Centro do Recife O destino incerto do sapateiro do TRF5

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 23/04/2019 13:06 Atualizado em: 23/04/2019 15:27

José Gomes Costa trabalha há sete anos como sapateiro em um espaço do 16º andar do TRF5. FOTO: Marcionila Teixeira / DP (José Gomes Costa trabalha há sete anos como sapateiro em um espaço do 16º andar do TRF5. FOTO: Marcionila Teixeira / DP)
José Gomes Costa trabalha há sete anos como sapateiro em um espaço do 16º andar do TRF5. FOTO: Marcionila Teixeira / DP
Há sete anos, o sapateiro José Gomes Costa, 57, ocupa um espaço diminuto colado a uma parede de mármore, no 16º andar do prédio do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5). O prédio da Avenida Cais do Apolo, no Recife, é pomposo. No “escritório” de José há sapatos, mas também bolsas, reparados ou em fase de conserto, além de material de trabalho e até uma cadeira de engraxate. Quando solicitado, José vai aos gabinetes dos magistrados. Também é procurado por funcionários de instituições vizinhas, como a Prefeitura do Recife. Acontece que José pode deixar o ponto ainda esta semana. Não por vontade própria.


Enquanto converso com José, uma cliente antiga e funcionária do TRF5 se aproxima para pedir reparos em uma sandália. No sofá ao lado, um homem espera sentado uma costura no sapato dele. José é bem requisitado. Conta ter chegado ao prédio convidado por um antigo chefe de segurança do tribunal. Teria sido uma demanda do presidente do TRF5 da época. Desde então, foi aumentando a clientela em meio ao ambiente inusitado, onde o clima é mais ameno por conta do sistema de refrigeração. Antes, José trabalhava na orla de Olinda.

Uma notícia veiculada no jornal interno do tribunal, colado em um mural do 16º andar, avisa do destino de José. “A partir desta semana, o serviço de consertos e reparos de sapatos que funciona no 16º andar será transferido para o local onde é instalada, semanalmente, a feira de orgânicos. A transferência se dá em razão de o referido espaço ser aberto e ventilado, considerando que alguns materiais utilizados para o reparo de calçados possuem substâncias tóxicas. O serviço de sapateiro funciona de segunda a sexta, das 11h às 16h.”

José anda preocupado. Diz que no novo endereço não terá clientes. Fica na beira do mangue e as pessoas não vão procurá-lo. O sapateiro pega as colas usadas nos reparos e explica: “Essa branca não tem cheiro e é a que mais uso. Já essa outra, com cheiro forte, uso muito pouco e, nesses dias, chego mais cedo exatamente para usar quando não tem ninguém”, justifica. A servidora, cliente antiga, engrossa o coro. “Sou contra a mudança dele daqui. Ninguém nem sente cheiro de cola.”

José ainda não sabe o dia que vai sair do prédio. Ainda tem material para entregar. Espera dar tempo. Em meio à nossa conversa, funcionários passam e perguntam pela situação, torcem pela permanência do sapateiro. José mora no Alto da Bondade, em Olinda. É casado e tem quatro filhos. “Se me colocassem na frente do prédio seria melhor, ficaria mais fácil para mim”, apelou.

O especialista em sapatos e bolsas soube da notícia de sua saída do 16º andar na semana passada. Mas tem ido trabalhar, até que alguém tire ele do local. “O pessoal chega aqui com o sapato arrebentado e, quando sai, sai agradecido. Você me salvou, me dizem. Aí eu respondo, salvei não, salvei só o sapato”, conta, sorrindo. Enquanto espera.

Decisão
Nesta tarde, o TRF5 voltou atrás na decisão de retirar o profissional do 16º andar. Segundo a assessoria de imprensa, José foi levado para o espaço por meio da Associação de Servidores, assim como acontece com dois profissionais de reiki que atuam no prédio e um clube de leitura. Por isso serão mantidos.
 

 



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