Entrevista Nova base curricular requer tempo de adaptação

Publicado em: 18/04/2019 21:06 Atualizado em: 19/04/2019 10:36

Foto: Divulgação.
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Tais Bento e Roberta Bento são fundadoras do SOS Educação, site de educação do portal Estadão e responsáveis pela coluna Escola da Revista Pais&Filhos. São palestrantes de grandes eventos de educação e parentalidade como Bett Educar, Seminário da Pais&Filhos e Social Media Week. Participam como especialistas de diversos programas como “Como Será” da Rede Globo e “A Hora do Enem” do Canal Futura. Nesta entrevista, falam sobre a nova base curricular e como se adaptar a esse novo modelo. 

Professores apontam dificuldades na implementação da BNCC- Base Nacional de Currículo Comum. Como você tem percebido a parte prática da implantação das Habilidades e Competências sugeridas? 
Os professores não foram preparados para receber essa nova proposta de ensino. Nos países em que a educação é prioridade, o processo acontece de forma inversa: quando vai haver alguma mudança em qualquer aspecto da educação, primeiro os professores são envolvidos, recebem formação, participam de forma ativa de todo o processo. E só depois de estarem formados e seguros, a mudança chega na escola. É natural que todos precisem de um tempo para conhecer a BNCC, adaptar ou reconstruir seus currículos e, mais importante, encontrar propostas consistentes de como trazer para a sala de aula a questão das competências. Para que tudo isso funcione como poderia, ainda há o desafio de envolver as famílias no processo de aprendizagem dos seus filhos. Não dá para falar em desenvolvimento de competências sem que escola e família caminhem juntas!

Você tem uma história incrível de vida e de superação.  Uma criança com um diagnóstico intelectual limitante, passa a ser uma mulher referência em educação, que possibilita ir buscar solução de educação em outros países, e ser hoje referência em neuroplasticidade. Como sua experiência motiva a ação de outros educadores no que diz respeito a uma educação inclusiva?
Amo compartilhar minha história com professores. É uma maneira de devolver ao universo o privilégio que tive de encontrar professores que acreditaram no meu potencial, que me fizeram acreditar que eu podia superar minhas limitações. Saio dessas palestras energizada com todo o carinho que recebo. E volto para casa renovada, feliz pelas mensagens que os professores me mandam, dizendo que passaram a ver a profissão de uma nova maneira. Ressalto sempre que hoje em dia não são somente os alunos com alguma necessidade especial que precisam de uma postura diferente dos professores, são todos eles, já que a relação com os estudos mudou bastante e os pais também não sabem como ajudar em casa.

O SOS Educação é uma rede de apoio e direção para pais e educadores. Como é realizado esse trabalho?
O SOS Educação tem como objetivo ajudar os pais e educadores a entender como as mudanças na sociedade afetaram a capacidade de aprendizagem dos alunos, desde a educação infantil até a vida adulta. Mais que isso, oferecemos sugestões muito simples e práticas sobre o que a família pode e precisa fazer para que os filhos desenvolvam uma relação mais saudável com os estudos. Aos educadores, levamos palestras e formação para que façam pequenos ajustes na abordagem das aulas de forma que consigam envolver o aluno, que chega hoje na escola sem as habilidades essenciais para a aprendizagem formal.

Como o cérebro é modificado no excesso do uso do celular na infância? Tem uma idade ideal para entrar em contato com essa tecnologia? O uso excessivo pode atrapalhar a criança no que diz respeito a aprendizagem formal?
Está comprovado que o excesso de exposição à tecnologia traz consequências negativas para o cérebro do aluno. Mas a tecnologia é uma ferramenta que pode – e deve – ser usada para tornar o ensino mais eficaz. O desafio então é encontrar o equilíbrio. Muitas das habilidades que nossas crianças e adolescentes precisam para conseguir aprender de forma tranquila são desenvolvidas no mundo real, em contato com outras pessoas. Algumas podem ser desenvolvidas com apoio da tecnologia. Empatia, por exemplo, é uma habilidade essencial para que a criança, desde muito pequena consiga se relacionar bem com os colegas da classe e com os professores na escola. A tecnologia é um ótimo recurso para ajudar nesse caso. Porém, a mesma criança, se fica horas online, de olho grudado em uma telinha, terá dificuldade em se concentrar, em lidar com frustrações e assumir responsabilidades. Em nossas palestras falamos sobre como encontrar o equilíbrio para que possamos tirar o melhor proveito de tantos benefícios que a tecnologia pode trazer, sem prejudicar outros aspectos do desenvolvimento da criança e adolescente. 

Qual a importância de uma rotina estruturada para assimilar e acomodar o aprendizado na infância? Podemos falar que a rotina, a previsibilidade de cuidados e a repetição são ingredientes fundamentais para o sucesso escolar?
A rotina previsível, tranquila, que permite a uma criança sentir-se segura e protegida é essencial. Uma criança que sente segurança está pronta a explorar seu entorno, aberta a fazer descobertas e enfrentar desafios que ajudam no seu amadurecimento. Além disso, na primeira infância o cérebro forma a base de memórias que se tornarão recursos para os conteúdos mais complexos que serão aprendidos mais tarde. Por isso crianças que vivem em situação de vulnerabilidade acabam tendo grande prejuízo nos estudos, caso não recebam atenção especial e ajuda para vencerem os desafios que envolvem questões emocionais e que acabam por impactar de forma negativa o processo de aprendizagem. 

Como você relaciona as violências que estão ocorrendo nas escolas, com a importância das habilidades socioemocionais propostas pela BNCC, para o sucesso de uma sociedade?
Precisamos ajudar nossas crianças e adolescentes a lidar com questões como a capacidade de lidar com a frustração, empatia, senso de responsabilidade, paciência. Essas habilidades não são mais desenvolvidas naturalmente no seio da família, como eram no passado. Os pais e educadores precisam intencionalmente inserir momentos que garantam oportunidades para ensinar essas habilidades. Quando elas não são desenvolvidas, o adolescente fica sem recursos para usar nos momentos de sofrimento, de ansiedade e angústia que faz parte da transição para a vida adulta. Para que consigam lidar com todas as questões relacionadas à adolescência, é essencial que na infância tenham aprendido a respeitar limites também. Quanto todas essas habilidades estão ausentes, a violência é o que sobra para esses jovens. Felizmente a BNCC traz uma luz para as competências que passam a fazer parte do currículo tanto quanto os conteúdos. Uma grande esperança de dias melhores, desde que família e escola caminhem juntas. 

Neuroplasticidade e atividade física, qual seria a relação entre os dois temas?
A neurociência comprovou que atividade física frequente é uma maneira para o cérebro desenvolver novos neurônios. Ou seja, precisamos levar nossas crianças e jovens a se movimentarem mais, a saírem da cadeira para encontrar na atividade física muito mais do que um caminho para um corpo saudável, mas também a receita para uma mente mais ativa e plena de possibilidades e conexões.

Qual a mensagem você deixaria para que as nossas escolas inovem a ação e preparem os seus alunos para a revolução industrial 4.0?
Não temos como saber exatamente que futuro nossos alunos terão pela frente. A única certeza é a mudança constante. Preparar um aluno para enfrentar o que nem nós, adultos, podemos descrever, é um grande desafio. O caminho é garantir que tenham com eles as competências necessárias para se reinventarem, para criarem, para construírem o futuro que desejarem ter. O único caminho possível para isso é equilibrar a dose de conteúdo com grandes e eficazes doses de oportunidades para se desenvolverem plenamente, não só no aspecto cognitivo, mas especialmente nas habilidades socioemocionais. 

Conte-nos um pouquinho sobre os movimentos mais inovadores no que diz respeito à educação, já que hoje você está presente nos eventos mais importantes.
Colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem. Eis o caminho, mas também o grande desafio. O professor passa a ser mais importante do que nunca, mas precisa olhar para cada aluno como um ser único, com diferentes necessidades e talentos. A educação biingue vem com muita força, já que precisamos preparar nossos alunos para interagir com o mundo e não somente com o seu entorno. E aí entra a necessidade do equilíbrio novamente: a comunicação com o mundo só faz sentido, se conseguirmos agir para melhorar nosso contexto, nossa própria comunidade. Aprender sobre responsabilidade social, respeito às diferenças é fundamental, mas são questões que não fazem sentido na teoria, precisam fazer parte da realidade no dia a dia da escola e da família!


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