para a música, quanto para a coreografia, quanto para a formação do grupo, que as empresas conhecem e sabem que renderá sucesso.”.

“Em todo grupo de k-pop tem um rapper, um dançarino principal, um cantor principal. Há cinco anos, era comum que todas as músicas k-pop seguissem a sequência: Pop, rap, depois um breakdown (momento que antecede um ápice musical), dubstep, depois volta para o pop.  Tem uma construção muito clara do que é o k-pop, já que todas as músicas têm as mesmas características. Você já sabe que as músicas de k-pop vão reunir esses elementos. 

Army Brasileira
Para assistir à apresentação do BTS no Brasil, parte da turnê internacional Love yourself: Speak yourself, os fãs desembolsaram entre R$ 145 (cadeira superior) e R$ 950 (que dá acesso à passagem de som e à pista premium). Esta será a terceira vez que a boyband se apresenta no Brasil. A primeira foi em 2015. Babi Dewet foi uma das que tentou ir ao show de 2017. “Eu era a de número 60 mil e alguma coisa da fila. Já entrei sabendo que eu não ia conseguir porque só tinha espaço para 14 mil pessoas”.

Neste ano, depois da muvuca gerada para a compra da primeira leva de ingressos, tinha até quem revendia por valores que chegavam a R$ 9 mil. A preferência dada a idosos também gerou revolta nos fãs que estavam na fila por dias (preferenciais foram acusados de comprar entradas para cambistas). No dia seguinte, uma nova apresentação foi anunciada e, novamente, outra multidão se formou.

Moradora de Brasília, Hanna Paola, 21 anos, comprou a entrada mais cara para o show em 25 de maio. Apesar de pagar quase mil reais pelos ingressos soundcheck, a compra não foi simples. Com ajuda de duas amigas, passou quase duas horas enfrentando a alta demanda online até efetuar a compra. “Foi um milagre”, comemora.

A estudante de farmácia explica que BTS fez com ela voltasse a escutar k-pop depois de 5 anos sem querer saber dos hits coreanos. Em 2017, ela entrou em contato com músicas da boyband na igreja evangélica que frequenta, onde são permitidas “músicas seculares” (sem caráter religioso). Hoje, “BTS é a paixão da minha vida”. 

Os ingressos que garantem acesso à passagem de som, para ela, compensam o gasto. “Porque eu acho que a oportunidade de ver o ensaio aproxima muito a gente (fãs) à banda. Eles (os músicos) sobem no palco sem aquela roupa e maquiagem toda, brincam com as fãs, ficam menos sérios”, diz a menina que não tem preferido na banda preferida. “Eu já cheguei a um nível de fã, que admiro a todos de forma igual. Todos são muito importantes para mim.”



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