Não nascemos na Suécia (2)

Cláudio Lacerda
Cirurgião. Professor da UPE e da Uninassau

Publicado em: 01/05/2019 03:00 Atualizado em: 01/05/2019 09:14

Certo dia, residentes e internos do Serviço de Cirurgia Abdominal e Transplante de Fígado que dirijo, no Hospital Universitário Oswaldo Cruz da Universidade de Pernambuco (UPE), recusaram-se a prestar atendimento especializado a paciente com abdome agudo, possivelmente com indicação de cirurgia, internado no PROCAPE, hospital cardiológico vizinho ao nosso e também pertencente à UPE. Alegaram que não eram lotados naquele hospital e que, portanto, aquela tarefa não era “obrigação” deles. Nessa decisão, contaram com o apoio de cirurgiões preceptores do nosso próprio Serviço, da direção do nosso Hospital e principalmente da Coordenação da Residência Médica.

Ao tomar conhecimento desse fato, que me pareceu evidente omissão de socorro, indignado e decepcionado convoquei aqueles alunos de internato, os residentes e os cirurgiões envolvidos para uma reunião de urgência com o objetivo único de discutir o significado da palavra “obrigação”. Iniciei dizendo o seguinte: “Vocês, estudantes, residentes e jovens médicos, pertencem a uma elite de privilegiados numa sociedade injusta, cheia de excluídos. Para formar cada um de vocês, a Nação investiu uma fortuna. Não se sentem moralmente obrigados a uma contrapartida? Ou vocês acham que podem se comportar como se tivessem nascido na Suécia? Essa gente desamparada dos nossos hospitais públicos olha para nós como sua única chance. Acham que temos o direito de decepcioná-los? Não haveria nisso, portanto, uma questão de solidariedade humana, sentimento imprescindível no exercício da profissão que abraçaram? Se vocês não forem atendê-los, quem irá? Já pensaram nisso? Ou também acham que não têm “obrigação” de pensar nisso?”

Na sequência, olhei para os estudantes e perguntei o porquê deles terem escolhido ser médicos e me antecipei dizendo que lamentaria muito se os seus grandes sonhos fossem tão pequenos quanto os de comprar um apartamento, um carro importado e uma casa na praia.   

Depois de um longo período de silêncio, um dos residentes levantou-se e disse: “Estamos indo assumir o caso agora professor”. Na sequência, a reunião acabou sem qualquer outro comentário. O abdome agudo foi confirmado, o paciente recebeu os cuidados clínicos iniciais e foi operado, obtendo alta na semana seguinte.

Nunca mais deixaram de atender pacientes naquela situação. Creio que a palavra “obrigação” passou a ter, para eles, outro significado, outra dimensão.

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