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Cinema Historiador faz carta aberta contra protesto de cineastas no Cine PE Cleonildo Cruz chamou ato de 'desserviço intelectual a todos e todas que estão no enfrentamento do governo Temer'

Por: Viver/Diario - Diario de Pernambuco

Publicado em: 16/05/2017 19:10 Atualizado em: 16/05/2017 19:06

"Este é um erro que ficará na história", afirma o cineasta. Foto: Hesiodo Goes/Esp DP/D.A/Press
"Este é um erro que ficará na história", afirma o cineasta. Foto: Hesiodo Goes/Esp DP/D.A/Press


O historiador e cineasta Cleonildo Cruz divulgou, nesta terça-feira (16), carta aberta direcionada aos realizadores que decidiram retirar seus filmes da programação do festival Cine PE. No texto, cruz critica o posicionamento dos cineastas brasileiros, acusando a ação de "intolerância política-cultural" e "atitude coletiva oportunista e antidemocrática".

Confira os horários dos filmes em cartaz no Divirta-se

Na última semana, sete realizadores comunicaram, através de manifesto, a retirada de seus filmes da programação 2017 do Cine PE, em protesto relativo a um suposto posicionamento ideológico da curadoria. No documento, eles alegam que o festival "favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016". O abandono das obras seria uma retaliação à inclusão dos filmes Real: o plano por trás da história e O jardim das aflições, um documentário sobre Olavo de Carvalho.

O manifesto público também foi duramente criticado pelo ministro da Cultura, Roberto Freire, em visita ao Recife no último sábado (13). Em entrevista ao Viver, Freire se posicionou sobre o que chamou de "ato profundamente equivocado" de "uma esquerda que nunca leu Rosa de Luxemburgo e A liberdade".

Após o anúncio, a organização do festival emitiu uma nota negando "quaisquer formas de politização das programações" e informando o adiamento do evento devido a necessidade de substituir os títulos selecionados anteriormente por outros. O festival seria realizado de 23 a 29 de maio, no Cinema São Luiz, e segue sem novas datas.

Confira o documento divulgado por Cleonildo Cruz:

"Carta aberta aos realizadores que abandonaram o festival CINE PE 2017, numa atitude de intolerância política-cultural
 
A intolerância política-cultural chegou para ficar nesses tempos obscuros que estamos vivendo. Intolerância, sim. E por parte de quem não a deveria praticar. Ela ocorreu quando vocês, realizadores dos filmes
Abissal, de Arthur Leite (CE); Vênus – Filó, a fadinha lésbica, de Sávio Leite (MG); A menina só, de Cintia Domit Pittar (SC); Iluminadas, de Gabi Saegesser (PE); O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras, de Petrônio Lorena (PE); Não me prometa nada, de Eva Randolph (RJ); e Baunilha de Leo Tabosa (PE), decidiram que suas obras fossem retiradas da programação da 21ª edição do Cine PE. Tal postura se afigura como um posicionamento eminentemente antidemocrático.

Vocês inscreveram seus filmes para serem submetidos à curadoria do festival. Foram selecionados, igualmente como todos os outros filmes. Por que não enviaram carta desistindo, assim que saiu o resultado? Todos os filmes estavam lá, inclusive, e entre outros, O plano por trás da história e O jardim das aflições, supostos estopins para a atitude que tomaram. Por que só agora, às vésperas de acontecer o Cine PE, vocês retiraram seus filmes? Isso configura uma atitude coletiva oportunista e antidemocrática, cujo objetivo aparenta ser a busca pelos holofotes. Parabéns! Ressalto que tal atitude é de intolerância político-cultural, bem como um desserviço intelectual a todos e todas que estão no enfrentamento do governo Temer, que vem sistematicamente retirando os direitos da classe trabalhadora.

Este é um erro que ficará na História, mostrando que não souberam ocupar os espaços e fugiram por falta de capacidade de entender a pluralidade no campo das ideias num espaço que, inclusive, é o campo da cultura. O momento era de fazer um protesto, quer fosse individual ou coletivo, mas não contra a obra de qualquer dos filmes selecionados para integrar o Cine PE. Que patrulhamento é esse? Defendo o protesto, sim. Mas vocês não o fizeram. Deixaram, de forma anti-democrática, de ocupar o espaço do festival.

Poderiam, ao contrário, ter feito um belo ato político contra o estado de exceção que estamos vivenciando, contra a criminalização dos movimentos sociais, contra a destruição da democracia no Brasil. Alguns da esquerda, e não vou generalizar, não compreendem que precisamos sair da bolha. Falar além dessa retórica que só empregamos para os nossos. Imaginem, por exemplo, se em nossos espaços de debate nos negássemos a participar porque fulano de tal apoiou o golpe que afastou a presidenta Dilma Roussef? À minha mente vem um evento que aconteceu nos EUA, no mês passado.

Lá estavam Dilma Rousseff, presidenta deposta por um golpe político-midiático-parlamentar-jurídico, e Sérgio Moro, juiz parcial da Lava Jato. Na última semana, também nos EUA, sentaram à mesma mesa para debater o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, e novamente Sérgio Moro.

Enfrentamento se faz no front, e não abandonando a luta.

Cleonildo Cruz
Historiador, cineasta e doutorando em Epistemologia em História da Ciência pela UNTREF – Buenos Aires.
 
Filmografia: Pernambuco de 1964 em Pernambuco. 2008; Replicar dos Sinos. 2006; Caixa de pandora. 2010; Haiti, 12 de janeiro. 2012; Constituinte: 1987-1988; Operação Condor, verdade inconclusa. 2015."

 
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