A tecnologia precoce. Lamentável!

João Paulo S. de Siqueira
Advogado, professor. Mestre em Consumo e Desenvolvimento Social. Doutorando em Direito Civil. Membro da Academia Brasileira de Direito Civil.

Publicado em: 21/05/2019 03:00 Atualizado em: 21/05/2019 10:40

Em recente homilia, o papa Francisco clamava para que tivéssemos um uso consciente dos telefones celulares. Advertiu que devemos ter um cuidado especial na orientação das crianças no uso dos smartphones.

Lembrei de Zygmunt Bauman, filósofo, sociólogo e cientista, indo mais além, um visionário que traduzia em fáceis palavras nossa truncada e conflituosa “sociedade líquida”. Em um de seus artigos escreveu que o acesso ilimitado à internet representava, para muitos, uma “escravidão voluntária”.

A escravidão imposta, compulsória, talvez seja uma das situações mais lamentáveis, degradantes e tiranas que um ser possa sofrer, mas penso que a escravidão voluntária, opcional, espontânea, talvez seja igualmente lastimável, sobretudo porque há a opção de não se submeter a determinada situação.

É evidente que o avanço tecnológico deve ser festejado, mas seu uso deve ser direcionado pelo bom senso e responsabilidade, é o que já defendi e argumentei em diversos artigos. A Organização Mundial de Saúde já considera o uso dos celulares como uma patologia global, atingindo milhões de pessoas, causando danos físicos, emocionais e sociais.

E lamentavelmente, todos esses prejuízos estão começando cada dia mais cedo, pois as crianças e até bebês já estão dependentes da tecnologia. Vejo crianças hipnotizadas pelo celular, sem interação com os pais, e o pior, sem vigilância no que estão vendo na internet.

Muitos bebês só dormem se estiverem assistindo a alguma coisa no celular, já existem equipamentos que acoplam os telefones nos berços e carrinhos. Talvez o próximo lançamento seja um berço equipado com sinal de wi-fi e tablet integrado, para que os recém-nascidos já passem a fazer parte do exército de consumidores.

Pois assim é a dinâmica do consumo contemporâneo, mais que criar produtos e mercadorias, é preciso que se criem consumidores. Indo além, preferencialmente consumidores que não questionem o uso, os benefícios ou malefícios do que estão consumindo, apenas consumam, naveguem, curtam, compartilhem....

Sei que as crianças, de maneira inicial, consomem “mercadorias inocentes”, explico: desenhos animados, músicas lúdicas e inúmeros produtos direcionados para a faixa etária infantil. O problema é a precocidade e a intensidade desse acesso à tecnologia. Pois num primeiro momento é isto que veem, mas em pouco tempo já estarão acessando outros conteúdos e navegando por outros mares. E a responsabilidade de impor limites, educar e direcionar é dos pais.

O mundo virtual e tecnológico deve ser usufruído, mas com regras, limites e no tempo adequado. Mais do que de um celular, as crianças precisam dos pais. Certamente elas terão melhores sonhos se dormirem com um abraço e não com uma tela luminosa.

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