Editorial Brasil e Israel

Publicado em: 01/04/2019 03:00 Atualizado em: 01/04/2019 08:50

O presidente Jair Bolsonaro desembarcou ontem  em Israel deixando no Brasil uma pesada agenda de negociações com o Congresso para a reforma da Previdência. Espera-se que os três dias de visita ao amigo Benjamin Netanyahu sejam proveitosos para o país, sobretudo na questão comercial. Apesar de toda a relevância que o atual governo tem dado a Israel, esse parceiro pouco representa nas relações comerciais com o exterior — não responde nem por 1% das nossas exportações. Se o objetivo da viagem for ampliar as vendas de produtos brasileiros, ótimo. O que não pode é o presidente usar a visita a um aliado de primeira hora para tratar de questões puramente ideológicas.

É de conhecimento público que, durante as eleições, uma das principais bandeiras de Bolsonaro, sobretudo para atrair o eleitorado evangélico, foi a transferência da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. Ele manteve esse discurso depois de empossado, sobretudo para afagar Netanyahu, que fez questão de prestigiá-lo com uma visita histórica ao Brasil. A reação contra a promessa do presidente foi imediata. A Liga Árabe baixou uma resolução cobrando respeito do brasileiro. A Arábia Saudita descredenciou cinco frigoríficos dos quais compra carne de frango. Os árabes são os maiores consumidores de aves do Brasil. No total, as exportações brasileiras para os países árabes chegaram a US$ 11,5 bilhões em 2018.

Felizmente, alertado por auxiliares de bom senso, Bolsonaro acabou recuando da proposta de transferência da embaixada brasileira para Jerusalém. Somente dois países, Estados Unidos e Guatemala, transferiram suas representações diplomáticas para a cidade, que está no centro de um histórico conflito. O Brasil estuda abrir na Terra Santa um escritório comercial, que, certamente, será muito útil para os cerca de 60 empresários que estarão em Israel em busca de negócios, principalmente no setor de tecnologia, do qual Israel, sem dúvidas, é referência.

Será de muito bom tom que Bolsonaro e Netanyahu deem a devida transparência às agendas conjuntas. Não pode um chefe de Estado — no caso, o brasileiro — mobilizar uma tropa paga com dinheiro público, se deslocar para outro país sem dizer os reais motivos para a viagem. Pelo pouco que foi falado, os principais temas a serem tratados entre os dois líderes são segurança e tecnologia. Mas a preocupação do corpo diplomático é grande com a possibilidade de imprevistos. O Brasil, ressalte-se, não vive seu melhor momento nas relações com o exterior.

A expectativa de todos, contudo, é para que a viagem a Israel seja proveitosa em todos os aspectos. E que os acordos fechados entre os dois países envolvam interesses de Estado, não de pessoas, porque essas são passageiras. Não pode o Brasil pagar pelos erros da inconsequência. Nos últimos dias, declarações disparatadas do chefe do Executivo quase provocaram um terremoto na política. Acredita-se que, em relação a esses tristes fatos, a página tenha sido virada. Resta saber o que virá da terra símbolo do cristianismo.

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