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O método Uchoa de assumir o erro

Por: Júlia Schiaffarino

Publicado em: 05/09/2013 08:00 Atualizado em: 05/09/2013 09:30

Uchoa quebrou o silêncio após impetrar ação que censurou jornais. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Uchoa quebrou o silêncio após impetrar ação que censurou jornais. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press

Cinco dias depois de conseguir na Justiça uma liminar proibindo o Diario de Pernambuco, a TV Clube e o Jornal do Commercio de citar seu nome em caso de suspeita de tráfico de influência, o presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Uchoa, ocupou a tribuna da Casa para fazer mea-culpa e anunciar a retirada da censura aos veículos de imprensa. Ao se defender, disse que a decisão de calar os meios de comunicação foi “unilateralmente” de sua assessoria jurídica

O campo escolhido pelo deputado estadual Guilherme Uchoa (PDT) para se pronunciar pela primeira vez sobre a ação judicial que censurou a citação, por parte dos jornais e TVs do estado, do nome dele no caso de suposto tráfico de influência em um processo de adoção na Comarca de Olinda, foi o mais confortável possível. Ontem, na Assembleia Legislativa de Pernambuco, Casa que preside há sete anos, o político fez a linha da “mea-culpa”. Depois de 15 dias ausente do Legislativo, ele disse que a decisão de ingressar na Justiça foi tomada “unilateralmente” pelos advogados e anunciou: “mesmo tendo obtido a liminar que me foi deferida por ver meu nome por injusto e injurídico, protegido de imputações maliciosas e referências insinuativas, eu comunico aos senhores deputados que estou desistindo da ação”.

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Foram 15 minutos de pronunciamento. Nele, afirmou diversas vezes não ter qualquer conhecimento sobre o caso, nem das pessoas envolvidas. Falou em favor da filha (Giovana Uchoa), dizendo que ela agiu, apenas, de “boa-fé” e “por razões humanitárias” e posicionou-se como defensor da democracia da informação. “Não patrocinei qualquer tentativa de inibir a plena liberdade de imprensa”, declarou. Por diversas vezes, citou a doença da esposa, que está em São Paulo desde o mês passado para se submeter a uma operação e ao fim, clamou: “Eu tenho defeitos, sou um ser humano e tenho sensibilidade”.

As palavras do presidente do legislativo estadual, dono de cinco mandatos na Casa, foram atentamente ouvidas por um plenário cheio, com quórum poucas vezes atingido nas sessões da quarta-feira. O discurso havia sido acertado durante a manhã, em uma reunião da Mesa Diretora. Na mesma ocasião ficou acordado entre os deputados que apenas os líderes de governo e oposição usariam o microfone para fazer apartes, evitando assim, que o discurso fosse desvirtuado para elogios “desmedidos” à pessoa do presidente, o que poderia não soar “verdadeiro”. A solidariedade dos demais foi expressada com apertos de mãos, abraços e tapas nas contas ao fim do pronunciamento.


O episódio ocorre no momento em que a Casa se encontra dividida em relação, principalmente, ao projeto do Voto Aberto, proposta que tramita sem consenso na Assembleia desde 2011. Na última terça, durante embate acalorado, a deputada Teresa Leitão (PT) criticou a falta de postura dos deputados em relação à demanda das ruas. Não faltaram críticas no discurso, também, a Uchoa.

Na semana passada o Diario de Pernambuco noticiou que a filha do deputado Guilherme Uchoa, Geovana, estaria sob investigação do Ministério Público por participar de um processo de adoção irregular. Ela teria praticado tráfico de influência, ajudando um casal a viabilizar a guarda provisória de uma criança. A denúncia descontentou Uchoa, que acionou a Justiça para não ser citado no caso.

Trechos do discurso de Guilherme Uchoa

“Meu patrimônio constituído foi a minha moral, foi a minha família, foi o meu caráter”

“Mesmo sendo juiz aposentado, eu não conheço a juíza, eu não conheço a promotora, eu não conheço o casal que recebeu a guarda provisória da criança, a criança, nem, tampouco, os funcionários do gabinete dessa juíza”

“O meu representante legal, advogado constituído, aos fatos noticiados, e por outros fatos narrados, o doutor Robervan da Silva Bernardes, ele vendo os fatos noticiados, vendo-me atravessando uma fase familiar tão grave e mesmo de fragilidade emocional, no intuito único de proteção de minha imagem, adotou unilateralmente providências judiciais”

“É direito de qualquer cidadão defender a sua imagem. Como também reconheço que é direito da imprensa relatar os fatos concretos”

“Quero registrar que não quis de forma alguma, censurar o direito dos profissionais”

“Assim mesmo, tendo obtido a liminar que me foi deferida para ver o meu nome por injusto e injurídico, protegido de imputações maliciosas e referências insinuativas, eu comunico aos senhores deputados que estou desistindo da ação”

“Defendo uma apuração rigorosa e isenta, ao tempo em que confio na responsabilidade pública de uma imprensa que, pelo seu poder, deve buscar a verdade sem envolver inocentes e imolar qualquer reputação”


Perfil do parlamentar
Autor da célebre frase “meu eleitor não lê jornal”, o presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Uchoa (PDT), sempre disse não se incomodar com matérias negativas. Sem temer polêmicas, fez aprovar por unanimidade na Casa, em 2011, a PEC da Reeleição, que garantiu a ele o quarto mandato ininterrupto como presidente do Legislativo, cargo que ocupa desde 2007 e no qual permanecerá até dezembro de 2014. Do alto dos seus cinco mandatos, apesar de ser um dos menos frequentes nos discursos diários da Casa, é o que pode ser chamado de homem de frente. Conquistou a fidelidade dos pares pela defesa intransigente dos interesses dos deputados, mesmo os mais fisiológicos. Para citar um fato recente, diante das críticas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ao pagamento do auxílio-paletó (dois salários de R$ 20 mil extras anualmente repassados a cada um dos deputados) apenas ele falava e defendia abertamente essa prática. Transita bem entre governistas e oposicionistas e tem o hábito de “abrigar sob as asas do Poder” ex-deputados sem mandato, empregando vários deles com cargos de assessoramento. Antes de chegar à Assembleia, Uchoa foi juiz e eleito deputado estadual, pela primeira vez em 1994, com 16 mil votos. Já chegou a assumir interinamente o governo do estado, em duas oportunidades. É um forte aliado do governador Eduardo Campos (PSB).



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