POLÍCIA "Um ano depois da morte, ainda não consigo aceitar"

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 26/04/2019 21:34 Atualizado em: 26/04/2019 21:50

Audiência deveria ter acontecido no 2º Tribunal do Júri, Fórum Rodolfo Aureliano (Joana Bezerra). Foto: Arquivo / DP
Audiência deveria ter acontecido no 2º Tribunal do Júri, Fórum Rodolfo Aureliano (Joana Bezerra). Foto: Arquivo / DP

Jacilene da Paz Texeira esteve na que seria a audiência de instrução a respeito da morte do seu filho de 18 anos assassinato por três rapazes em abril do ano passado. Fontes ouvidas pelo Diario de Pernambuco suspeitam de crime passional.

“Quando chegou a notícia da tragédia, foi quase o fim da minha vida. Você acredita?”. Difícil não crer no depoimento de Jacilene da Paz Teixeira, 46. Pouco mais de um ano após o assassinato do seu único filho, Allan Patrício Teixeira Gomes, 18, a professora demonstrava consternação ao comparecer ao 2º Tribunal do Júri, Fórum Rodolfo Aureliano (Joana Bezerra), na tarde desta sexta (26). O objetivo era participar da audiência de instrução do processo contra os três acusados e que acabou sendo adiada pois o promotor Guilherme Vieira Castro pediu vistas do processo. O motivo foi o pedido da família de Allan para ter um auxiliar de acusação, por parte do Ministério Público. Uma nova audiência foi agendada para o dia 7 de junho, no mesmo local.

O homicídio ocorreu no bairro de Beberibe, Recife, no dia 23 de abril do ano passado. Na ocasião, os próprios acusados - Guilherme Henrique de Melo Pimentel e Hermes Gonzaga de Paiva Neto  - filmaram o homicídio e compartilharam com um grupo criminoso. A argumentação do trio na época da prisão, um mês depois do ocorrido, foi de que o acusado era informante da polícia.  Pelo menos um deles, o Guilherme, o autor dos disparos, já tinha passagem pela polícia por tráfico e homicídio. E foi ele mesmo quem divulgou o vídeo, filmado por Hermes. A forma de participação do outro acusado - Alexsandro Costa Lima Alexsandro (que estava preso na época) - seria esclarecida na audiência de instrução onde seriam escutadas as testemunhas e os depoimentos dos acusados. 

Segundo o advogado Carlos André Dantas, assistente de acusação, há apenas três dias a família de Allan entrou em contato com ele para que fosse habilitado neste processo. A lei garante o direito de familiares nomearem um profissional para acompanhar a acusação. “Nesta função, tenho livre atuação no processo, inclusive com independência de opinião em relação ao promotor do caso. O objetivo é acompanhar todo o trabalho, o que foi feito até o momento e repassar as informações para a família”, informa, explicando o porque da solicitação de vistas do processo. “Quando acontece o pedido de habilitação do assistente do Ministério Público, o juiz pede para que o promotor manifeste sua opinião, se quer atuar sozinho no caso ou não. Não é, portanto, um poder de veto. Caso queira atuar individualmente, ele sai do processo e outro colega assume. A ação pública penal é da autoria do Ministério Público, mas o promotor tem direito de não atuar com outra pessoa. Neste caso, ele é substituído, não o assistente”, explica. A promotoria deve encaminhar sua decisão ao juiz, no prazo de cinco dias.

Independentemente dos rumo que o processo tome, a única solicitação de Jacilene é justiça. Ela conta que tinha acabado de voltar do trabalho quando soube da notícia. E que o filho, criado por ela sem a participação do pai, era um grande companheiro, prestes a fazer o exame para conseguir uma carteira nacional de habilitação e dirigir um carro recém-adquirido para ajudá-la nas atividades diárias. “Foi uma tremenda covardia, malvadeza. Uma crueldade com um jovem de apenas 18 anos. Até hoje, não consigo aceitar. Era um menino sem inimigos, me ajudava muito, fazia meus pagamentos. Um menino cheio de sonhos, que desejava ser policial. Ser informante de policia, entretanto, claro que não era. Meu Deus. Claro que não. Não tenho ideia do motivo de terem feito isto com ele”, afirma. 

Diferentemente de Jacilene, duas pessoas presentes na audiência, que não quiseram se identificar, tem conjecturas a respeito do provavél motivo do assassinato: crime passional. “Ele tinha uma namorada, algo em torno de dez anos mais velha do que ele. Um relacionamento iniciado quando Allan tinha 16 anos. Eles tinham um relacioamento conturbado e ela chegou a ligar para Allan, certa vez, quase 60 vezes apenas no período da manhã. Ameaçou o garoto diversas vezes e já chamou o irmão dela, juntamente com alguns amigos, para agredí-lo ele em casa. Por sorte, ele não estava neste dia”, explica.

Uma das fontes ouvidas com exclusividade pelo Diario de Pernambuco contou que, um dia antes de morrer, Allan apareceu todo arranhando pela namorada devido ao fato de ter anunciado que iria se separar. “Ele tentava se livrar, mas a mulher o perseguia. Allan chegou a mudar-se para a casa do pai, e ela foi atrás dele lá também, tendo sido expulsa.  Uma vez, quando Allan quebrou a perna, no carnaval do ano passado, ela furou ele inteiro de chave. Esta história de que ele era informante  foi criada apenas para tirar o fato do que realmente deve ter acontecido. Allan me contava tudo o que acontecia, inclusive a respeito dela. Não teria me omitido algo assim”, relata.

A testemunha acredita que, mesmo que a namorada não seja a mandante do crime, pode ter inventado algo para os assassinos a respeito de Allan ou os provocado para cometer o ato, de alguma forma. “Indicativo disto são as palavras com que os assassinos iniciam o vídeo: 'olha aí, grava para mandar para esta p...'. Um xingamento direcionado a pessoas do sexo feminino. Ou seja, direcionado a alguma mulher”, afirma.


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