ENTREVISTA "Tornar o aprendizado relevante"

Publicado em: 17/05/2019 20:14 Atualizado em: 17/05/2019 20:55

Professora da UFPE, Alina Galvão fala da importância da atualização dos professores. Crédito: Arquivo Pessoal
Professora da UFPE, Alina Galvão fala da importância da atualização dos professores. Crédito: Arquivo Pessoal

Alina Galvão Spinillo possui graduação em psicologia (1978) e mestrado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (1984), doutorado em Psicologia do Desenvolvimento pela University of Oxford, Inglaterra (1990) e pós-doutorado na University of Sussex, Inglaterra (1998). É Professora Titular do Departamento de Psicologia e da Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva da Universidade Federal de Pernambuco. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Psicologia da Educação Matemática (NUPPEM). Pesquisadora Nível 1 do CNPq, tendo como áreas de pesquisa a Psicologia do Desenvolvimento Cognitivo e a Psicologia da Aprendizagem. Suas investigações versam sobre os seguintes temas: psicologia da educação matemática, com ênfase no desenvolvimento de conceitos matemáticos e sentido numérico em crianças; o conhecimento de crianças sobre textos; desenvolvimento da consciência metatextual; produção e compreensão de textos orais e escritos em crianças; e letramento em uma perspectiva psicológica. A partir de estudos de intervenção na área de linguagem e de conceitos matemáticos tem examinado as relações entre aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, extraindo implicações educacionais relativas à educação infantil e ao ensino fundamental.

Quais as contribuições da psicologia para a Educação Matemática?
Uma contribuição importante, de natureza geral, é a ideia de que desenvolvimento cognitivo e aprendizagem são relevantes para o ensino, especialmente em relação à matemática. Para se ensinar, dentre outras coisas, é necessário saber como o estudante pensa e compreende os conceitos matemáticos que a escola deseja que ele aprenda. Tendo isso em mente, o ensino passa a considerar as formas de raciocinar do aluno e a tentar identificar as dificuldades que ele enfrenta na aprendizagem desses conceitos. Na realidade, a didática não pode dispensar a contribuição da psicologia, uma vez que as formas de ensinar estão relacionadas a formas de aprender e formas de raciocinar. Pesquisas no âmbito da Psicologia da Educação Matemática têm contribuído nesta direção. Há estudos que descrevem os diferentes momentos do desenvolvimento em relação à aquisição de um dado conceito matemático; outros permitem identificar fatores que influenciam possam vir a facilitar a aprendizagem e os fatores que dificultam a compreensão da criança. Uma das grandes contribuições, na minha opinião, são os estudos de intervenção que, além de esclarecer questões teóricas importantes, têm aplicações práticas. Esses estudos permitem investigar em que o conhecimento sobre o desenvolvimento cognitivo pode contribuir para o ensino e a aprendizagem da matemática e ao mesmo tempo que permitem investigar em que o ensino e a aprendizagem da matemática podem contribuir para desenvolvimento cognitivo. Os resultados dessas pesquisas têm sido considerados em algumas ações educacionais importantes, como por exemplo produção de livros didáticos, programas de avaliação de livros didáticos, elaboração de propostas curriculares e até em programas de capacitação de professores.

A Psicologia da Educação Matemática é uma área recente? É conhecida apenas no exterior ou também no Brasil?
É antiga e conhecida tanto no exterior como no Brasil. Em 1976, na Alemanha durante um congresso internacional em Educação Matemática, criou-se um grupo de estudos denominado Psicologia da Educação Matemática, que articulava esses três campos do conhecimento com vistas a elaborar reflexões teóricas sobre ensino e aprendizagem da matemática. Além disso, o grupo tinha interesse em estimular pesquisas que permitissem criar situações didáticas que propiciassem o desenvolvimento do conhecimento matemático dos estudantes. Além de interdisciplinar, a Psicologia da Educação Matemática tem um caráter teórico, empírico e aplicado. No Brasil, encontrou terreno fértil em alguns centros de pesquisa e no âmbito de sociedades de abrangência nacional como a ANPEPP (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia), a ANPED (Associação Nacional de Pesquisa em Educação) e a SBEM (Sociedade Brasileira de Educação Matemática). Em Pernambuco, especificamente, em 1996 o Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva da UFPE sediou o 19º Encontro Anual do International Group for the Psychology of Mathematics Education e mantém, desde 2006, o NUPPEM (Núcleo de Pesquisa em Psicologia da Educação Matemática) que, agora em maio, sedia o IV SBPEM (Simpósio Brasileiro de Psicologia da Educação Matemática). Este simpósio que congrega estudiosos de diferentes estados do país e do exterior é uma parceria com a UPE, com a UFRPE e com o EDUMATEC (Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica) da UFPE. Esta parceria evidencia que a este campo de estudo interessa a muitas instituições. Na realidade, Pernambuco tem se destacado neste campo do conhecimento, o que muito nos orgulha.

Muito tem se falado sobre tornar significativo o aprendizado do aluno em tempos de transformação na área de educação.  Esse é um dos objetivos da sua proposta. Como alinhar escolas, sociedade e pais para uma aprendizagem que para a maioria dos alunos é considerada difícil?
Tornar o aprendizado significativo e relevante para o aluno permite tanto que ele perceba a possibilidade de aplicar o conhecimento escolar a situações extraescolares como também o inverso, ou seja, aplicar o conhecimento matemático adquirido fora da escola às situações de aprendizagem no contexto de sala de aula. É fundamental que o aluno perceba as relações que existem entre os conhecimentos matemáticos adquiridos em casa, nas ruas, no trabalho, por exemplo, e as atividades matemáticas propostas em sala de aula. Esta articulação é uma via de mão dupla em que o conhecimento matemático adquirido fora da escola participa e influencia a aquisição do conhecimento matemático tratado na escola e vice-versa. Ambos são mutuamente constitutivos. Tanto a escola como a família precisam estar cientes disso, entender que há diversas formas de aquisição do conhecimento matemático. A escola, por sua vez,precisa favorecer a compreensão desta relação por parte dos estudantes e das famílias. Às vezes os professores não sabem que conhecimentos matemáticos seus alunos já trazem para a sala de aula e muitas vezes o próprio aluno não percebe que um dado conhecimento matemático adquirido na escola pode auxiliar na resolução de situações do dia a dia. O professor assume papel fundamental no entendimento desta relação ao propor atividades que aproximem esses dois mundos: escola e outros contextos sociais em que os estudantes estão inseridos quando não estão na escola.

Como informações neste campo de estudo podem chegar até os gestores de escolas e até os professores que ensinam matemática?
A formação de professores é fundamental. Quando digo formação, me refiro tanto à formação acadêmica do professor obtida em cursos de graduação e licenciaturas, como a sua formação continuada, em serviço, que permite que ele se atualize. Os gestores, por sua vez, além de se atualizarem, precisam criar estratégias que garantam que os professores se atualizem. Cursos de capacitação permanentes sobre questões específicas do ensino de Matemática, participação dos professores e gestores em eventos e acesso à informação são fundamentais. Este acesso é facilitado por meio de uma relação e uma parceria mais estreita entre universidade e escola. Vejo, ainda, a relevância de se criar recursos para que os dados das pesquisas se traduzam em situações didáticas a serem apresentadas aos professores e gestores. Neste sentido, acesso a material impresso, redes e plataformas digitais são veículos importantes. A tecnologia assume papel fundamental, inclusive inserindo o próprio estudante em atividades em rede e em plataformas. O importante é que os dados de pesquisas gerem implicações educacionais diversas.

Qual o papel da universidade em uma proposta como esta? Ela tem preparado seus professores para criarem no aluno um pensamento mais sofisticado em relação à matemática?
Esta preocupação é antiga e embora muito já tenha sido feito nesta direção, ainda precisamos ser mais eficientes nisso. É fundamental estreitarmos ainda mais os laços entre universidade e escola. A SBEM (Sociedade Brasileira de Educação Matemática) e suas regionais têm contribuído no sentido de estabelecer esta relação, promovendo eventosque congregam pesquisadores e professores que ensinam Matemática em torno de questões relativas ao ensino e à aprendizagem em todos os segmentos escolares. As universidades também têm promovido eventos e ações voltadas para esta interlocução. Contudo, é necessário que haja dispositivos institucionais permanentes que viabilizem a aplicação do conhecimento construído na academia às situações de ensino. Na realidade, a preparação dos professores nas universidades deve incluir tanto a formação acadêmica oferecida nos cursos de graduação como uma formação continuada que não significa, necessariamente, um curso de pós-graduação. As universidades têm muito a oferecer, não apenas em termos do conhecimento construído por meio das pesquisas que realiza, mas também em relação a gerar formas de interlocução entre o saber construído e o saber aplicado. Sem dúvida, vejo a universidade como a instituição que pode articular teoria, pesquisa e ensino. A Psicologia da Educação Matemática é um exemplo disso: nascida na academia, voltou-se para a aplicação da teoria e da pesquisa ao ensino de matemática. Muito do conhecimento construído neste campo tem chegado aos professores, mas, sem dúvida, há ainda muito a fazer para que a articulação teoria, pesquisa e ensino seja uma prática constante. 



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