O Centro do Recife pode dar certo

Por: Pierre Lucena

Publicado em: 27/04/2019 15:12 Atualizado em: 27/04/2019 15:30

Credito: Gabriel Melo / Esp. DP (Credito: Gabriel Melo / Esp. DP)
Credito: Gabriel Melo / Esp. DP

 

Sexta-feira estive em uma reunião no Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife, que teve o objetivo de encontrar uma saída para o Centro do Recife, especialmente o bairro de São José.

Em um estudo encomendado a Francisco Cunha, da TGI, estudou-se a possibilidade de uma integração entre os diversos bairros do centro que estariam localizados na Ilha de Antonio Vaz, que vai desde o bairro de Santo Antonio até a área próxima ao Cabanga, passando pelo bairro de São José.

Acredito que o pensamento esteja correto, já que há um certo transbordo da borda da área central forçando uma melhoria no centro e isso precisa ser melhor explorado. Mas um diagnóstico mais detalhado sobre o futuro do comércio precisa ser feito.

O Centro do Recife se divide em duas grandes áreas comerciais: Santo Antonio e São José. Além disso, ainda há um comércio forte na região da Boa Vista.

Para começar é preciso entender que o bairro de São José está resolvido, pelo menos por enquanto. Naquela área se concentrou o comércio popular e vai indo muito bem, apesar da desordem em torno do Mercado de São José, que merecia melhor tratamento. Há vida em São José e isso é o que importa.

Já o bairro de Santo Antonio vem sofrendo um processo de abandono aparentemente irreversível, transbordando para a Rua da Imperatriz, que foi durante muito tempo uma rua com comércio pujante, além de razoavelmente organizada. São dezenas de lojas fechadas aparentemente em definitivo.

Não é difícil entender o que aconteceu. Com a bolha imobiliária que vivemos a partir de 2006, as áreas comerciais centrais, até então cheias de consumidores, passaram a ter espaços alugados em um valor irreal para o comércio. Com a crise, os espaços começaram a ser entregues e as lojas foram deslocadas para os bairros, o que teoricamente é muito bom. Isso aconteceu antes em muitas metrópoles mundo afora.

O problema é que as grandes redes varejistas, que sempre formaram a base comercial de Santo Antonio, perceberam que não há o menor sentido em voltar para o Centro.

Mas com a derrocada deste comércio, o que fazer?

Há várias saídas para o Centro, passando especialmente pelos polos que foram criados ao redor: o médico e o Porto Digital.

É preciso tratar Santo Antonio como mais um bairro, não mais como aquele centro antigo, já que isso não irá acontecer. É preciso aproveitar os serviços de alto valor agregado criados por estes polos para levar moradia para o centro da cidade. Ainda é uma incógnita como o projeto Novo Recife irá se comportar e seu impacto, mas também pode ajudar.

Nesta mesma reunião o urbanista Claudio Marinho, um dos principais responsáveis pela recuperação do Bairro do Recife, falou do transbordo que algumas áreas podem sofrer, mas que é preciso aproveitar esta oportunidade.

É preciso ressaltar que foram feitas diversas intervenções desastrosas para nossa cidade. A primeira e maior delas foi a Avenida Dantas Barreto, que destruiu São José e Santo Antonio. Depois disso, tivemos o Camelódromo, que arruinou por completo aquela área. E para fechar a tampa do caixão, a estação de BRT na Avenida Guararapes. Todas estas intervenções fraturaram o centro da cidade e precisamos reparar de alguma forma. Foi colocada a ideia de um boulevard na Dantas Barreto, se incorporando ao Novo Recife. Tirar aquela estação de BRT da Guararapes também é urgente.

O resultado da reunião é que iremos nos esforçar para encontrar várias pequenas saídas, dentro de uma estratégia geral, para viabilizar um novo centro para o Recife, com a participação do Poder Público.

É também preciso reconhecer a importante contribuição do CDL Recife ao liderar e buscar uma solução para a cidade. Sem a participação dos lojistas sequer estaríamos discutindo este tema.

O Porto Digital tem todo interesse em contribuir para a cidade, até porque a experiência mostrou que é possível revitalizar áreas centrais com projetos econômicos ao invés de espaços reformados e abandonados por falta de viabilização.

A hora é agora, antes que a cidade perca Santo Antonio para o abandono completo.



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