Inclusão Templos católicos no Recife têm missas celebradas com intérpretes de Libras

Por: Mariana Fabrício - Diario de Pernambuco

Publicado em: 03/06/2019 07:11 Atualizado em: 03/06/2019 07:26

Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.
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Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.

Para exercer a fé através da própria língua, o casal Fabíola Santos, 33 anos, e Manoel de Oliveira, 59, viaja mais de 200 quilômetros a cada quinze dias. Os dois moram em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, e frequentam a missa na Basílica da Penha, localizada na Praça Dom Vital, no bairro de São José. Os dois se comunicam através da segunda língua oficial do país, mas não encontram missas com intérprete de Libras onde moram. As celebrações que acontecem às 17h, todas as sextas-feiras no Centro do Recife se tornam momentos de acolhida para os dois e tantos outros que fazem a comunidade católica de surdos.

Incluindo os fiéis com deficiência auditiva, a missa completa é traduzida desde os hinos até o sermão. Através da Língua Brasileira de Sinais, os surdos conseguem louvar e acompanhar as músicas cantando com as mãos através dos sinais. "Nos sentimos acolhidos na Igreja porque conseguimos nos comunicar e compreendermos o que está sendo dito pelo padre. Nos domingos que não estamos no Recife, assistimos a missa pela Canção Nova, que tem tradução. Mas sentimos falta da comunhão, congregar e poder participar da eucaristia", comenta Fabíola. Manoel tem familiares em Olinda. Depois de terem casado, os dois foram morar na capital potiguar e vem visitar os parentes duas vezes por mês, quando aproveitam para participar da missa.

A partir da demanda destes fiéis, a congregação da Basílica da Penha está formando a primeira turma de preparação para Eucaristia com aulas na Língua de Sinais. A iniciativa deve começar no próximo mês de agosto, com aulas nas tardes de sábados. “Percebemos que os fieis se sentem valorizados, demonstram mais vontade de permanecer na Igreja e participar das atividades. A missa tem momentos centrais e 'pontos altos', como a eucaristia e o sermão. Para os surdos, a presença de um intérprete se torna igualmente essencial para que consigam entender o que está sendo pregado", ressalta o Frei Hélio Ferreira.

Sociabilidade

O convívio na comunidade cristã tem um papel fundamental na inclusão e no desenvolvimento da comunicação da pessoa surda. Alguns surdos aprendem Libras somente quando começam a frequentar os templos, aprendendo a falar em público através das aulas e estudos. Nesses casos, as igrejas desempenham um papel de criação de comunidade, fortalecendo a rede de sociabilidade entre as pessoas com deficiência auditiva. "Os surdos quem vem de famílias ouvintes precisam de territórios de integração para aprender a língua, conviver com seus pares e esse processo também é desempenhado pelas igrejas", destaca o professor César Augusto de Assis, que estuda o impacto de atividades missionárias com surdos na Universidade de São Paulo (USP).

Na foto, César Augusto Machado, que se prepara para integrar a Terceira Ordem Franciscana.
Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.
 (Na foto, César Augusto Machado, que se prepara para integrar a Terceira Ordem Franciscana.
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Na foto, César Augusto Machado, que se prepara para integrar a Terceira Ordem Franciscana. Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.
O aposentado César Augusto Machado, 61 anos está se preparando para integrar a Terceira Ordem Franciscana. Em breve, ele será o primeiro surdo a vestir o hábito da Fraternidade. Na infância, César realizou um esforço quase solitário para conseguir se crismar e fazer a primeira eucaristia, já que as aulas de catecismo não tinham intérprete de libras. Em alguns momentos ele se tornava o intérprete da própria turma, quando tinha outra pessoa surda. Atualmente, durante as missas da Basílica, César faz questão de participar do momento da coleta de ofertas.

"A comunidade surda é muito grande na Igreja Católica. Antigamente, eu participava da missa apenas com o sentimento, porque não conseguia compreender o que estava sendo dito pelo padre. Ia apenas para comungar. Meus pais sabiam pouco de libras. Eu precisava ir a atrás, ler, pesquisar até conseguir cumprir os sacramentos. Agora nós temos uma participação maior e conseguimos nos comunicar", compara. Além da Basílica da Penha, também são feitas traduções na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul da cidade, todos os domingos, às 16, e no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Boa Vista, Centro, todas as quintas às 19h.

Para o Frei Hélio, a falta de interpretação de Libras nas missas comprometia a compreensão da liturgia e os surdos se conectados através das emoções e dos gestos feitos pelos padres. "A missa tem alguns símbolos que falam sem voz. É como uma linguagem emocional. Todos entendem momentos como o partir do pão, o erguer do cálice, que são corpo e sangue de Cristo. E desse, que é o momento mais importante, todos podem participar. O que ficava a desejar era a palavra, já que o sermão é falado. Mas agora estamos abertos para inclusão, assim como toda a Igreja Católica, que mantém iniciativas de obras sociais acolhendo e promovendo acessibilidade", comenta o Frei.

Intérprete por missão cristã

Abraçando o compromisso de interpretar as missas quase como um sacerdócio, a professora Alessandra Cristina de Souza, de 46 anos, se divide entre as salas de aula e a igreja. A tradução é feita de forma voluntária e ultrapassa as portas da Basílica, já que na maioria das vezes ela se torna o único canal de comunicação entre os surdos até mesmo com os familiares. Cristina já foi chamada para intermediar conversas entre parentes, e na maioria das vezes se torna ponte em momentos íntimos, como o sacramento da penitência. 
Na foto, a professora Alessandra Cristina de Souza, que faz a tradução simultânea das missas.
Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto. (Na foto, a professora Alessandra Cristina de Souza, que faz a tradução simultânea das missas.
Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.)
Na foto, a professora Alessandra Cristina de Souza, que faz a tradução simultânea das missas. Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.

“Peço orientação a Deus para que eu seja apenas um instrumento no momento da confissão. Naquele momento, eu não tenho ouvidos. Não sou mais Cristina. E graças a Deus quando saio do confessionário não me lembro de nada do que foi dito”, diz. Cristiana lembra que outro momento delicado que acompanhou como intérprete foi um velório em que a maioria dos presentes era surda. “O padre não sabia que estava dando um senão para pessoas surdas. Então um deles me chamou para fazer a interação”.

Ofício

Cristina (foto) se divide entre as salas de aula e as missas para interpretação de libras. 
Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto. (Cristina (foto) se divide entre as salas de aula e as missas para interpretação de libras. 
Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.)
Cristina (foto) se divide entre as salas de aula e as missas para interpretação de libras. Foto:Tarciso Augusto/Esp. DP Foto.
Para dar oportunidade a outras pessoas exercerem a fé cristã, viverem em comunidade e partilhar da comunhão, ela passou a estudar sobre a religião e tradução simultânea, vivenciando um contexto diferente do Centro de Estudos Supletivos Valdemar Oliveira, onde ensina. Encarando como missão, Cristina que é formada em pedagogia, fez pós-graduação em Libras e se certificou em proficiência na tradução e interpretação de libras para aperfeiçoar o ofício. "São demandas diferentes. Uma coisa é ensinar e outra é fazer uma tradução simultânea com um tema específico e os sinais próprios da missa. Na nossa vida nada é por acaso. É uma missão que tenho para mim e peço força para continuar", diz.

A interpretação da missa surgiu de uma demanda feita pelos próprios fiéis. "Muitos surdos frequentam a Igreja e um deles me abordou um dia pedindo que eu traduzisse a missa, pois não iria mais vir se não conseguisse compreender o que o padre falava. A Igreja Católica abre as portas para a diferença. O desafio é justamente manter o trabalho social e criar materiais de catequese, como livros e apostilas voltados para a inclusão", conta.


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