Presidente O jogo de Bolsonaro

Publicado em: 24/05/2019 19:54 Atualizado em: 24/05/2019 20:57

Foto: Thalyta Tavares/Esp. DP.
Foto: Thalyta Tavares/Esp. DP.
Por Edilson Silva

Já está nítido para todos os atentos que o governo Bolsonaro é uma colcha de retalhos mal costurada. Vários núcleos se constituíram ali, numa divisão de tarefas, ao que tudo indica, não combinada. Núcleo do Mourão; Núcleo do Moro; Núcleo do Paulo Guedes; Núcleo da Damares. Por baixo disso tudo, ou por cima, tem um núcleo difuso e "muito louco", onde se encontram o filho do Presidente que comanda sua milícia digital, o Olavo de Carvalho e o próprio Presidente.

Este núcleo difuso e aloprado é o mais perigoso. É o mais deslumbrado e mais desapegado a um mínimo de republicanismo. É este núcleo que está por trás da convocação das manifestações do próximo domingo, 26 de maio.

O governo vinha administrando sucessivas derrotas no Congresso, encontrando embates com o STF, acuado pela grande imprensa com as denúncias sobre o Bolsonaro hoje senador, e por fortes mobilizações de rua contra os cortes na educação. O impeachment do Presidente entrou na pauta do país.

Surge então a convocação para a mobilização em favor do Presidente, com a alça de mira - se me permitem esta figuração - apontada para o Congresso e STF. O núcleo aloprado do governo jogou quase todas as suas fichas nisto, apostando numa espécie de tudo ou nada, pois o tiro - seguindo a figuração - poderia sair pela culatra. Contudo, contrapuseram, de imediato, ao tema do impeachment, a possibilidade de auto golpe.

De cara a convocação serviu para mostrar defecções na base aliada. Grupos como o MBL e lideranças como Janaína Pachoal abandonaram o barco, publicamente e com declarações duras.

O governo avançou nas ameaças e colocou a tropa de choque dos caminhoneiros ligados ao Presidente pra tocar o terror nas redes sociais.

O resultado prático desta semana movimentada é que os aloprados do governo conseguiram fazer o "centrão" no Congresso recuar. Votaram a MP da reforma administrativa e ainda a possibilidade das empresas aéreas que operam no Brasil terem 100% de capital estrangeiro.

Duas lições aqui. A primeira é que o governo maneja uma milícia digital bastante atuante e eficaz e uma base social (caminhoneiros) com setores que tem um histórico de radicalidade e participação em golpes e ações antipopulares, vide o que fizeram no Chile contra o governo de Allende. A segunda é que o Centrão não é um bloco de enfrentamento republicano com as aventuras do governo e se curva na medida em que se sente acuado.

Disso se tira a terceira lição: o governo tem disposição de ir para o enfrentamento nas ruas do país e colocar esta força social em choque com a imprensa, Congresso e STF. Não é um governo covarde. Isso impõe às forças progressistas ampliar e muito sua capacidade de mobilização popular, nas ruas, e canalizar esta força sobre as instituições, fazendo-as também sentir a nossa pressão. Isso é da democracia.

O governo, diante do desfecho conjuntural, começou o seu desembarque das manifestações e agora elas, em se mantendo, não mais poderão servir de parâmetro sobre a real capacidade deste governo de mobilizar uma base social. Jogou e levou. As próximas mobilizações do campo progressista e republicano precisam ser bem maiores, sob pena das instituições a nossa frágil democracia serem pilhadas por forças no mínimo protofascistas.

*Ex deputado estadual de PE, foi Presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa.



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