Sertão Surto de doença de Chagas aguda é investigado em Pernambuco

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 31/05/2019 08:01 Atualizado em: 31/05/2019 15:30

Foto: Ary Rogerio Silva/OPAS/OMS.
 (Foto: Ary Rogerio Silva/OPAS/OMS.
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Foto: Ary Rogerio Silva/OPAS/OMS.
Um surto de doença de Chagas está sendo investigado no município de Ibirimim, no Sertão de Pernambuco, pela Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE). Até o momento, 20 pessoas tiveram o resultado laboratorial positivo para doença de Chagas aguda (DCA) e outras cinco apresentaram sintomas da enfermidade. Todas elas participaram de um evento religioso na cidade sertaneja, que ocorreu durante a Semana Santa. A primeira notificação chegou ao estado no dia 20 de maio e, desde então, foi iniciada uma investigação para identificar as causas dos sintomas apresentados.

Participaram do encontro 77 pessoas, sendo 69 adultos e oito crianças. Cerca de 25 pessoas apresentaram sintomas diversos, dando início à investigação. Houve suspeita de leptospirose e até foram realizados testes rápidos de malária, que deram positivo em alguns pacientes. Porém, depois de estudos no sangue, foi identificada em alguns pacientes a presença do protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. 

A suspeita é de que as pessoas tenham sido contaminadas por via oral, de acordo com o Hospital Universitáro Oswaldo Cruz (HUOC). A SES ressaltou que, entretanto, até o momento, não há evidências para definição da forma de transmissão da doença, o que está sendo analisado. A suspeita é que os participantes do evento tenham comido algum alimento contaminado. A SES iniciou também a busca por insetos do tipo barbeiro contaminados na região onde foi realizado o evento.
 
Atualmente, oito pacientes encontram-se hospitalizados no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC). De acordo com a SES, o grupo está com quadro estável e sendo tratado com o medicamento Benzonidazol. Os demais também estão sendo medicados e passam bem, afirmou em nota a secretaria. Dois pacientes irão receber alta nesta sexta-feira (31). Uma busca ativa de casos suspeitos está sendo realizada, em conjunto com as equipes da Regional de Saúde e do município de Ibimirim, para identificação de possíveis outros casos.

Estão sendo inseridos na investigação indivíduos participantes do evento religioso e que apresentem febre contínua, intermitente e prolongada por cerca de sete dias, acompanhada ou não dos seguintes sintomas: edema de face ou de membros, manchas vermelhas na pele, inchaço de gânglios, inflamação do fígado, inflamação no baço, cardiopatia aguda, manifestações hemorrágicas, icterícia, náusea, perda ou diminuição de força física, dor nas articulações, edema inflamatório nas pálpebras ou edema inflamatório na pele.
 
Os pacientes que desenvolveram o sintoma e foram identificados na fase aguda iniciaram o tratamento medicamentoso, que pode levá-los à cura. A notificação compulsória da doença de Chagas é realizada somente para os casos agudos, mas não há registro de casos confirmados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) em Pernambuco nos últimos anos. "Esse pode ser considerado o primeiro surto registrado em Pernambuco e o maior que já aconteceu no país, pelas informações que temos até então", afirmou o infectologista do HUOC Demetrius Montenegro. 

Sobre os casos crônicos, até o mês passado, 838 pacientes estavam cadastrados no Ambulatório de Doença de Chagas do Procape/UPE, referência para este tipo de atendimento, e mais de 2 mil eram acompanhados pelo serviço. "Por mês, identificamos cerca de 10 novos casos, de pessoas que vivem a doença e não sabem", explicou o cardiologista Wilson de Oliveira Junior, fundador e chefe da Casa de Chagas. 

Estima-se que no Brasil existam 1 milhão de pessoas infectadas pelo protozoário causador da doença. Entre 2008 e 2017, foram registrados casos agudos na maioria dos estados brasileiros. A maior distribuição, cerca de 95%, concentra-se na região Norte. Em relação às formas prováveis de transmissão ocorridas no país, 72% foram por transmissão oral e 9% por transmissão vetorial. Em Pernambuco, em 2015, 19 municípios corriam o risco de surto de doença de Chagas, pelos altos índices de infestação existentes nos imóveis. Ibimirim, entretanto, não era um deles.


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