levantamento Centrão tem um terço dos parlamentares mais influentes do Congresso

Por: Leonardo Cavalcanti -

Por: Correio Braziliense - Correio Braziliense

Publicado em: 09/06/2019 10:57 Atualizado em: 09/06/2019 13:06

Foto: Arquivo/ Agência Brasil
Foto: Arquivo/ Agência Brasil
Há um jogo em andamento no Congresso mais amplo e complexo do que aquele disputado no centro das Mesas Diretoras. Quatro meses depois da posse dos parlamentares, 100 políticos, entre deputados e senadores, se destacam como protagonistas no cotidiano do Legislativo, para além das câmeras de tevê ou de celulares, formulando, debatendo, negociando ou arbitrando conflitos. O mais recente estudo Os cabeças do Congresso, elaborado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), publicado com exclusividade pelo Correio, mostra a força do Centrão — como é conhecida a amálgama de partidos políticos que desequilibra as forças governistas e oposicionistas nas principais pautas em debate.

Dos grupos revelados pelo levantamento, o Centrão — que agrega políticos de PP, PSD, DEM, PRB, PL, PSC, Patri e Solidariedade — tem o maior número de parlamentares mais influentes (31), entre eles Wellington Roberto (PL-PB) e Arthur Lira (PP-AL). Como os demistas estão no barco, as principais estrelas são os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre. Não é exagero dizer que, para onde a agulha do Centrão apontar, as chances de prejudicar ou favorecer o governo federal são enormes. O grupo impôs derrotas ao Planalto, como o Orçamento Impositivo — que dá mais poder aos parlamentares em relação aos gastos e às despesas —, e a retirada do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da aba do ministro da Justiça, Sérgio Moro, apenas para ficar em dois projetos.

“O Centrão reúne três condições que faz dele um ator fundamental no parlamento: é numericamente significativo, tem os quadros mais experientes e é o fiel da balança, pois decide para onde vai a política pública, se para o governo ou para a oposição”, diz Antônio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Diap. Dos 513 deputados, cerca de 200 integram o Centrão, criado de maneira informal como grupo ainda na Constituinte, em 1998. A história mostra que teve como idealizador Roberto Campos (1917-2001), então senador do PDS de Mato Grosso. A estratégia na época era estancar as derrotas dos parlamentares ditos liberais nas comissões e subcomissões da Constituinte. Um recuo histórico, entretanto, mostra que o bloco conservador já estava organizado como contraponto à Nova República, em 1985.

Presente como um força inquestionável na gestão Bolsonaro, o Centrão atuou nos governos Sarney — decisivo no aumento do mandato do então presidente —, Collor, Itamar — na defesa de integrantes envolvidos na CPI dos Anões —, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. “No governo Dilma, a relação foi conflituosa, tanto que escalaram Eduardo Cunha para concorrer à Presidência da Câmara”, lembra Queiroz. “Cunha, em represália à negação do PT em votar a favor do arquivamento de processo que tramitava contra ele no Conselho de Ética, abriu o processo de impeachment contra Dilma.” O resto da história está contada, mas, como se viu, os fantasmas do Centrão assombram presidentes e continuarão assombrando.

Mudanças
O levantamento do Diap mostra uma renovação de mais de 50% na elite do parlamento em relação ao ano passado. “Nem no primeiro governo Lula houve uma renovação tão grande na lista”, diz Queiroz. “Um dado importante é que aqueles com mais exposição na mídia e nas redes sociais não necessariamente estão entre os mais influentes. O sujeito fica mais preocupado em produzir conteúdo para os eleitores e menos preocupado em resolver problemas, são pouco ou nada objetivos.” Desse grupo, aqueles que receberam missões e perceberam a necessidade de qualificação no processo legislativo acabaram entrando na lista dos mais influentes.

Entre outras considerações, a lista apresenta número inédito de parlamentares de primeiro mandato — ao todo, 34 deles aparecem no levantamento —, boa parte conectados às redes sociais, e uma maior presença de perfil liberal. Há um detalhe, entretanto. Os políticos que entraram, mesmo novatos, conseguiram compor ao longo dos últimos quatro meses, perdendo a estridência verificada na campanha eleitoral. “O Congresso é um colegiado, é preciso buscar a unidade. O político que fica esbravejando nas redes sociais, a chance de ele produzir algo objetivo é próxima de zero”, afirma Queiroz.

“O melhor exemplo é o próprio presidente. Se dependesse dele, as pautas do governo jamais seriam aprovadas no Congresso. As pautas estão sendo aprovadas porque têm coincidência programática com o novo Congresso, que é liberal do ponto de vista econômico, fiscalista do ponto de vista de gestão e atrasado em relação a valores, comportamento e meio ambiente.” Além dos 100 mais influentes, o Diap relaciona outros 50 deputados que, segundo a metodologia, aparecem em ascensão. Nessa categoria estão aqueles que recebem missões partidárias e buscam abrir canais de interlocução, criando espaços próprios. Entre os novatos, um dos nomes em ascensão é o deputado Alexandre Frota (PSL-SP).

A forte presença do Centrão na lista, entretanto, é o mais emblemático, confirmando o que o próprio Palácio do Planalto identificou nos últimos meses. “O Legislativo, cada vez mais, terá uma pauta autônoma, pois o sujeito não está disposto a ser hostilizado e votar uma pauta do interesse do governo. Ele pode até votar uma proposta semelhante, mas vai buscar uma proposição que desvincule do governo para mostrar a sua independência.” É o Centrão sendo o Centrão. Se ao longo dos últimos 35 anos sempre mostrou alguma energia para fazer valer as próprias posições, agora parece mais forte do que nunca.

Bancada do DF tem quatro nomes 
Entre os oito deputados e três senadores, a bancada do Distrito Federal apresenta quatro nomes na lista dos mais influentes do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). No levantamento dos 100 “cabeças”, aparece Érica Kokay (PT) — enquanto que, na categoria ascensão, estão posicionados o senador Izalci Lucas (PSDB), a deputada Bia Kicis (PSL) e o deputado Luís Miranda (DEM).

 

O levantamento atribui algumas características dos parlamentares para incluí-los na lista, entre elas, a capacidade de debater temas, formular propostas e negociar a aprovação. No caso de Kokay, a principal característica é discutir e influenciar propostas. Izalci é vice-líder do governo Jair Bolsonaro, o que garante destaque nas negociações. Kicis, por sua vez, apresentou como trunfo o cargo de vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Luís Miranda, empresário, tem se destacado pelo trabalho forte de bastidores, sendo um dos principais nomes em ascensão.

O partido de Kicis, o mesmo do presidente Jair Bolsonaro, apresenta seis deputados e dois senadores na lista dos 100 mais e outros três integrantes da Câmara entre os que aparecem na lista daqueles em ascensão. O PT aparece com 12 deputados e quatro senadores, incluindo o baiano Jaques Wagner, que, junto a Tasso Jeiressati (PSDB-CE), Esperidião Amin (PP-SC) e Otto Alencar (PSD-BA), exerce forte influência sobre o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP). “Esse grupo faz um contraponto aos que atuam nas redes sociais, jogando apenas para os eleitores”, diz Antonio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Diap.

'Invisível'
O deputado Aécio Neves (PSDB-MG) — mesmo distante da mídia depois dos escândalos e distante dos holofotes — tem se movimentado nos bastidores e acabou entrando no levantamento. O tucano é apontado pelo Diap como um articulador, “que exerce um poder invisível entre colegas de bancada, sem aparecer na imprensa ou nos debates de plenários ou comissões”. O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filhos do presidente Jair Bolsonaro, também participam da turma dos articuladores.

Entre os 100 mais influentes, aparecem 39 articuladores, 24 debatedores, 16 formuladores e 21 negociadores, aqueles “investidos de autoridade para firmar e honrar compromissos, a partir da experiência e do respeito entre os pares”. Entre os nomes deste último grupo está o senador Eduardo Braga (MDB-AM), por exemplo. (LC)

Metodologia
Para fazer a classificação, o Diap adota critérios qualitativos e quantitativos, que incluem aspectos institucionais, de reputação e de decisão, a partir de postos ocupados, capacidade de negociação e liderança. Com base nesses quesitos, a equipe do departamento faz entrevistas com parlamentares, assessores legislativos, cientistas e analistas políticos e jornalistas, além de levantamentos relacionados a projetos apresentados e a discursos proferidos. São considerados também resultados de votações, relatorias, intervenções nos debates, frequência de citações na imprensa, análise dos perfis e grupos de atuação.


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