Roma O mundo às vezes tem 'visão superficial' de Bolsonaro, diz Ernesto Araújo

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 08/05/2019 17:01 Atualizado em:

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Foto: José Cruz/Agência Brasil
O chanceler Ernesto Araújo quis dar uma mensagem tranquilizadora nesta quarta-feira (8), em Roma, no início de uma viagem à Europa, devido às inquietações geradas pela nova diplomacia e as escolhas ambientais do Brasil.

Em entrevista exclusiva à AFP, falando em francês, Araújo disse que o mundo às vezes tem uma "visão muito superficial" do presidente Jair Bolsonaro, que conta, no entanto, com o apoio da maioria dos brasileiros, declarou.

Ele cinta como exemplo a questão da violência, que alguns previram que aumentaria após a chegada do chamado 'Mito' ao poder. Mas, assegurou, o cenário é o contrário: a taxa de homicídios caiu 25% desde o início do ano, segundo o ministro.

Para Araújo, isto é de alguma forma o resultado do efeito Bolsonaro, "o reflexo da psicologia coletiva de pessoas que se sentem bem com um governo que as representa melhor", explicou.

Sorridente, ansioso por convencer, Araújo, que concedeu a entrevista em um dos suntuosos salões da embaixada do Brasil na capital italiana, com vista para a famosa Piazza Navona, também se esforçou para apresentar o Brasil como um país responsável frente ás mudanças climáticas, lutando "contra o desmatamento" e onde a agricultura, assegurou, "respeita o meio ambiente".

A agricultura brasileira é "uma agricultura moderna, que não ocupa as áreas de florestas tropicais", afirmou, denunciando as ideias vindas do exterior sobre esta questão.

"Há estudos sobre isso que mostram muito claramente, contra uma opinião muitas vezes difundida, que a ocupação do território pela agricultura é muito respeitosa com o meio ambiente", acrescentou.

No entanto, o desmatamento, que havia caído drasticamente na Amazônia de 2004 a 2012, voltou a subir em janeiro, com um aumento de 54% em relação a janeiro de 2018, segundo a ONG Imazon. E, embora tenha voltado a cair em fevereiro (-57%) e março (-77%), 268 km2 de floresta desapareceram no primeiro trimestre. 

Também está fora de questão para o Brasil deixar o Acordo de Paris sobre o Clima - garante -, mesmo que o governo considere haver medidas protecionistas contra a sua agricultura sob o disfarce de combate ao aquecimento global.

- 'Não demonizar' –
Contudo, Araújo defende que os céticos do clima devem "ter voz" e que não podem ser "demonizados".

No campo diplomático, o ministro destacou que o Brasil considera muito importante manter boas relações com o resto do mundo,a começar pela União Europeia. 

No entanto, escolheu limitar a sua viagem à Itália, onde encontrou Matteo Salvini, chefe da Liga (extrema direita) e ministro do Interior, além de Polônia e Hungria, dois outros países ideologicamente próximos do novo governo brasileiro.

Ainda assim, o chanceler destacou que ainda conta com o apoio da França para uma rápida conclusão das negociações comerciais em curso entre a UE e o Mercosul.

"Estamos na última fase das negociações", e só falta uma "oferta razoável da União Europeia em relação ao acesso ao mercado agrícola, para que o acordo possa ser aprovado no Congresso brasileiro", assegurou.

Em relação à China, regime "maoísta" contra o qual se deve lutar, segundo escreveu em seu blog, o ministro se mostrou conciliatório.

"Queremos ser uma voz em favor da democracia no mundo, mas não acho que seja um problema com a China, que é muito pragmática". Da mesma forma, "estamos muito mais próximos de Israel, mas nem por isso as relações com os países árabes vão sofrer, pelo contrário", garantiu.

Finalmente, no que diz respeito à Venezuela, que tem fronteira com o Brasil, Araújo disse estar confiante nas chances de conseguir a mudança de regime por meio do diálogo, descartando qualquer opção militar.

Admirador do opositor Juan Guaidó, reconhecido presidente interino por cinquenta países, o chefe da diplomacia brasileira espera que as tentativas de reconciliação entre o opositor e parte do exército venezuelano deem frutos.

"Os últimos acontecimentos provam que há uma alternativa sólida, que há o apoio de uma maioria da população e que começa a ter um apoio no setor militar na Venezuela", explicou.

"Há um movimento, uma dinâmica, é um longo caminho, mas é sólido", acrescentou.


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