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Entrevista Dom Raymundo Damasceno diz não à ditadura e ao impeachment Cardeal é apontado pelos estudiosos do Vaticano como uma das pessoas mais próximas do papa Francisco

Por: Jaílson Paz - Diário de Pernambuco

Publicado em: 23/03/2015 07:51 Atualizado em: 23/03/2015 10:08

Foto: Teresa maia/DP/D.A Press
Foto: Teresa maia/DP/D.A Press
O cardeal dom Raymundo Damasceno Assis é apontado pelos estudiosos do Vaticano como uma das pessoas mais próximas do papa Francisco. Um dos sinais de confiança, dizem os vaticanistas, foi a recondução do brasileiro à presidência do Sínodo sobre a Família, conhecido por tratar de temas polêmicos à Igreja, como o reconhecimento do segundo matrimônio. O sínodo terá a segunda e última etapa no segundo semestre deste ano. Em entrevista ao Diario, o cardeal, que veio ao Recife na semana passada para o seminário Acordo Brasil-Santa Sé: implicações jurídicas e administrativas, realizado na Universidade Católica de Pernambuco, falou das perspectivas do sínodo. Mas também tratou de temas como a Operação Lava-Jato, a necessidade de uma reforma política no país e o debate puxado pela oposição à presidente Dilma Rousseff (PT) sobre um impeachment. Para dom Damasceno, o possível afastamento da petista é assunto descartado por não haver respaldo legal. Ele também não vê argumentos para um golpe militar. Para o cardeal, quem viveu a experiência de uma ditadura não quer revivê-la.

Saiba mais

Aos 78 anos, dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (SP), preside a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na qual exerceu por dois mandatos a função de secretário-geral.  

Nasceu em Capela Nova (MG). Entrou no Seminário Menor de Mariana (MG) em 1955, onde cursou o antigo 2º Grau, hoje Ensino Médio, e Filosofia.

Foi transferido em 1960, ainda seminarista, para a recém-criada Arquidiocese de Brasília, que lhe enviou para estudar Teologia em Roma e Catequese na Alemanha. No retorno da Europa, em 1968, ordenou-se.

No Conselho Episcopal Latinoamericano (Celam), dom Damasceno integrou a Comissão Episcopal do Departamento de Catequese, o Comitê Econômico. Foi também secretário-geral e presidente da instituição.

É arcebispo de Aparecida desde 2004 e tornou-se cardeal em 2010.

"A reforma política é fundamental"

Ao convocar o Sínodo sobre a Família, o papa Francisco abriu debate a respeito do posicionamento da Igreja sobre temas como o segundo casamento. Qual será a postura da instituição frente ao assunto?

A Igreja quer estar próxima de todas as pessoas. Sobretudo dos casais que vivem uma situação angustiante por não poder se aproximar da eucaristia, da penitência, por ter contraído uma segunda união. Teremos que ver caso a caso. Certamente, o sínodo não tomará nenhuma decisão de caráter genérico.

Quer dizer que a decisão dos casais comungarem ficará com os bispos?
Não. Há experiências nas igrejas orientais, experiências daquilo que chamamos de caminho penitencial. O casal é acompanhado durante um certo período e mediante certas condições, muitas vezes a juízo do bispo, pode ascender à comunhão. Para nós, o único caminho para aquele que se separou e deseja contrair um segundo casamento é recorrer ao Tribunal Eclesiástico para a nulidade do primeiro matrimônio. Alguns conseguem, outros não.

A crise atual mostra uma relação estreita entre o financiamento da política e a corrupção. Que saídas a Igreja vê para o problema?
Corrupção sempre existiu em toda parte. E continuará existindo porque faz parte da pecaminosidade da humanidade, mas isso não justifica aceitá-la. Temos que combatê-la rigorosamente e com muita severidade através dos instrumentos que o estado dispõe: a polícia, o Judiciário, o próprio Congresso Nacional. Nos opomos à corrupção, pois é uma das formas de injustiça, sobretudo no campo social.

Para combater a corrupção, a Igreja defende como um dos meios a implantação do financiamento público das campanhas eleitorais. Por quê?
A corrupção é, muitas vezes, fruto da impunidade. Por isso, esperamos que a Operação Lava-Jato seja oportunidade para passar o Brasil a limpo. Vivemos uma crise moral e ética, mas as crises não devem ser vistas como momento negativo. Podem ser o momento oportuno para a gestação de algo novo, de renovação, de purificação. Portanto, de uma maior consciência dos seus cidadãos na escolha dos seus representantes. É momento em que nossos homens públicos devem tomar consciência de que têm grande responsabilidade no exercício dos seus cargos.

A renovação passaria pelo financiamento público das campanhas?

Passaria por uma reforma política. Há muitas outras reformas a serem feitas, mas a politica é fundamental. A CNBB,    conjuntamente com um grande número de entidades da sociedade civil organizada, elaborou uma proposta de reforma que pessoas estão confundindo como uma proposta do PT e de cunho bolivariano. Nada disso. É uma proposta com o apoio de vários partidos e com ela queremos provocar um debate na sociedade. Como vemos na Lava-Jato, é muito dinheiro que correu e corre nas campanhas eleitorais e que facilita a corrupção. E o financiamento público certamente levaria a diminuir o número de partidos e de candidatos e haveria um equilíbrio maior nesse sentido, evitando-se em parte a corrupção.

Que outros pontos aborda a proposta assinada pela CNBB?
A reforma política é complexa, mas reduzimos nossa proposta em quatro pontos-chaves: o financiamento público; a representatividade maior das mulheres, porque a maioria do eleitorado é de mulheres e elas têm pouca representatividade em cargos públicos; a regulamentação dos instrumentos constitucionais de participação democrática direta, que são o plebiscito, o referendo e os projetos de lei de iniciativa popular; e a votação em dois turnos. Primeiro, a votação no partido e no projeto. Depois, nos candidatos, apresentados em lista pelos partidos.

Temos visto nos protestos, além das críticas à corrupção, a defesa da intervenção militar e a criminalização da política. Não é um perigo para a democracia?

Claro. Mas isso mostra uma descrença por parte de alguns na política, o que é grave. E muitos fazem isso porque muitos políticos não fazem da política um serviço à sociedade, mas se servem da política para interesses pessoais e de grupos. Os políticos deveriam questionar-se sobre o seu papel na sociedade. Nenhum de nós quer interromper, quebrar o estado de direito democrático, conquistado com muito custo, sacrifício, sofrimento. É preferível a pior democracia à melhor das ditaduras. Dos regimes, a democracia, sem dúvida, é o melhor. É o regime onde as pessoas têm liberdade, participam, escolhem seus representantes. Podem tirá-los quando não estão contentes, devido a motivos graves.

O senhor vê motivo para o impeachment da presidente como alguns defendem?
Não queremos ditadura nem golpe militar. Creio que isso não está em questão nem para os militares nem para a maioria da sociedade. Quem fez essa experiência não quer repetir. E para o impeachment não há motivo e fundamento, como afirmou o Supremo Tribunal Federal. Não há motivo para que seja iniciado um processo de impechment. Por enquanto, a presidente está exercendo o mandato e parece não haver nenhum fato que a comprometa do ponto de vista ético e moral. Nesse momento é fundamental o diálogo.

Ao escolher para a Campanha da Fraternidade deste ano o tema serviço, a Igreja, como no pós Vaticano II, pretende capilarizar a sua atuação na sociedade?
A missão da Igreja é servir, a exemplo de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano II veio abrir a Igreja para o mundo. Veio aprofundar o diálogo da Igreja com o mundo dentro do espírito do serviço. E esse serviço deve ser prestado pelo leigo porque ele é a presença da Igreja no coração do mundo. Ele deve fazer da sua profissão, do seu trabalho um serviço aos outros. E mais ainda na política. O papa Paulo VI dizia que a política é uma das formas mais sublimes da caridade.

E o que é a caridade?

É o amor. O amor ao próximo, que se traduz por serviço

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