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Televisão Documentário na Netflix denuncia esquema de pirâmide na Herbalife Filme expõe como empresa extrai lucro do recrutamento em vez da venda de produtos

Por: Tiago Barbosa

Publicado em: 12/06/2017 21:01 Atualizado em: 13/06/2017 18:27

Bill Alckman: aposta contra sucesso da Herbalife. Foto: Netflix/Divulgação
Bill Alckman: aposta contra sucesso da Herbalife. Foto: Netflix/Divulgação

A garantia de enriquecimento rápido e seguro, as promessas de ascensão social a partir do próprio trabalho e a sensação de pertencimento a um clube de empreendedores bem-sucedidos são ideias vendidas pela Herbalife e rapidamente fulminadas no documentário Betting on zero (em português, Apostando no zero, de 2016), dirigido por Ted Braun (Darfur agora).

O longa disponibilizado na Netflix desmonta os princípios da multinacional de produtos de nutrição e retrata a empresa como um esquema de pirâmide financeira montado para beneficiar os executivos em detrimento dos funcionários - em especial, os da base, flagrados em situação de vulnerabilidade social.

O recorte na forma de atuação da empresa permite perceber o ideal de prosperidade vigente na arena financeira de Wall Street, onde a ausência de regulação e a busca por lucro podem extorquir o trabalhador e privilegiar os especuladores do mercado de ações. O panorama é apresentado sob a ótica mercadológica da atuação de um investidor, mas desliza, com boa dose de sinceridade, para as implicações sociais do funcionamento nocivo da Herbalife.

O bilionário Bill Ackman é o fio condutor do filme. Ele gerencia um fundo de investimentos (Pershing Square Capital) especializado em apostar na falência de empresas em situação duvidosa, prática conhecida como betting on zero, e decide investir contra a multinacional alimentícia. A cruzada para convencer executivos inclui sessões de perguntas e estudos ao lado de uma jornalista com quem escreveu um livro.

O material de pesquisa sobre a Herbalife constitui o principal ativo do filme. Bill detalha, com base em gráficos, entrevistas, vídeos institucionais e de treinamentos, como a empresa concentra o lucro no recrutamento de supervisores e na transferência direta de dinheiro para os superiores em vez de obter recursos com a venda dos produtos - até três vezes mais caros na comparação com similares do mercado. Os shakes e vitaminas são apresentados como meros instrumentos para viabilizar o repasse, e o modelo se repete entre novos funcionários até se mostrar insustentável.



Os dados levantados pela equipe de Bill são alarmantes. Para se tornar um supervisor, os distribuidores precisam investir três mil dólares (quase dez mil reais). Assim, ficam aptos a ganhar royalties dos subalternos. Mas somente 17% dos distribuidores se credenciam a faturar com o negócio. E, deles, 30% nada ganham, enquanto 48% têm lucro irrisório. Apenas os 50 melhores abocanham até dez milhões de dólares por ano. Cerca de 80% dos envolvidos com a empresa se demitiram ou foram substituídos.

O esquema viciado é encoberto por um linguajar promissor pela Herbalife - "oportunidade de negócios", "marketing de multinível" -  e comum às estratégias de marketing convergentes com o sonho americano de ascensão social através do próprio esforço. "Você ganha por vendas que introduz ou patrocina, direta ou indiretamente", contrapõe o então presidente da empresa, Michael O. Johnson, ex-diretor da Disney Internacional e substituto do fundador, Mark Hughes, morto no ano 2000 por overdose de álcool associado a antidepressivos.

A falência e a corrupção inerentes a esse sistema - se levado ao extremo, não se manteria nem com a adesão da população inteira do planeta - abre a janela para desnudar o impacto na vida de quem se deixou seduzir pela empresa. E aí entra mais uma face cruel da economia dos EUA associada à desatenção histórica do estado com os imigrantes latinos. Alvos preferenciais da empresa, irregulares no país e com medo de serem deportados, eles sofrem duplamente ao perder o dinheiro na compra dos produtos e ter a cidadania negada na hora de acionar a justiça.

Comunidade latina protesta contra empresa. Foto: Netflix/Divulgação
Comunidade latina protesta contra empresa. Foto: Netflix/Divulgação


A batalha travada contra a prática enganosa da Herbalife, segundo o documentário, também ilustra como o mercado financeiro se serve de expedientes alheios à economia e à qualidade dos produtos para valorar uma empresa - sem necessariamente ter contraparditas sociais. Inimigo declarado de Bill, o bilionário Carl Icahn (Icahn Enterprises) decide investir na multinacional e fazer o contrapeso à pregação em desfavor da empresa, movimento responsável por fermentar as ações na bolsa.

A saga contra a Herbalife, narrada no filme, despertou o interesse de órgãos fiscalizadores dos Estados Unidos, e a empresa acabou punida por conduta irregular de mercado. Em 2016, a multinacional pagou 200 milhões de dólares (a 350 mil pessoas) para encerrar uma investigação sobre práticas enganosas e aceitou mudar os lucros dos distribuidores com o objetivo de privilegiar a remuneração pela venda dos produtos. O acordo também sepultou uma acusação por esquema de pirâmide. A sanção, no entanto, se limitou aos Estados Unidos, onde ela detém 20% das operações.

Com patrocínio de rostos famosos, como o melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo, a empresa atua em mais de 90 países e conta com 4 milhões de consultores e 8 mil colaboradores. O site da empresa no Brasil dedica uma seção para rebater acusações de práticas ilícitas de mercado e chama de mito a referência à existência de um esquema de pirâmide. Diz a multinacional: "A Herbalife é uma empresa global de nutrição" e exerce "uma atividade legítima". A remuneração obtida a patir do recrutamento, como demonstrada no documentário, inexistiria no país, de acordo com a empresa. "Todas as formas de ganhos são baseadas em venda de produtos e comissões".

O viés assumidamente "pró-sociedade" de Betting on zero - o investidor Bill Ackman até promete doar os lucros obtidos com as perdas da Herbalife - não compromete a eficácia do documentário. A investigação e exposição das práticas de mercado da empresa ajudam a jogar luz sobre os bastidores de Wall Street e tornar públicas informações via de regra escondidas e potencialmente danosas à saúde das nações.

POSICIONAMENTO
A assessoria da Herbalife enviou email ao Viver para rebater acusações feitas pelo filme. A empresa desqualifica o longa enquanto documentário e o define como "um longo vídeo publicitário que tem como objetivo fazer uma campanha contra o setor de vendas diretas".

O posicionamento, publicado em um site com nome do filme, condena as intenções de Bill Ackman enquanto crítico do modelo de negócio da empresa: "Um investidor norte-americano, o vídeo tem como objetivo beneficiar sua própria aposta financeira contra uma das maiores empresas de vendas diretas do mundo". A íntegra da nota da Herbalife pode ser lida neste link.

*Matéria editada para incluir posicionamento enviado pela Herbalife e atualizar o número de consultores e colaboradores.

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