Série Envolvimento da família é essencial para educação na primeira infância

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 25/05/2019 07:00 Atualizado em: 27/05/2019 20:18

Entre o primeiro e o sexto ano de vida, a criança forma uma base de conhecimentos que vai usar no futuro. Crédito: Tarciso Augusto/Esp. DP Foto
Entre o primeiro e o sexto ano de vida, a criança forma uma base de conhecimentos que vai usar no futuro. Crédito: Tarciso Augusto/Esp. DP Foto

Investir na educação desde a primeira infância gera retornos positivos não só no desenvolvimento das crianças, mas financeiros e sociais. Nos anos 1960, 123 alunos de uma escola norte-americana foram divididos aleatoriamente em dois grupos. O primeiro, com 58 crianças, recebeu uma educação pré-escolar de alta qualidade. O segundo, com 65, não. Os resultados do Perry Preschool Project são até hoje usados como referência para reforçar a necessidade de investir em uma boa educação desde os primeiros anos de vida. O estudo mostrou que alunos de escolas de alta qualidade têm mais chances de estarem empregados e menos chance de cometer crimes.

Entre o primeiro e o sexto anos de vida, a criança forma uma base de conhecimentos que vai usar no futuro. Neurocientistas apontam que em nenhuma outra fase da vida as respostas serão tão rápidas quanto as que ocorrem na primeira infância. Um dos principais estudiosos do assunto, o professor da Universidade de Chicago e prêmio Nobel de Economia em 2000, James Heckman, por exemplo, defende que essa é uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e com um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável.

Entre o nascimento do primeiro e o da terceira filha, a comerciária Elian de Lima, 36, buscou informações sobre a importância da escola nos primeiros anos de vida. Tornou-se mais parceira da gestão escolar e é considerada uma mãe participativa. “Acompanho a vida escolar deles e confio na instituição de ensino. Vejo a escola como parceira no processo de educação deles, mas não a única responsável. Em casa, a atenção, o cuidado, as historinhas, as brincadeiras continuam”, conta a mãe de Emanuel, 6; Iris, 2, e Marisa Letícia, 11 meses.

Os filhos entraram na Creche Oito de Maio, no Ibura, desde antes de completar um ano. “Minha visão sobre a educação infantil muito nos últimos anos. Quando eu era adolescente, a impressão sobre creche que tínhamos era de um lugar onde a criança ficava sem estímulos, sem aprender”, diz. “Sempre fui alfabetizadora e trabalho com educação há 26 anos. Quando ingressei na pedagogia, a educação infantil não era tão valorizada. Era muito limitada à educação privada. A noção sobre essa importância tem se fortalecido nos últimos anos”, afirma a gestora da creche municipal onde os filhos de Elian estuda, Sandra Pereira.

Para a pedagoga e mestra em psicologia educacional pela Universidade de Nova York (NYU), Ana Luiza Colagrossi, o envolvimento da família é essencial no processo de educação na primeira infância. “Família e escola devem caminhar juntas, uma potencializando a ação da outra. Quando fazem isso, quem ganha é a criança. Engajamento familiar não é só a presença dos pais na unidade escolar, mas que eles contribuam para o desenvolvimento da criança. Para isso, a escola também precisa abrir as portas. Quando a escola tem escuta familiar, entende o comportamento que uma criança pode estar tendo. Já os pais, conversando com a escola, entende o comportamento em casa do filho”, ressalta.  

Brincar livre
Nos primeiros anos de vida, a aprendizagem se dá por meio do brincar. Ao explorar o mundo a partir das brincadeiras, a criança coloca em desenvolvimento habilidades físicas, sociais, emocionais e intelectuais. Elas aprendem sozinhas sobre o cumprimento de regras, a lidar com desafios e frustrações, a conviver com as diferenças. São apresentados à vida social e cultural, na medida em que as brincadeiras também significam o repasse de tradições. “Brincadeira é, ao contrário do que se pode pensar, assunto sério. O papel do adulto é oferecer à criança um ambiente seguro e propício para que ela se desenvolva”, enfatiza a pedagoga e gestora da Escola Planeta Kids, especializada em educação infantil, Flávia Lyra. Na escola, o brincar livre faz parte da grade curricular. Na rede municipal do Recife, foi criado o programa Brinqueducar, composto por playground, brinquedos, jogos educativos e livros de literatura com o objetivo de estimular a aprendizagem de forma lúdica.
 
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Cidade pode ser um espaço de aprendizagem
Crédito: Leandro de Santana/Esp. DP Foto
Crédito: Leandro de Santana/Esp. DP Foto
 
A cidade é um espaço de oportunidades para desenvolver as habilidades durante a primeira infância. O espaço urbano onde a criança vive é também um local de aprendizagem. O território funciona como “cidade educadora” quando, para além das funções básicas, integra políticas públicas com foco em servir de ambiente pedagógico. Por isso, pensar o urbanismo de acordo com as necessidades de crianças de 0 a 6 anos responde a um desafio de futuro sustentável para as metrópoles.

“As cidades deixaram de ser um espaço de encontro, de relações. Passamos a ficar cada vez mais nos espaços privados e pensá-la como local de trânsito. As cidades precisam de áreas verdes adequadas, limpas, de estruturas para que as famílias possam acessar. Como a criança vai usufruir da cidade, estar ao ar livre?”, questiona a pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana, Maria Isabel de Barros.

Pensar o planejamento urbano de acordo com o olhar de uma criança é um plano de futuro, que no Recife ficou evidenciado a partir do projeto Recife 500 anos. A capital pernambucana, diante da verticalização, carecia de espaços aptos ao deslocamento e ocupação das crianças. Foi assim que o projeto Mais Vida nos Morros decidiu redirecionar o olhar para a primeira infância, redesenhando espaços e adequando morros da Zona Norte do Recife para os pequenos. “As intervenções são realizadas com a participação das crianças das comunidades. Com isso, estimulamos a criatividade, a capacidade de aprendizado e de imaginação, a interação delas com o espaço urbano”, afirmou o secretário-executivo de Inovação Urbana, Tullio Ponzi.

Até então, 12 localidades passaram por intervenções. A última foi o entorno da Rua Catiguá, no Vasco da Gama, onde vive Geovanna, 5 anos. Depois que viu a barreira em frente a própria casa pintada e o parque da praça reconstruído, a menina agora pede com frequência para brincar ao ar livre. “A gente sempre fica com medo de deixar por causa da violência. De toda forma, a pintura deu mais vida ao bairro. Agora, o pessoal para aqui, vem para tirar foto”, conta a mãe da menina, a dona de casa Mônica Mendonça, 38.

Novidades
O projeto de Mais Vida nos Morros está expandido as atividades para alcançar mais comunidades do Recife, a pedidos dos próprios moradores. A partir de junho, a cidade será gamificada. Isto é, será lançada uma espécie de competição, baseada em engajamento prévio, que premiará 30 localidades com pequenas intervenções semelhantes às realizadas no Mais Vida. “Percebemos que os moradores estão cuidando mais da própria comunidade e que outras comunidades estão se inspirando. Essas 30 intervenções serão escolhidas pelos próprios moradores, para transformar os ‘microvazios’ urbanos”, detalhou o secretário-executivo. A prioridade na seleção dos participantes será áreas que contemplam equipamentos dedicados à primeira infância, como creches e upinhas.

Além disso, será desenvolvido um trabalho de pedagogia urbana, que consiste em visitas guiadas de estudantes de escolas públicas e privadas aos locais contemplados pelo Mais Vida nos Morros, que deve começar no segundo semestre. Nas localidades, os alunos acessarão cartilhas e desenvolverão atividades como aulas de compostagem. Outras três comunidades também receberão o Mais Vida: Alto do Buriti, em junho, Campo da União, em julho, e Brasília Teimosa, marcando a chegada do projeto na Zona Sul do Recife. 



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