ENTREVISTA Futuro da escola e escola do futuro Jose Manuel Moran afirma que o papel mais importante dos professores e gestores é apoiar e convencer os alunos de que podem evoluir em tudo

Publicado em: 01/06/2019 07:30 Atualizado em: 02/06/2019 16:30

Arquivo Pessoal
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O professor Moran é Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor de Novas Tecnologias na USP (aposentado) e um dos fundadores da Escola do Futuro. Dá palestras e workshops sobre metodologias ativas, modelos híbridos e tendências na educação.
É autor do livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, do blog Educação Transformadora e coautor dos livros Metodologias Ativas para uma Educação Inovadora, Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica e Educação a Distância: Pontos e Contrapontos.

Qual o papel do gestor e do professor para que o aluno esteja preparado para a revolução 4.0?
O papel do gestor e do professor é de liderar o processo de transformação das escolas para que se tornem espaços vivos de aprendizagem criativa, inovadora e relevante para todos, principalmente para os mais pobres. Escolas inovadoras dependem de gestores e docentes muito bem preparados intelectual, emocional e eticamente e que possuam um repertório amplo de estratégias para que os estudantes se engajem em desafios e abertura para planejar e trabalhar colaborativamente com outros docentes colegas em projetos relevantes. O papel mais importante dos professores e gestores é apoiar e convencer os alunos de que podem evoluir em tudo, desenvolver autonomia crescente, transformando suas vidas pela aprendizagem, esforço e perseverança, mesmo os que vivem em condições precárias. Para isso os docentes e gestores precisam desenvolver essa mesma mentalidade empreendedora e criativa neles mesmos, também. As concepções pedagógicas de um ensino inovador para crianças e jovens podem ser sintetizadas nos quatro Ps da Aprendizagem Criativa de Mitchel Resnick do IMT: Aprendizagem baseada em Projetos, Aprendizagem com Propósito (sentido profundo), Aprendizagem entre estudantes (Pares, Pier) e Aprendizagem lúdica (Play, aprendizagem através de jogos e recursos lúdicos - gamificação). Esses componentes se combinam e concretizam de formas diferentes em cada etapa formativa, mantendo as características essenciais. O currículo inovador combina a ênfase na personalização (cada estudante percorre e constrói “seu” caminho pedagógico, num movimento dialético entre planejamento institucional e escolhas individualizadas, com orientação de docentes/mentores), na colaboração (atividades presenciais e online de aprendizagem em grupo) e nas diversas formas de mentoria (projeto de vida, tutoria nos projetos e nos processos de avaliação). Mentoria é um processo organizado de orientação individual e grupal do projeto de vida do aluno, do seu desenvolvimento profissional e da integração dos saberes. As instituições educacionais interessantes combinam o melhor da personalização, do compartilhamento e da tutoria. Cada estudante, em cada fase da vida, avança na autonomia (personalização) na aprendizagem grupal, colaborativa, compartilhada com tutoria (mediação, mentoria) de pessoas mais experientes em diversas áreas do conhecimento.

Como a internet e as linguagens multimídias podem auxiliar os educadores no processo da construção do conhecimento?
As tecnologias vêm transformando nosso mundo de forma cada vez mais acelerada e profunda. Nos encontramos hoje no que muitos denominam a quarta revolução industrial, onde se diluem os limites entre o mundo físico (impressão 3D, robótica avançada), o digital (internet das coisas, plataformas digitais) e o biológico (tecnologia digital aplicada à genética). Ao mesmo tempo vivemos num país extremamente desigual, em que a maioria tem formação básica deficiente para poder ter condições de aprender de verdade, de evoluir pessoal e profissionalmente, de ter um futuro diferente. Vivemos em mundos híbridos, onde tudo se mistura, de formas inimagináveis anos atrás. Crianças e jovens já nasceram nesse novo mundo, o consideram natural e não entendem por que a Escola ainda resiste tanto a integrar-se mais abertamente a esse novo mundo. Estamos superando a visão só negativa de proibir o acesso às tecnologias digitais, de ficar só na defensiva e avançamos lentamente nas formas de compartilhamento, na incorporação de plataformas mais inteligentes, de aplicativos para gerenciar todos os atores e processos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. Mas a convergência digital exige mudanças muito mais profundas que afetam a escola em todas as suas dimensões: infraestrutura, projeto pedagógico, formação docente, mobilidade, avaliação. O que faz a diferença não são os aplicativos, mas estarem nas mãos de educadores, gestores (e estudantes) com uma mente aberta e criativa, capaz de encantar, de fazer sonhar, de inspirar. Professores interessantes desenham atividades interessantes, gravam vídeos atraentes. Professores afetivos conseguem comunicar-se de forma acolhedora com seus estudantes através de qualquer aplicativo, plataforma ou rede social. Comunidades como Aprendizagem criativa compartilham suas experiências e são um espaço muito útil para os professores encontrarem inspirações para aplicar à sua realidade específica. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo. Os jogos e as aulas roteirizadas com a linguagem de jogos – gameficação - cada vez estão mais presentes no cotidiano escolar e são importantes caminhos de aprendizagens para gerações acostumadas a jogar.

Como mudar uma escola que é lugar de obrigações, horários e currículos rígidos, para que a mesma seja lugar de aprender, interagir, inovar, buscar soluções, criar e se relacionar?
Gestores devem liderar o processo de sensibilização dos docentes, mostrando experiências de quem está inovando, primeiro dentro da própria escola (que sempre existem). E importante criar um grupo de inovação com esses docentes, alunos e pais. Fazer ações de formação continuada, mão na massa com os professores e compartilhar as melhores práticas. Envolver estudantes também no apoio à formação docente, principalmente no uso de tecnologias digitais. As escolas mais interessantes conseguem criar um clima de confiança, de diálogo, de participação efetiva entre todos – gestores, docentes, estudantes, famílias e organizações próximas. Escolas interessantes têm excelentes gestores e docentes, criativos, empreendedores e que dialogam sempre. Esse é um dos problemas complicados para inovar: a dificuldade de aprender a conviver de verdade, de chegar a acordos apesar das diferenças e de ter lideranças que conciliem empreendedorismo com humanização. As escolas interessantes enfatizam a aprendizagem por experimentação, por projetos. Equilibram a personalização (escolha de itinerários – com apoio de plataformas digitais), aprendizagem em times e a tutoria/mentoria (projeto de vida) e a avaliação mais formativa do que somativa. Outro diferencial é a importância do contato com o entorno, com o mundo, não só para conhecê-lo, mas para contribuir com soluções reais, com contato com a vida, com a cidade, com o mundo (redes, comunidades) com as áreas profissionais desde o começo; uma troca rica com o entorno. É a escola-serviço, em que os alunos aprendem em contato com a comunidade e desenvolvem projetos que beneficiam essa mesma comunidade.

Como pais devem direcionar as crianças ou os adolescentes para o uso de mídias e tecnologias? Você pode falar um pouco sobre lixo tecnológico?
A maior parte das crianças e jovens (também dos adultos) “vive” em ambientes digitais (celulares principalmente) de forma contínua, imersiva, “normal”, com interações cada vez mais frequentes e utilizações mais amplas para entretenimento, comunicação, aprendizagem e inúmeros serviços. Ainda estamos tentando entender cientificamente o impacto do digital nas nossas vidas. Os resultados das pesquisas são contraditórios, porque envolvem muitas variáveis e visões de mundo diferentes (das mais alarmistas às mais otimistas). Só proibir não resolvem nem educa. Liberar total sem acompanhar beira a irresponsabilidade. O que podemos fazer pelas crianças e adolescentes é equilibrar a relação afetiva e carinhosa com os filhos com os necessários limites também no uso dos celulares, jogos e redes sociais (tempo de uso, conversar sobre o que vão descobrindo e impactando). Podemos utilizar alguns filtros que limitem o acesso a sites complicados, mas sabemos que não conseguiremos controlar tudo. É importante acompanhar os filhos com carinho e cuidado, estabelecendo relações de confiança para conseguir perceber quando algo está fora do previsível (bullying, redes que os expõem a perigos em todos os campos) e assim ajudá-los nos momentos que mais precisem. Conversar sempre que possível e dar o exemplo como adultos de que mantemos um uso equilibrado do celular, principalmente nos tempos que podemos dedicar a estar com os filhos. Temos problemas no uso excessivo que pode virar dependência, no fechamento em redes unilaterais, de pensamento único, nas fake News. Pais e docentes podem ser aliados no apoio a atividades criativas, sadiamente lúdicas, de ampliação de uma visão humanista, equilibrada e crítica do mundo.

Fale-nos sobre o projeto escola do futuro?
O projeto Escola do Futuro surgiu de um projeto de pesquisa em 1989 – há trinta anos - para entender o impacto da Internet que então estava restrita às universidades públicas na aprendizagem escolar. Mostrou-nos o caminho da personalização, das redes, da coautoria, do ensino e aprendizagem online. Ao mesmo tempo subestimamos como pesquisadores as dificuldades de transformar a escola de forma mais ampla. Pensávamos muito na integração entre o presencial e o online, no ensino a distância, mas, com o tempo constatamos que as questões eram mais profundas, que a Escola e Universidade tinha que ser repensada em todas as dimensões (currículo, gestão, espaços, metodologias, tecnologias, avaliação, formação docente, relação com a família e sociedade). Só agora é que estamos percebendo quando ainda nos falta realizar para termos escolas de qualidade, para todos, principalmente para a maioria das crianças e jovens mais necessitados do Brasil. O projeto continua na USP, com pesquisadores mais jovens e questões cada vez mais desafiadoras e complexas para enfrentar.

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