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Literatura Biografias revelam intimidades de Bowie, Leonard Cohen e Nile Rodgers Trajetória e vida pessoal de artistas são investigadas em obras recém-lançadas no Brasil

Por: Nahima Maciel - Correio Braziliense

Publicado em: 22/06/2016 08:22 Atualizado em: 22/06/2016 09:43

Livros biográficos acompanham vida dos artistas. Foto: Montagem/Arquivo/DP
Livros biográficos acompanham vida dos artistas. Foto: Montagem/Arquivo/DP

Autorizadas ou não, biografias de música raramente conseguem cobrir todo o espectro do biografado. As vidas excêntricas de celebridades do rock são uma tentação e costumam faturar boas cifras para as editoras quando exploradas em livros. Detalhes de estúdio que destrincham processos de gravação e composição nem sempre são atraentes para os leitores comuns ou não aficionados pelo personagem. Equilibrar tudo é uma arte que a escritora e jornalista inglesa Sylvie Simmons consegue muito bem em I’m your man, biografia de Leonard Cohen publicada em 2012 na Inglaterra e que apenas agora chega ao Brasil. Simmons é especializada em música e escreve para veículos como The Guardian, MOJO, Rolling Stones e Sounds.

Já Le freak passa longe da apuração minuciosa de I’m your man, mas é uma autobiografia e só aí já tem um valor significativo. No livro, Nile Rodgers, compositor, guitarrista e produtor de dezenas de hits, conta a própria trajetória pelos guetos, estúdios, boates e inferninhos de Nova York que alimentaram a indústria da música americana nos anos 1970 e 1980. Um dos fundadores do grupo e autor de músicas como Everybody dance e Le freak, Rodgers viveu o glamour e a decadência da disco music antes de se tornar o produtor de artistas como Madonna, David Bowie, Prince, Diana Ross e Mick Jagger.

É na infância conturbada pelas ruas do sul de Manhattan, onde a mãe e o padrasto se drogavam ao lado de artistas, músicos e escritores, que ele começa a narrativa. O menino de 8 anos circulava entre uma legião de adultos drogados, mas também protagonistas da vida cultural novaiorquina das décadas de 1950 e 1960. A mãe tinha uma ligação especial com música e literatura e foi assim que o pequeno Rodgers, décadas antes de se tornar ele também viciado em heroína, deu os primeiros passos no mundo da cultura de Nova York. Rodgers foi obcecado por música desde a infância. O grupo Chic vendeu mais de 20 milhões de discos. Quando acabou a música disco e o produtor foi trabalhar na Motown em um projeto que traria de volta às paradas a voz de Diana Ross.

Daí em diante, Rodgers se tornou um dos mais importantes produtores musicais da era pop que marcou os anos 1980. Foi ele o responsável pelo sucesso do álbum Like a virgin, de Madonna, e, com David Bowie, fez Let’s dance. Foi com o camaleão, aliás, que Rodgers decidiu se livrar do estresse pós-traumático deixado pela decadência da disco music e pelo movimento Disco Sucks. “Na época, a palavra ‘dance’ era muito pesada para mim. (...) eu tinha jurado que não escreveria músicas com essa palavra durante um bom tempo”, conta. A vontade de se reapropriar de uma palavra que descrevia um estilo de música e dança veio durante a produção de Let’s dance. “(...) David tinha a liberdade para usar a palavra o quanto quisesse. E quando David dizia ‘vamos dançar’, ninguém corria para as ruas para colocar fogo em discos”, escreve Rodgers. Let’s dance viria a ser o disco mais vendido de Bowie.

O mais interessante de Le freak são as descrições dedicadas à dinâmica da produção musical nos Estados Unidos daquelas décadas, uma época em que a indústria da música funcionava com fitas demo, DJs engajados em lançar hits, rádios pagas pelas gravadoras e vendas de milhões de discos. Além disso, as mudanças pelas quais Nova York passou ao longo das últimas décadas não escapam ao autor.

+INSPIRAÇÃO RELIGIOSA
I’m your man é, sem dúvida, um trabalho de fôlego. Simmons expõe a consciência do músico para com a própria missão no mundo. Leonard Cohen é um kohen. Na cultura judaica, isso significa ser descendente de uma casta de pregadores. Cohen tem tudo para ser um deles. Neto de um rabino russo e de um líder da comunidade judaica do Canadá, acreditava desde pequeno ter herdado uma certa dimensão messiânica. O fato de ter se tornado nome importante na hierarquia da igreja da cientologia, a seita que congrega celebridades e que Cohen abandonou, e ter sido ordenado monge budista em um mosteiro em Los Angeles, contribuem para a crença. Mas não é por isso que o escritor e compositor é conhecido. Autor do hit Hallelujah e dono de voz grave e aveludada, Cohen tem na condição humana seu principal material de trabalho. A biografia de Simmons costura a visão de mundo do compositor e escritor com sua obra de forma bastante detalhada e séria.

CAMALEÃO DO ROCK
Bowie - A biografia foi escrito pela inglesa Wendy Leigh, morta na semana passada. Ela era conhecida pelas biografias de celebridades. Com livros sobre Prince e Madonna, Leigh privilegia mais a vida privada de Bowie do que sua ascensão artística. Tudo bem que a vida sexual do camaleão era bem agitada e diversificada, mas as ideias por trás de músicas como Starman, Space oddity e Life on Mars devem ser tão interessantes quanto o que acontecia na cama do astro.

A biografia é o menos empolgante dos três lançamentos. O apetite sexual do músico ganha destaque numa lista interminável de conquistas e experiências. Seriam histórias bem-vindas caso dividissem espaço com a incrível criatividade que movia o criador de Siggy Stardust, mas Wendy Leigh, visando certamente um perfil de leitores habituados e consumir histórias de tablóides, prefere focar em aspectos menos artísticos de Bowie. Felizmente, há outras biografias do artista no mercado, como a de David Buckiley, sem tradução no Brasil.

Para ler
I’m your man – A vida de Leonard Cohen, de Sylvie Simmons. Tradução: Patrícia Azeredo. Best Seller, 504 páginas. R$ 79,90

Bowie - A biografia, de Wendy Leigh. Tradução: Joana Faro. Best Seller, 322 páginas. R$ 49,90

Le freak - Autobiografia do maior hitmaker da música pop, de Nile Rodgers. Tradução: Cristiano Botafogo. Zahar, 328 páginas. R$ 54,90



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