Mobilidade De bicicleta para a sala de aula Na periferia, mulheres são principais responsáveis por levar crianças à escola e, sobre duas rodas, driblam crise e chegam mais rápido ao destino

Por: Marcionila Teixeira - Diário de Pernambuco

Publicado em: 27/04/2019 10:00 Atualizado em: 27/04/2019 10:40

Aleide sofreu preconceito ao parar ao lado de um carro onde a passageira fechou o vidro por medo de assalto. Foto: Peu Ricardo/Diario
Aleide sofreu preconceito ao parar ao lado de um carro onde a passageira fechou o vidro por medo de assalto. Foto: Peu Ricardo/Diario
Na periferia do Recife, cercada por índices gritantes de pobreza, é hora das crianças seguirem para a escola. O movimento de bicicletas guiadas por mulheres surge intenso.  Na maioria das vezes, são elas quem assumem a tarefa de levar os filhos, netos, sobrinhos ou vizinhos pequenos para a sala de aula. Quando o dinheiro escasso não permite gastos com a passagem de ônibus, a bicicleta é uma das poucas alternativas de transporte disponíveis. Nem sempre estão em boas condições de uso. Para os mais pobres, andar de bicicleta não se trata de opção. É apenas umas das poucas saídas.
Quem não dispõe de uma, pede emprestada. Ou caminha por longos trechos para garantir a educação das crianças, seja sob o sol, seja sob a chuva. Contagens realizadas, este ano, pela Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) e Pernambuco Bike Anjo apontam crescimento do uso de bicicletas por mulheres em pelo menos cinco pontos do Recife nos últimos cinco anos.

Aleide Marques, 42 anos, dona de casa, casada, é mãe de Glória, 6. Tem uma Monark original, comprada há uma década, quando trabalhava em uma rede de fast food. Transporta a filha na bicicleta desde quando ela tinha um ano. "No começo ela ia em uma cadeirinha, na frente. Quando Glória passou dos três, comecei a colocar ela no bagageiro, amarrada a uma fralda na minha cela para ela não virar. A cadeira nova custava caro para meu orçamento", lembra. Toda tarde, Aleide percorre dez minutos na ciclovia entre a Ilha do Joaneiro, onde vive, e o projeto frequentado pela criança, no Torreão. Mas percorrer o trecho não é garantia de segurança. "Quem usa muito a faixa são os carroceiros e os idosos, que têm medo dos carros. Também tem muita criança circulando sozinha. Além disso, a faixa nova é muito estreita, nem dá para passar duas bicicletas", queixa-se. Pela manhã, a dona de casa prefere levar a filha à escola a pé. Tem medo de atravessar a Avenida Agamenon Magalhães de bicicleta.

Um dia, Aleide voltou mais triste para casa. Ao parar ao lado de um carro durante um engarrafamento, uma ocupante do veículo fechou o vidro. "Na hora, desci da bicicleta e subi a calçada. Saí pensando: meu Deus, ela pensou que eu fosse assaltar. Acho que por causa da roupa, da bicicleta. As pessoas dão mais valor pelo que você tem, pelo local que você mora. Não querem ver a pessoa que você é." No dia da entrevista, a bicicleta de Aleide amanheceu com um pneu murcho. E ela precisou desembolsar R$ 15 pelo conserto. Ela e o marido estão desempregados. Mas é Aleide quem assume a tarefa de transportar a filha.

Filho de Flaviana, moradora da Ilha Joana Bezerra, já caiu da bicicleta a caminho da creche. Foto: Peu Ricardo/Diario
Filho de Flaviana, moradora da Ilha Joana Bezerra, já caiu da bicicleta a caminho da creche. Foto: Peu Ricardo/Diario
Flaviana Ferreira, 22 anos, não é casada e leva duas crianças para a escola na bicicleta do pai. O filho, de 4 anos, segue no bagageiro e o sobrinho, de 7 anos, vai em uma cesta de plástico improvisada na frente, chamada galeia. Certa vez, o mais novo desequilibrou e caiu. Tinha apenas dois anos e seguia, sem cadeirinha ou cinto, no bagageiro. Mesmo depois do susto, a criança prefere viajar na parte de trás do transporte. Da Ilha Joana Bezerra, Flaviana cruza a Ponte Joaquim Cardoso para chegar à Escola Municipal dos Coelhos. No trecho da subida da ponte, precisa empurrar a bicicleta. Ao todo, percorre 40 minutos para ir e voltar. E mais 40 minutos depois, na hora de pegar os meninos. "Acho que os carros deviam ter mais respeito. Eles andam muito rápido, tirando fino na gente."

Ana usa uma bicicleta sem freio emprestada do vizinho para levar neta à creche, em Brasília Teimosa. Foto: Peu Ricardo
Ana usa uma bicicleta sem freio emprestada do vizinho para levar neta à creche, em Brasília Teimosa. Foto: Peu Ricardo
Todos os dias, Ana Cristina Oliveira, 43, sai da beira rio, atrás do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), no Pina, em direção a uma creche municipal, na Rua Delfin, em Brasília Teimosa, onde deixa a neta, de três anos. Percorre o trecho em 15 minutos, em uma bicicleta sem freio, emprestada pelo vizinho. "Dia desses, um carro parou bem na minha frente e por pouco não caí com minha neta. Muita gente também não para quando vê a gente passar. Deviam respeitar mais porque a gente tá com criança", critica. Nos dias de chuva amena, Ana põe uma capa na neta e arrisca o percurso. Se a chuva está forte, a criança tem grandes chances de ficar em casa. "Não é todo dia que a gente tem dinheiro para a passagem de ônibus."

Camila leva duas filhas pequenas na bicicleta para a escola, mas transporte já está velho. Foto: Peu Ricardo
Camila leva duas filhas pequenas na bicicleta para a escola, mas transporte já está velho. Foto: Peu Ricardo
Camila Gonçalves, 24, tem duas filhas pequenas. Mora na Colônia Z1, no Pina, com as meninas e a mãe. Camila estudou somente até a 8ª série. Mas acha que as filhas precisam estudar. "A escola ensina como se comportar. Aqui elas também brincam, têm amiguinhos", pensa. Todos os dias, ela acorda às 6h30, arruma as crianças e faz o percurso de 15 minutos entre a casa dela, a creche onde a mais nova fica (um ano e sete meses), e a escola onde estuda a mais velha (6 anos). Na chegada à creche, a corrente da bicicleta cai. E ela precisa colocar a mais nova no chão para fazer o conserto. Camila só tem cadeirinha para a mais nova. A mais velha viaja no "quadro" da bicicleta.

Projeto incentiva mulheres em Salvador

Jamile Santana, coordenadora do projeto Preta, vem de bike!, da  ONG Movimenta La Frida, da Bahia, alerta para o assédio sexual contra as mulheres ciclistas. "A não resposta a uma buzinada, a um assédio, pode vir seguida de agressão, como tirar um fino com o carro, passar perto para desequilibrar, para jogar na calçada ou para obrigar a parar", relata. Além disso, diz a cicloativista, tem a chamada carrocracia, onde o ônibus ou carro terminam se impondo como superiores à bicicleta. "Infelizmente as vias são projetadas para os carros." No Preta, vem de bike!, meninas e mulheres negras da periferia aprendem a andar de bicicleta. O projeto busca promover a mobilidade urbana na periferia, o cicloativismo negro e o uso da bicicleta como instrumento de empoderamento de gênero.

Na Região Metropolitana do Recife, as contagens de ciclistas promovidas pela Ameciclo e Pernambuco Bike Anjo buscam avaliar a evolução do uso do modal e as mudanças na cultura da bicicleta nas cidades para, a partir daí, cobrar políticas públicas aos governos. Atualmente a tarefa é feita no Recife, Olinda e Paulista. A metodologia usada é uma adaptação criada pela Associação Transporte Ativo, do Rio de Janeiro, utilizada por associações de ciclistas em todo o país. Na última quinta-feira, promoveram uma nova contagem, desta vez no bairro do Arruda, no Recife.

Mais mulheres estão usando bicicleta no Recife, diz pesquisa. Foto: Peu Ricardo
Mais mulheres estão usando bicicleta no Recife, diz pesquisa. Foto: Peu Ricardo
Já o Plano Diretor Cicloviário (PDC) prevê as diretrizes para a implantação de infraestrutura cicloviária na Região Metropolitana do Recife, além de equipamentos e mobiliários urbanos, campanhas para uso de bicicleta e segurança dos ciclistas. Ao governo do estado, cabe a execução da infraestrutura da chamada malha metropolitana. As gestões municipais da RMR são responsáveis pela execução da malha complementar. O maior desafio no setor, aponta o governo do estado, é a busca por recursos para mobilidade urbana, além de recursos para custeio da manutenção, bem como colaboração das gestões municipais para licenciamento de projetos para implantação de ciclovias.
 
Saiba mais
Dados das contagens de ciclistas realizadas este ano

Rua dos Palmares com Rua Treze de Maio
Data das contagens:  24 fev 2016 – 20 fev 2019
Total -   Aumentou de 1371 (2016)  para 1960
Mulheres - Aumentou de 8,24% para 11,89%

Rua Visconde de Suassuna e Rua do Hospício
Data das contagens: 24 fev 2016 – 20 fev 2019
Total - Aumentou de 436 (2016) para 617
Mulheres - Aumentou de 6,59% (2016) para 11,18%

Rua do Futuro com Rua Dr Malaquias
Data das contagens -  18 mar 2015 – 13 mar 2019
Total - Aumento de 894 (2015) para 1106
Mulheres - Aumento de 5,37% (2015) para 8,95%

Av Mascarenhas de Moraes com Engenheiro Alves de Souza
Data das contagens -  09 abr 2014 – 27 mar 2019
Total - Aumento de 11,40% - de 1386 (2014) para 1403
Mulheres - Aumento de 6,28% (2014) para 8,13% do total

Arq Luis Nunes com Engenheiro Alves de Souza
Data das contagens -  09 abr 2014 – 27 mar 2019
Total - Aumento de 10,82% - de 2282 (2014) para 2529
Mulheres - Aumento de 3,81% (2014) para 11,27%l

Fonte: Ameciclo e Pernambuco Bike Anjo

Rotas cicláveis no Recife:


O Recife tem 70 quilômetros de rotas cicláveis

48 quilômetros foram implantados nesta gestão

Entre 2012 e 2019, a malha cicloviária do Recife aumentou de 24 quilômetros para 70 quilômetros, o que significa um aumento de 190%

Opções de rotas cicláveis para os ciclistas que circulam nos bairros periféricos do Recife:

Zona Norte: Othon Paraíso (4 km), Professor José dos Anjos (8 km), Santos Dumont (700 m), Marquês de Abrantes (1,9 km), que se conectam e atendem os bairros como Campo Grande, Hipódromo, Torreão, Encruzilhada, Santo Amaro, Tamarineira, Ponto de Parada, Mangabeira, e ainda fazem conexão com as rotas que atendem aos bairros do Centro, como a Ciclovia Norte (1,4 km) e o Eixo Cicloviário Camilo Simões (5,1 km)

Zona Oeste: as rotas do Cavouco (2,3 km), Tiradentes (5,6 km), Antônio Curado (3,2 km), Inácio Monteiro (2,4 km), Jardim São Paulo (1,9 km), Compaz Ariano Suassuna (650 m) e Estrada do Bongi (2,6 km) atendem a bairros como Iputinga, Torrões, San Martin, Engenho do Meio, Cordeiro, Jardim São Paulo e Bongi

Fonte: Prefeitura do Recife

Malha cicloviária metropolitana

28,4 quilômetros de malha metropolitana

Fonte: governo do estado 



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