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Representatividade Produções LGBT independentes ganham força em Pernambuco 'Bichas', 'Transexualidade masculina' e o projeto 'Quem eu sou' debatem a diversidade sexual e de gênero com poucos recursos

Por: Matheus Rangel

Publicado em: 03/12/2016 12:02 Atualizado em: 03/12/2016 12:27

Produções independentes têm a internet como plataforma difusora atingem, principalmente, o público jovem. Fotos: Transexulidade masculina, Bichas, Projeto Quem eu sou/Divulgação
Produções independentes têm a internet como plataforma difusora atingem, principalmente, o público jovem. Fotos: Transexulidade masculina, Bichas, Projeto Quem eu sou/Divulgação


Apontar câmeras, luzes e microfones para o público LGBT sempre desafiou os estúdios do cinema e da televisão. A despeito de obras tidas como ícones - como Priscilla, a rainha do deserto, Orações para Bobby e o clássico Paris is burning -, muitas produções ficam na superficialidade (ou apostam na jocosidade) e não se aproximam da realidade dessa parcela da população, com representações estereotipadas ou caricatas. A tendência tem sido revertida recentemente com filmes mais interessados em retratar a diversidade sexual de forma natural e até romanceada, como na delicada relação lésbica de Carol, ou sob perspectiva mais intrigante, como no despertar da transexualidade em A garota dinamarquesa.


A abordagem testemunhada em maior ou menor grau tem inspirado gays, lésbicas, bissexuais e transexuais em obras independentes que fogem do mainstream e praticam ativismo quase subversivo. As produções audiovisuais, no entanto, não são necessariamente feitas para as telonas ou voltadas à TV. Usam como plataforma difusora a internet por exigir menos recursos, atingir o público jovem e permitir formatos (assim como temas) mais ousados. O público, aliás, não é apenas o principal consumidor, mas também o responsável por produzir e realizar esse tipo de projeto, que ganhou três novos reforços em Pernambuco neste ano. Feitos sem a intenção de obter retorno financeiro, partem de ideias surgidas nas universidades.


Foi assim com o projeto Quem eu sou, concebido por estudantes de publicidade e propaganda da Aeso, em Olinda. Com a proposta de entrevistar pessoas transexuais e quebrar tabus sobre o tema, a iniciativa começou como trabalho para uma disciplina e foi ganhando proporções maiores do que Mariana, Ana Laura, Arthur, Anna Gabriella, Gabriel, Larissa e Leandro, estudantes do sexto período, poderiam esperar. No Facebook, a página do projeto tem mais de mil seguidores, que vão assistir aos seis vídeos com depoimentos emocionados e histórias de superação sobre a trajetória de diferentes personagens transgêneros, selecionados por meio das redes sociais.


"É sobre trazer visibilidade para a causa trans mostrando nossas lutas, que nem precisam ser lutas de tão simples que são, mas seguem sendo tabus para a sociedade", acredita Anne Celestino, de 18 anos. Ela foi a protagonista do primeiro vídeo, lançado em 27 de novembro e visto por mais de 14 mil pessoas. Além de emocionar os espectadores, os relatos também tocaram os próprios criadores do trabalho. "A princípio, queríamos combater o preconceito. Mas como nenhum dos participantes é transexual, simplesmente não conhecíamos completamente a causa. As entrevistas nos mostraram que é muito mais que discriminação nas ruas, a sociedade precisa de uma série de mudanças concretas", aponta Mariana Medeiros, de 19 anos.

Documentário Bichas ganhou prêmio por colaborar com os direitos humanos da população LGBT. Foto: Fernando Cysneiros/Divulgação
Documentário Bichas ganhou prêmio por colaborar com os direitos humanos da população LGBT. Foto: Fernando Cysneiros/Divulgação


Outras duas produções pernambucanas lançadas neste ano foram realizadas por jovens ativistas da causa LGBT. Baseado em experiências pessoais com a homofobia e sem relação direta com o mundo acadêmico, o documentário Bichas, lançado em fevereiro, ganhou destaque nacional ao se apropriar do termo que inspira o título para propor o empoderamento através da história de jovens gays que conviveram com o preconceito desde a infância. Foi criado pelo publicitário Marlon Parente, de 24 anos, e já acumula quase 600 mil visualizações, além de ter conquistado prêmio por contribuir com os direitos humanos.

Seguindo o caminho inverso dos outros dois, o minidocumentário Transexualidade masculina, dos alunos do curso de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Bianca Pereira, Emanuel Bento, Lucio Souza e Giselle Cahú ganhou destaque primeiro na telona e só depois foi para a internet: recebeu Menção Honrosa do Júri Oficial do Festival de Cinema da Diversidade e de Gênero (Recifest) e foi escolhido como Melhor Curta Pernambucano pelo Júri Popular. O filme faz um recorte da vida de Dante Olivier, de 20 anos, jovem transgênero que também participou de Quem eu sou. "Pensamos em tratar da transexualidade masculina por ser um tema de pouca visibilidade. Nosso curta é justamente sobre pensar o que é ser um homem trans na nossa sociedade", revela Bianca, uma das diretoras. Em 2017, será a vez de Mulher original, do jaboatonense Carlota Pereira, virar os holofotes para as pautas LGBT.

AS PRODUÇÕES

Quem  eu sou

O projeto é encabeçado por sete estudantes de publicidade e propaganda da Aeso - Faculdades Integradas Barros Melo e foi elaborado para a disciplina de oficina de campanha. Mariana Medeiros, Ana Laura, Anna Gabriella, Arthur Costa, Gabriel Nogueira, Larissa Medeiros e Leandro Cavalcanti tiveram a ideia de ouvir transexuais do Recife para dar visibilidade à causa e combater o preconceito. Depois de iniciar o projeto, no entanto, perceberam que o problema era ainda maior que a discriminação: era necessário propor mudanças concretas na sociedade para acolher e empoderar as pessoas trans. Diferentemente das outras, a iniciativa se trata de uma série de seis vídeos que estão sendo lançados em Facebook.com/ProjetoQuemEuSou semanalmente com relatos dos personagens escolhidos através das redes sociais e de indicações de amigos. O primeiro vídeo, que mostra a história da jovem Anne Celestino, conta com cerca de 14 mil visualizações.



Transexualidade masculina

O minidocumentário surgiu como um trabalho para a cadeira de redação para meios de comunicação do curso de jornalismo da UFPE. Foi produzido pelos estudantes Bianca Pereira, Emannuel Bento, Lucio Souza e Giselle Cahú, que, à época, estavam no terceiro período da graduação. O material também se apropriou do formato entrevista, mas teve apenas um personagem: Dante Olivier. Então com 19 anos, o transexual narrou as experiências com a identidade de gênero, os desafios de se assumir para a família e o processo de transição do corpo feminino para o masculino, além dos conflitos internos de um jovem que não se encaixava nos padrões da sociedade. No mês de novembro, foi exibido no Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero (Recifest) e ganhou prêmios nas categorias de Melhor Curta Pernambucano, pelo Júri Popular, e Menção Honrosa, pelo Júri Oficial, do evento.



Bichas

Produzido, criado e dirigido pelo publicitário Marlon Parente, Bichas conta as histórias de Bruno Delgado, Igor Ferreira, Italo Amorim, João Pedro Simões, Orlando Dantas e Peu Carneiro: seis jovens gays e suas respectivas lutas por respeito na família, na escola ou no ambiente de trabalho. O projeto tem como cerne a apropriação do termo que dá nome ao filme, tido como pejorativo, como forma de empoderamento e auto-aceitação. Lançado em fevereiro de 2016, o documentário já acumula quase 600 mil visualizações e mais de 15 mil seguidores nas redes sociais. Foi reconhecido com dois prêmios: venceu na categoria Filme de Não-Ficção/Documentário/Docudrama na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação na etapa regional da INTERCOM Nordeste e recebeu o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade por contribuir com os avanços dos direitos humanos da população LGBT. 



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