Especial Conheça a história dos Afoxés em Pernambuco União, representação, religiosidade e resistência. Essas são as quatro palavras que unem o movimento dos grupos no estado

Por: Samuel Calado - Redes Sociais

Publicado em: 20/03/2019 21:50 Atualizado em: 20/03/2019 22:37

Bailarina do Afoxé Alafin Oyó. Foto: Samuel Calado/DP
Bailarina do Afoxé Alafin Oyó. Foto: Samuel Calado/DP
 

Na etimologia, o termo ‘afoxé’ provém da língua africana iorubá e significa a “fala que faz”. No Brasil, o primeiro grupo surgiu em 1885, em Salvador, na Bahia, com o nome Afoxé Embaixada da África. Ele tinha a intenção de brincar o carnaval. Segundo a vice-presidente do Afoxé Omo Inã, Bernadete Ramos, da comunidade da Mangabeira, na Zona Norte do Recife, a iniciativa se deu através de um grupo de ogans (nome dado aos percussionistas dentro dos terreiros de candomblé), que pediram a autorização dos babalorixás e das yalorixás (líderes espirituais nas religiões de matriz africana) para irem às ruas tocar durante o carnaval na época. “Os sacerdotes autorizaram e eles puderam levar para as ruas de Salvador a musicalidade e a dança de dentro dos terreiros”, afirma.

O presidente do Afoxé Alafin Oyó, Fabiano Santos, da comunidade do V8, no Sítio Histórico de Olinda, explica que o surgimento dos grupos de afoxés em Pernambuco na década de 1970 deu-se de uma forma diferente, comparado aos afoxés da Bahia. “O Afoxé Ilê de África, o primeiro afoxé de Pernambuco, foi às ruas enquanto instrumento de militância, com o objetivo de combater o racismo, a intolerância religiosa e a falta de oportunidades”, recorda.



Na época, o país estava sob o regime da Ditadura Militar e a repressão contra os povos de terreiro era frequente. Diante desse cenário, os religiosos de matriz africana foram às ruas para reforçar o movimento de resistência e combate à intolerância. O vocalista do Afoxé Filhos de Dandalunda, BriBri N’Zazi, do bairro da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife, relata que muitas vezes a polícia invadia os barracões, interrompia os cultos e apreendia os elementos sagrados. “No início não foi fácil, muitas pessoas olhavam para a gente e nos discriminavam por ser um movimento negro e feito por pessoas de periferia. Recordo, ainda, enquanto desfilante dos vários insultos racistas e intolerantes que escutei. Mesmo diante disso, continuamos indo às ruas, resistindo às pedradas, para desmistificar essa visão errada sobre a nossa ancestralidade”, relata. 



Atualmente existem aproximadamente 45 afoxés no estado. A maioria deles se concentram nos bairros da Região Metropolitana do Recife, onde realizam diversos eventos e trabalhos sociais durante o ano. 

Afoxé Omo Inã em apresentação na comunidade da Mangabeira. Foto: Samuel Calado/DP
Afoxé Omo Inã em apresentação na comunidade da Mangabeira. Foto: Samuel Calado/DP


O ex-sacerdote do Afoxé Omo Inã, Jefferson Nagô, falecido no mês de dezembro de 2018,  disse em entrevista que para existir, o afoxé precisa ter ligação direta com os terreiros de Candomblé, visto que a entidade cultural é a representação direta da religiosidade, da ancestralidade e do povo negro nas ruas. O religioso reforçou também que até antes da fundação, é preciso consultar os búzios para pedir a autorização às divindades. “A gente joga para saber o Odu (destino) de quem vai cuidar da entidade cultural e conhecer também o orixá patrono, ou seja, a divindade que irá apadrinhar o grupo. Após isso, são feitos os preceitos religiosos como reverenciar os eguns (antepassados), chamar o orixá em terra e fazer outros fundamentos. Até para conhecer o nome do afoxé é preciso consultar aos orixás”, explicou.



Além da religiosidade, “o afoxé e os terreiros são vistos como instrumentos de formação política e educacional”, como explica Fabiano. “Uma espécie de quilombo contemporâneo, onde além de aprenderem sobre musicalidade, os participantes são incentivados a crescerem profissionalmente. Este é um dos nossos objetivos enquanto coletividade negra”, afirma.



União, representação, religiosidade e resistência. São essas as quatro palavras que unem o movimento dos grupos de Afoxés no estado de Pernambuco. O presidente do Ará Omim, Lourival Santos, da comunidade do Vasco da Gama, na Zona Norte do Recife, diz que no início das atividades, o grupo enfrentou uma grande resistência por parte dos moradores do Bairro. “Recebemos diversas reclamações de moradores. Alguns disfarçavam o preconceito no descontentamento com o barulho, outros eram mais explícitos e diziam que não queriam um grupo que cultuava os ‘demônios’ naquele espaço de visibilidade. Fizeram até denúncias à polícia, a prefeitura e ao líder comunitário para nos tirar daqui. Era óbvio que o problema não estava na sonoridade, até porque o espaço recebe muitas festas. O grande problema, e que não é novo, estava na pele, na religiosidade e na militância da gente”, desabafa.



A força histórica desses grupos é expressada sobretudo na resistência. Quem vê os afoxés brilhando no carnaval pensa que o trabalho começa e termina ali, mas não é assim. O presidente e sacerdote do Filhos de Dandalunda, Pai Moacir de Angola, do bairro da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife, explica que a festividade possibilita espaços de militância e visibilidade. “É um momento para a gente se reunir, discutir e revigorar as energias para os 365 dias de enfrentamento ao racismo e a intolerância religiosa no ano.

 
 
Observação:  A reportagem faz parte do especial "Afoxés de Pernambuco", produzido como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, sob orientação da Doutora em Comunicação Social, Nataly Queiroz. 
 
 
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