Movimento Maker O Movimento Maker e a escola do futuro

Publicado em: 03/05/2019 19:41 Atualizado em:

Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press
Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press

Confira a entrevista com Edgar Andrade, fundador do Fab Lab Recife e sócio da Robô livre. 

 

Diario de Pernambuco - O que é exatamente o Movimento Maker?

Edgar Andrade - Existe uma variedade imensa de interpretações. Alguns defendem que o Movimento envolve as pessoas e espaços que trabalham com fabricação digital, que permite transformar arquivos digitais em algo físico. A impressora 3D e a cortadora a laser são exemplos de máquinas usadas para reproduzir coisas. Tenho uma visão mais ampla,  pois entendo o Movimento Maker como uma ferramenta para a transformação na maneira como nos relacionamos com o consumo. Em essência, defendemos que as pessoas reduzam a quantidade de coisas compradas e passem a fazer mais, botar a mão na massa. Existem formas simples de fazer isso. Por exemplo, Marcelo Tas é um cara que se considera maker por ser jardineiro nas horas livres. Concordo plenamente e acredito que a gente deva estimular mais essas experiências ao invés de definir rótulos e regras de controle dessa adesão. O Movimento pode ter um papel extremamente relevante nos próximos anos, não só acreditamos como estamos trabalhando fortemente para contribuir com esse processo.

 

DP - Hoje os alunos têm um grande acesso à tecnologia e os professores não são mais os detentores do saber. Como você define a relação aluno-professor, em um momento onde todos estão passando por uma transição no que diz respeito às demandas do mercado?

EA - Pra começar eu acredito que a profissão do professor e da professora será valorizada imensamente nos próximos 10 anos. Por um motivo muito simples, e que alguns podem considerar contraditório: muita gente tem dito por aí que o formato atual da escola e - principalmente - da universidade estão perdendo terreno porque todo o conhecimento do mundo está na internet. Na minha visão é exatamente pelo fato de todo o conhecimento do mundo estar acessível que o professores e professoras serão cada vez mais relevantes. Agora precisam entender que o papel mudou: não cabe mais o papel de “iluminar” os alunos.  O novo professor é um articulador de conteúdos. Passa a ter uma missão fundamental, que é ajudar as crianças a construir as relações entre esses conteúdos de uma forma que façam sentido no mundo real. E também não podem continuar resistindo à cultura digital. Ela é uma realidade e em 10 anos a primeira geração nativa digital estará mandando no mundo. Também é preciso ter muito cuidado ao relacionar a educação básica ao mercado pois esse mercado também será redesenhado nos próximos anos. Precisamos aproveitar esse momento histórico de transição para ressignificar a escola e seu papel, entendendo que não é a tecnologia que resolverá os problemas da educação e do mundo, e sim as pessoas. A tecnologia é apenas ferramenta e que deve sim ser utilizada. As pessoas precisam ser empoderadas para se tornarem agentes transformadores ao invés de cidadãos passivos.

    

DP - Quais são os caminhos para uma Educação Maker?

EA - Estamos trabalhando há um bom tempo na construção da nossa metodologia de aprendizagem criativa, que se baseia nos mesmos processos de design que rodamos para desenvolver produtos para empresas ou até para a indústria. A essência do nosso trabalho não está no laboratório, nas máquinas, pois tecnologia é só ferramenta. Nos baseamos na crença de que, se os jovens forem capazes de identificar problemas, estudar suas nuances, pensar em possíveis soluções, testá-las e validá-las, eles serão capazes de fazer qualquer coisa. A Educação Maker pode contribuir imensamente para a formação das habilidades do futuro. Uma pesquisa realizada pela revista Você S/A revela que 87% das demissões hoje em dia são por problemas comportamentais e apenas 13% por problemas técnicos. Os jovens até chegam tecnicamente preparados no mercado, mas são incapazes de lidar com o erro e com as frustrações, colaborar com colegas, compartilhar informações. Todas essas questões são tratadas de forma intensa no nosso Programa de Educação Maker, em que atuamos no resgate ou potencialização da criatividade, na internalização dos processos de design e na construção do espírito empreendedor. 

 

Tem muita gente preocupada com a universidade em que seu filho ou filha vai estudar. Na minha casa, eu e Mariana nos preocupamos mais com as experiências que João e Oto devem viver ao longo da vida estudantil para agregar habilidades como o espírito crítico, colaboração, argumentação, empatia, entre outras. Temos consciência de que, com elas, poderão ser o que quiserem. A principal mudança de paradigmas está aí. O relatório “Futuro do Trabalho”, apresentado no Fórum Econômico Mundial, aponta que 65% das crianças que estão começando o ensino fundamental devem trabalhar em empregos que ainda não existem. Por outro lado, um levantamento feito pelo pesquisador Carl Frey, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, mostra que - nos países em desenvolvimento - mais de 50% dos postos de trabalho vão desaparecer nos próximos anos. Ser médico, engenheira ou advogada já deixou de ser uma garantia de estabilidade financeira. Existem robôs realizando cirurgias, imprimindo casas, escrevendo defesas jurídicas. E olhe que a revolução ainda está começando. 

 

Outra questão me preocupa. A corrida para montar super laboratórios que provavelmente serão subutilizados. Mais uma vez vou parecer contraditório. Mas a prioridade para esse momento de ressignificação deve ser o engajamento e empoderamento de professores e professoras, que precisam urgentemente perder o medo da tecnologia, perder o medo de pedir ajuda para estudantes ao invés de resistir às ferramentas disponíveis. A construção da escola do futuro virá das pessoas, não das tecnologias. E o que estamos fazendo é ajudar construir comunidades makers e inovadoras, esse é o espírito. Não é apenas ensinar a usar essas tecnologias, é estimular a criação do pensamento inovador.

 

DP - O Movimento Maker tem em sua base a ideia de que pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos e projetos com suas próprias mãos. Por qual motivo ainda se tem tão pouco acesso e prática no Brasil?

EA - Essa pergunta é fundamental e antes de respondê-la vou propor uma reflexão: por que o Movimento cresce numa velocidade impressionante nos EUA, que estimam ter mais de 135 milhões de makers? Fazer coisas faz parte da cultura norteamericana desde a sua fundação, da ocupação do oeste através da construção das ferrovias até as primeiras empresas que nasceram nas garagens. Se você observar direitinho vai perceber que até nos filmes é recorrente encontrar cenas de oficinas nas garagens, porque isso faz parte da cultura deles. No Brasil, nossa sociedade se forjou em uma cultura escravocrata e fomos acostumados a sermos servidos e não a fazer as coisas. Já parou pra pensar que até para trocar uma tomada a gente liga para um faz-tudo? O primeiro exercício que proponho é o de começar a ajeitar as coisas dentro de casa. Hoje existe tutorial para tudo e sem dúvida você encontrará a ajuda que precisa. O segundo passo é pensar em algo que você gostaria de comprar e tentar materializar esse objeto. Por exemplo, você pode construir uma mesa de centro no Fab Lab Recife, existem diversas plataformas que compartilham projetos prontos. Você só precisa baixar e chegar no Fab Lab com o arquivo, cortar as peças e montar em casa ou no próprio Fab Lab, pagando apenas pelo material e uso dos equipamentos.

 

A principal barreira para o crescimento Maker no Brasil é cultural. E por isso entrar nas escolas é tão importante pra gente, pois ajudaremos a criar gerações de makers e empreendedores, que poderão ter um olhar diferente em relação ao consumo, refletindo sempre sobre comprar ou fazer, e ainda com olhar inovador sobre os problemas e oportunidades do mundo.

 

DP - O que você poderia dizer sobre o laboratório Fab Lab?

EA - O Fab Lab é o espaço onde as coisas se materializam. Nasceu no Massachussets Institute of Tecnology (MIT) em 2001 e hoje a rede se espalha com quase 1.700 labs em mais de 100 países. O nosso foi o sétimo do Brasil. Nesses labs você encontra impressoras 3D, cortadora de vinil, fresadoras, ferramentas de marcenaria e eletrônica, conformadora à vácuo, e por aí vai. Porém, como comentei antes, o mais importante é que nesses labs tem uma galera disposta a te ajudar a materializar suas ideias. Você pode pagar para ter acesso a esses serviços mas também pode usar o lab de graças pois toda sexta a gente realiza o Open Day, período em que a galera acessa nossas máquinas de graça, pagando apenas os insumos. Mas antes de chegar no Open Day a gente sempre recomenda que as pessoas façam nossas oficinas básicas de fabricação digital para aprenderem a usar os equipamentos. Porque nosso principal objetivo é instigar as pessoas a usarem o nosso lab e botarem a mão na massa. Não somos um birô de serviços, nem pretendemos ser. 

 

Cada Fab Lab espalhado pelo mundo tem seu perfil. Acredito que a maioria deles são ligados a universidades mas alguns estão dentro das empresas e também existem os que são iniciativas independentes, como o Fab Lab Recife. Nesses casos o maior desafio é encontrar um modelo de negócio que seja sustentável financeiramente, permitindo garantir as entregas à sociedade, que representam a principal missão da rede, democratizar o acesso técnico e financeiro a essa plataforma de inovação. No nosso caso, o que faz a roda girar são os projetos que a gente desenvolve em parceria com empresas e instituições públicas. Desenvolvemos produtos para empresas e temos uma agenda de formação para times corporativos, para mudança de mindset e estímulo ao espírito inovador e de colaboração entre as equipes. Desenvolvemos projetos para a transformação das cidades e, para isso, realizamos eventos como a Makeathon Comunidades, uma maratona maker que utiliza a fabricação digital para a rápida materialização de soluções que minimizem ou solucionem problemas urbanos reais, sobretudo em comunidades em condições de vulnerabilidade social. Num curto espaço de tempo (entre 36 e 48 horas), as equipes precisam desenvolver o protótipo dessa solução. E desenvolvem! Em breve também anunciaremos uma plataforma de conteúdos do Universo Maker e de Inovação, não posso soltar spoiler ainda mas posso adiantar a Petrobras será nossa parceira. 

 

DP - Trabalhar o Movimento Maker na educação, seja nas escolas, em creches ou na formação empreendedora, pode realmente promover a inovação? Por que?

EA - O que mais nos instiga é ajudar a redesenhar as escolas pois temos certeza absoluta de que só mudaremos o mundo através da educação. Entrar nas escolas privadas como a ABA Global Education, Colégio Apoio e Escola Encontro - que já perceberam as mudanças que estão por vir e se adiantaram em relação às outras - é muito bacana, nos motiva demais! Agora temos consciência de que para mudar o mundo mesmo, valendo mesmo, só através das escolas públicas, que reúnem 82% dos estudantes do País. Não entrar nas escolas públicas significa ampliar ainda mais a desigualdade, porque em breve a maioria das escolas privadas terá aderido a esse movimento. E nos anima muito a construção da parceria com a Prefeitura do Recife. Estamos entrando com tudo nas escolas da rede municipal e isso é só o começo. Queremos ajudar essas crianças e jovens a chegar no ensino médio dominando técnicas e ferramentas que as colocarão em condições de equidade com os estudantes das escolas privadas. Porque acreditamos de verdade que essa galera é capaz de disputar esses espaços, eles já estão fazendo isso. As experiências inovadoras que a Prefeitura vem implementando nos últimos anos já tem gerado resultados incríveis, só estamos chegando com mais um instrumento de conexão dessa meninada com o futuro. 

 

Betita Valentim, minha sócia, estava conduzindo uma atividade de modelagem 3D com crianças de 08 a 10 anos na Maker School (nossa escola maker que funciona no prédio da ABA Global Education e que que qualquer criança de qualquer escola pode participar, é só procurar a gente), e de repente entra uma estudante de Arquitetura que tinha ido contratar o Fab Lab para modelar um arquivo 3D. Quando ela viu uma das meninas modelando uma peça com extrema agilidade ficou impressionada. E esbravejou dizendo que se na época de escola ela tivesse tido acesso a esse tipo de formação (tudo bem que na época não existia), hoje ela teria muito mais facilidade para desenvolver seus projetos. É disso que estou falando. Permitir que essa meninada acesse ferramentas e práticas que serão determinantes para suas futuras profissões, independente do caminho que escolherem. Porque a gente, além de ensinar técnicas importantes, prepara essa galera para resolver problemas. Então, sem dúvida estamos ajudando a formar uma galera com perfil extremamente inovador. 

 

DP - Batalha Maker Brasil, no Discovery Channel será a sua nova aventura, nos conte um pouco mais sobre esse projeto.

EA - Essa experiência tem sido literalmente uma aventura. Primeiro por ter participado de um processo de seleção para um programa de TV, e ter sido selecionado no meio de uma galera incrível. Depois, passar 40 dias mergulhado num estúdio com 70 pessoas trabalhando em ritmo alucinante foi muito surreal. No estúdio tem o switch, que é uma sala com vários monitores gigantes onde a gente acompanha tudo o que está acontecendo nas 10 câmeras que geravam 10 terabytes de conteúdos por dia. Fábio Ock dirigindo tudo e Caipira comandando as câmeras como se narrasse um jogo de futebol, foi muito foda. Eu sempre pedia pra Caipira repetir aquilo. É insano imaginar que tem 10 participantes fazendo coisas diferentes, em ambientes diferentes do laboratório que montamos, com níveis de tensões diferentes. Jogar as câmeras de um lado para o outro se assemelhava e muito à dinâmica de um jogo de futebol. Miúdo, Bahia e os outros câmeras brincavam o tempo todo e o clima era muito bacana. Nas próximas semanas vou postar um vídeo de uma brincadeira em que os câmeras se juntaram para eliminar um dos jurados. Quem será que mandaram pra casa? Eu, Rita Wu ou Ricardo Cavallini? 

 

Outra coisa que me impressionou foi o roteiro. Porque o roteiro de um reality na verdade reflete a expectativa do que pode acontecer, e a trama vai se desenrolando naturalmente e gerando um monte de surpresas. E Larissa dominava essa construção das histórias em tempo real de forma brilhante, junto com Isa, Flávia e Fernanda. Acontece muita coisa incrível nesses bastidores e esse time que Paulo Schimidt, Dante e Juliana Bauer montaram realmente foi impressionante. Infelizmente não tem como mostrar pra vocês, se bem que ao longo das próximas semanas soltarei algumas pílulas desses bastidores, desse verdadeiro parque de diversões que durante 40 dias ocupou a Academia de Filmes. 

 

Tudo isso nasce da cabeça de Flávio Medeiros que concebe o argumento do programa que depois se transformou num projeto incrível, graças a genialidade da equipe Discovery Channel. Essa galera é muito foda para produzir conteúdo. E quando soube que galera de Miami chegaria junto e acompanharia tudo, tive certeza de que esse projeto seria um sucesso. Michaela, de Miami, e Adriana e Sergio, do Brasil, tocando tudo junto com uma galera fantástica. 

 

Da ideia inicial de Flávio até o que começou a ir pro ar não tenho dúvida de que Marcelo Tas foi decisivo. O cara é genial! Comunicador generoso, o tempo todo ensinando e compartilhando suas experiências comigo, com Rita e Cava, que terminaram virando amigos de infância. Tudo isso junto sem dúvida promoveu e está promovendo uma mudança radical na minha vida. Ainda não tenho muita consciência do que pode acontecer e, seguindo orientações de Tas, procuro não criar muitas expectativas, mas começo a ter a impressão de que a brincadeira está apenas começando e que ainda virá muita coisa incrível por aí. Bora moer? 



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