Lima Barreto entre a ironia e a raiva

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

Publicado em: 01/04/2019 03:00 Atualizado em: 01/04/2019 08:50

Episódio racista, contaminado com o desprezo pelos afrodescendentes, marca de forma aprofunda o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas sobretudo a obra denunciadora do escritor Lima Barreto, eivada de doses decisivas de ironia, sobretudo através daquilo que costumo chamar de perfil físico-psicológico, em que o intelectual descarrega sua revolta e sua dor num momento em que começamos a lançar as bases de nossa formação racial.

A cena a que me refiro ocorre no segundo capítulo do romance, quando Isaías Caminha viaja em busca do Rio de Janeiro. Depois de abandonar a cidadezinha onde nasceu e mora com a família – pai, mãe, tio e tia. Viaja em busca do futuro, convencido de que é o único caminho que lhe resta. Segue de trem tomado por incrível melancolia – seu estado mental mais permanente, o que significa justamente a sua desilusão com a vida brasileira e a perspectiva para os afrodescendentes.

O trem faz uma parada – de tantas outras que já fizera – e o jovem Lima Barreto aproveita para fazer um lanche rápido, o que de fato acontece. O troco demora e ele reclama. O atendente, irritado, diz que ali não se rouba, numa referência direta à cor do personagem, conforme o seu entendimento. Ele se afasta e outro rapaz, louro, desta vez, faz a mesma reclamação, e é atendido imediatamente. Lima fica profundamente decepcionado e se afasta tomado de uma grande mágoa. Pessoas próximas fazem comentários e parecem concordar com o ofendido, que reitera sua mágoa e a sua dor, mesmo que não faça observações em voz alta.

Tudo isso acentua a melancolia de Caminha, já agora em estado permanente de sua personalidade, conforme se verificará na descrição dos cenários, às vezes trabalhados geometricamente, na maioria das vezes tristes e agoniosos, algo que se tornará inevitável deste magnífico romance de formação, por assim dizer.

A partir daí Isaías torna-se magoado e, mais uma vez, usar o olhar do personagem para interpretar seus sentimentos que se voltam para os cenários, sobretudo aqueles mais deslumbrantes que formam as serras ou as planícies em torno do torno até chegar no Rio de Janeiro, com o personagem em grave introspecção. Exatamente isso, os olhos decifram os sentimentos e evitam longos discursos psicológicos.

Chamo a atenção para a técnica do olhar do personagem que faz com que emoções e sentimentos se apresentem nas cenas e nos cenários, evitando discurso íntimos e fazendo crescer a força narrativa onde os personagens atuam e somente onde pensam. É assim que Recordações torna-se um clássico da literatura brasileira.

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