REGIME MILITAR Caetano Veloso e outros artistas lembram período de exílio há 50 anos Nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Cacá Diegues, Nara Leão e Augusto Boal se exilaram para escapar da perseguição

Por: Robson Gomes

Publicado em: 17/03/2019 10:23 Atualizado em: 17/03/2019 10:31

Gilberto Gil e Caetano Veloso foram expulsos do Brasil em 1969. Foto: Arquivo CB/D.A Press.
Gilberto Gil e Caetano Veloso foram expulsos do Brasil em 1969. Foto: Arquivo CB/D.A Press.
“Nunca quis morar fora do Brasil. Ser exilado me deixou meio deprimido. Lembro-me de que um cara da Polícia Federal (acho que era da PF: tudo relativo a nossa prisão e exílio era muito desorganizado e obscuro) me levou até dentro do avião e me disse: ‘Não volte. Se voltar, nos poupe do trabalho de um dia procurando você’. Numa ida a Paris, já no segundo ano de exílio em Londres, a 12 abaixo de zero, chorei na rua e cantei, aos berros, Apesar de você”. É Caetano Veloso quem relata o episódio da sua prisão em depoimento ao Correio. Ele foi obrigado a deixar o Brasil em 1969 acompanhado por Gilberto Gil.  Os músicos baianos assim, como outros artistas brasileiros, se exilaram, voluntariamente ou não, há cinco décadas. No mesmo ano, pouco tempo após instituído o Ato Institucional nº 5 (AI-5), foram impelidos a deixar pátria natal Chico Buarque, Augusto Boal, Cacá Diegues, Nara Leão, entre outros. Durante a ditadura militar, que se estendeu de 1964 a 1985, milhares de pessoas foram exiladas forçadamente ou se autoexilaram. Eram intelectuais, políticos, artistas, jornalistas ou anônimos. 

“O autoexílio não era uma vontade prazerosa. Era uma obrigação. As pessoas eram perseguidas pela polícia arbitrariamente.  Uma polícia que matava, que torturava. A tortura era um fato comum”, conta Zuenir Ventura, jornalista e escritor brasileiro. Em entrevista, o autor do livro 1968: O ano que não terminou explica que “ameaças, perseguições”, além do cerceamento dos direitos, limitavam a capacidade produtiva de artistas no Brasil, que tinham de procurar onde viver fora. “O clima era de puro pavor”. Ventura esteve preso no mesmo período em que Caetano e Gil. Ele fora acusado de comandar o jornalismo no Rio e de fazer parte do Partido Comunista. “Eu nunca fui do Partido Comunista, muito menos tive esse poder”. Apesar de os baianos não terem sido torturados, o jornalista soube que estavam sendo “maltratados”. Pediu a Nelson Motta, que era próximo dos generais e que visitava o colega de cela de Zuenir, Hélio Pellegrino, para que interviesse na prisão dos tropicalistas. “Parece que funcionou”.

Cacá Diegues e Nara Leão

Para Cacá Diegues, “o problema do exílio não é onde você está, e sim aonde você não pode ir”. O expoente do movimento Cinema Novo e a bossa-novista Nara Leão, com quem era casado, se autoexilaram na França naquele ano “debaixo das ameaças que andávamos sofrendo”. A oportunidade de fugir surgiu quando o cineasta teve o filme Os herdeiros, que fora proibido no Brasil, selecionado para o Festival de Veneza. Foi convidado à Itália por Bernardo Bertolucci. Compromissou-se a voltar, mas, em vez disso, foi viver em Paris e arrumou emprego numa tevê local. Voltariam somente em 1971.

Na capital francesa, Nara deu luz à primeira filha e engravidou do segundo filho. Ela lançou um disco de bossa nova produzido pelo produtor musical André Midani. Diegues lançou Os herdeiros internacionalmente e divulgou o Cinema Novo.

Sobre a sensação ao lembrar daquele momento, 50 anos depois, ele explica que não guarda os maus sentimentos. “Não me causa mais emoção alguma. Ainda encontro alguns amigos do exílio, na Itália, na França e em outros países da Europa. Mas ninguém se lembra mais dessa época, a não ser como um passado triste que não é mesmo para ser lembrado. A angústia e a ansiedade do exílio terminam quando você chega de volta”. Em 2018, ele dirigiu O grande circo místico, escolhido para representar o Brasil no Oscar.

Caetano Veloso

Formuladores da Tropicália, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em 1969 sem motivo aparente. “Eles foram julgados como subversivos porque tinham músicas libertárias, mas nenhum do dois tinha militância política”, diz Zuenir Ventura. A Polícia Federal ofereceu uma alternativa à cadeia, onde ficaram três meses: sair do  país. Ficaram confinados em Salvador por alguns meses até embarcar para a Europa.

Numa visita ao Brasil durante o período de exílio, em 1971, conta Caetano em Verdade tropical, ele se deparou com um adesivo que o marcou. “Nunca vou esquecer o momento em que, na Bahia, (...) percebi os dizeres ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’”. Ele e Gil eram chamados de “personas non gratas” pela embaixada brasileira em Londres. Enquanto esteve lá, escreveu para o semanário de maior circulação à época, O Pasquim. Num dos artigos, declarou: “Nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós”, numa referência a Carlos Marighella, líder da guerrilha urbana, que havia sido assassinado poucos dias antes.

Exilado, deu o próprio nome a um disco lançado em 1971 que reúne alguns das mais icônicas canções, bilíngues e cheias de experimentações, como London, London, Maria Bethânia e If you hold a stone. Em 1971, depois de ver Jards Macalé levar adiante no Brasil as apresentações à la Tropicália com Gotham city, o convidou para a participação de um novo disco. Nasce Transa. “Talvez seja até hoje o disco mais forte da carreira do Caetano”, observa Guilherme Wisnik, autor do livro Caetano Veloso.

Gilberto Gil

Gil canta em Back in Bahia que era “como se ter ido fosse necessário para voltar”. Ele se refere ao retorno à Bahia após o período “lá em Londres”, onde se exilou até 1972 com Caetano Veloso. Sob autorização e fiscalização da Polícia Federal, ele e Caetano realizaram um show em Salvador em 1969 para custear a expatriação. Impedidos de fazer aparições públicas, os astros não tinham dinheiro para se manter. Na apresentação, ele se despede do Brasil com Aquele abraço. “Finalmente, eu ia poder ir embora do país e tinha que dizer ‘bye bye’, sumarizar o episódio todo que estava vivendo e o que ele representava”, contou o músico sobre um de seus maiores sucessos no livro Gilberto Gil — Todas as letras. “Que outra coisa para um compositor fazer uma catarse senão numa canção?”.

Na Inglaterra, em 1969, gravou disco homônimo marcado pelas canções Cérebro eletrônico e Volks-Volkswagen Blue. Essa última apareceria no disco seguinte, de 1969, também homônimo, desta vez, com os versos em inglês. Em 1970, Gil gravou a trilha sonora do anárquico Copacabana mon amour, de Rogério Sganzerla. O filme foi censurado no Brasil. Na volta, gravou o clássico Expresso 2222.

Chico Buarque

O músico carioca se autoexilou com Marieta Severo, com que foi casado, em Roma, entre 1969 e 1970. Era para ser apenas uma viagem à capital italiana, quando descobriu que sua volta ao Brasil implicaria cárcere. Antes, sob a mira dos censores, não conseguia lançar canções. Inventou o pseudônimo Julinho da Adelaide para ter as canções aprovadas. “As músicas do Chico Buarque eram censuradas e as pessoas não sabiam o porquê. Depois de inventar o Julinho da Adelaide, as músicas passavam pelos censores. Com o nome Chico Buarque, eles tinham má vontade”, diz o pesquisador Guilherme Wisnik.

Em Roma, Chico compôs Samba e amor, Apesar de você, Agora falando sério e Samba de Orly. Entre os trabalhos, gravou o disco Chico Buarque de Hollanda — Nº4. Ennio Morricone fez os arranjos do sexto álbum de estúdio do carioca: Per un pugno di samba. Também adaptou músicas de Luis Enríquez Bacalov para o disco Os Saltimbancos, gravado ao lado de Edu Lobo.

A música Meu caro amigo foi escrita em homenagem ao dramaturgo Augusto Boal, que se exilou em Lisboa também a partir de 1969. A faixa fez parte do disco Meus Caros Amigos, de 1976. Boal só voltou ao Brasil em 1981.

Podados pela ditadura
Gilberto, Caetano Veloso e Chico Buarque tiveram o trabalho influenciado pelo exílio. Foto: Casa da Palavra/Reprodução.
Gilberto, Caetano Veloso e Chico Buarque tiveram o trabalho influenciado pelo exílio. Foto: Casa da Palavra/Reprodução.

Guilherme Wisnik se debruçou sobre vida e obra de Caetano Veloso no livro que carrega o nome do tropicalista, publicado em 2005 pela editora Publifolha. Nomes importantes para aquele momento de efervescência cultural entram na pesquisa do autor, como os de Gilberto Gil e Chico Buarque. Na entrevista, ele resume consequências do exílio imposto à dupla baiana e cita figuras que permeiam a história. Durante àquele momento, ele garante: “Caetano se sentia sufocado”.

Por que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram perseguidos?

O Caetano fazia um show na boate Sucata, no Rio de Janeiro, em 1968. Eles tinham uma bandeira de Hélio Oiticica, que era um estandarte com a imagem de uma pessoa morta e em que estava escrito “seja marginal, seja herói”. Era um elemento do cenário que estava lá e que tinha conteúdo político evidente. Mas, um radialista de direita fez uma denúncia para a polícia dizendo que Caetano e Gil se enrolavam na bandeira do Brasil e faziam xingamentos. Isso era mentira.

Eles sabiam disso?

Só tempos depois, eles descobriram que a razão formal pela qual foram presos tinha sido essa denúncia. O interessante é perceber, no caso do Caetano Veloso e do Gilberto Gil, que eles eram acusados pela esquerda de serem alienados. A música de esquerda era Geraldo Vandré, Caminhando e cantando, uma música dita engajada. E quem foi preso foram Caetano e Gil.

Afinal, qual era o critério?

Então, daí se percebe, talvez, que uma eficácia política mais forte não era exatamente uma denúncia política, e sim, uma questão comportamental. Porque o que os músicos tropicalistas estavam fazendo era mexer na questão comportamental. Homem usar roupa de mulher. Passar batom. Isso, no fundo, incomodou mais. O problema, para os moralistas, é que esse tipo de atitude era muito grave.

E no caso de Chico Buarque?

As músicas do Chico Buarque foram censuradas. E as pessoas não sabiam por que as músicas eram censuradas. Ele inventou o Julinho da Adelaide. Daí, ele conseguia aprovar as músicas. Com o nome Chico Buarque, eles já tinham má vontade. Depois, o Chico soube, quando acabou a ditadura e foram abertos os arquivos.

E como ocorreu o autoexílio?

Foram artistas de esquerda que não quiseram ficar no país porque aqui estavam sendo cerceados, embora não estivesse sendo presos. Também entenderam que o exílio seria uma forma de luta contra o regime, denunciando uma insatisfação.

Males que vêm para o bem?

Acredito que sim (ri). No caso do Caetano, foi muito importante. Ele diz que lá perdeu uma timidez em cantar. Na Inglaterra, diziam que ele cantava bem e ele se sentiu mais livre. Eles incorporaram referências do rock. Participaram de festivais com Jimi Hendrix. Tiveram outros tipos de experiência que no Brasil eles não tinham. O Chico Buarque ficou na Itália. Num ambiente com menos troca cultural. Depois, ele acabou fazendo várias versões de músicas italianas, que foram importantes, como no disco Saltimbancos. Isso tudo acabou sendo positivo. Esses artistas exilados conseguiram ver o Brasil de fora, tiveram uma perspectiva outra do próprio Brasil. Isso alargou muito a visão que eles passaram a ter.

Isso está presente, por exemplo, no disco Transa, do Caetano Veloso?

Transa
foi gravado lá, com o grupo que estava lá. Como é o caso de Jards Macalé, que fez os arranjos (apesar de não ter sido creditado). Você percebe uma liberdade naquelas músicas. É paradoxal que num momento de tanta restrição tenha uma liberdade tão intensa. Eles estavam soltos ali, exilados; então, estavam vivendo para aquilo. Houve uma experimentação musical muito grande. O Transa, talvez seja até hoje o disco mais forte da carreira do Caetano. Eles receberam na Capela Sixteena (em referência à rua de número 16 onde viveram em Londres) Jorge Mautner, Waly Salomão e Jards Macalé.



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