estado islâmico Com um vídeo do líder máximo, grupo jihadista busca mostrar força

Por: Rodrigo Craveiro - Especial para o EM

Publicado em: 06/05/2019 08:12 Atualizado em:

"Segurança primeiro", diz o letreiro na capital cingalesa: alvo inesperado. Foto: Jewel Samad/AFP
"Segurança primeiro", diz o letreiro na capital cingalesa: alvo inesperado. Foto: Jewel Samad/AFP
Antes mesmo da perda do autoproclamado califado, em uma vasta extensão de terra no Iraque e na Síria, Abu Bakr al-Baghdadi gravou um vídeo no qual enviava um recado aos seguidores: apesar da derrota em Baghouz, no leste do território sírio, o grupo Estado Islâmico (EI) e seu líder  anunciam uma “longa batalha” contra “os infiéis”. Os atentados que deixaram mais de 250 mortos no Sri Lanka, no domingo de Páscoa, foram um sinal de que o EI e seus simpatizantes ainda podem atuar em regiões distintas do planeta, se beneficiando de falhas das agências de inteligência e de vácuos de poder.

Para Judit Neurink, jornalista baseada em Erbil (Curdistão iraquiano) e autora de The war on ISIS: on the road to the caliphate (A guerra ao Estado Islâmico: no caminho para o califado), a facção de Al-Baghdadi não demonstra tanta força como um poder militar, mas preserva o poder enquanto organização jihadista. “O grupo ainda tem dinheiro, e sua ideologia atrai muitas pessoas dispostas a morrer por sua causa”, disse ao Correio.

Neurink acredita que o vídeo de Al-Baghdadi está relacionado à queda de Baghouz e à necessidade de comunicar aos seguidores que a perda do califado não significa a derrota na guerra. “As imagens levaram algum tempo para serem feitas. A informação mais atual sobre o Sri Lanka aparece apenas em áudio, ou seja, foi gravada posteriormente. Al-Baghdadi precisou se mostrar como senhor da guerra, não como o líder religioso de cinco anos atrás”, explica. Diferentemente de outros grupos, o Estado Islâmico se beneficia da descentralização. Além de os militantes atuarem de modo independente, sem ordens expressas, o EI conta com simpatizantes ávidos pelo martírio, ainda que não tenham vínculos diretos com a facção.

No vídeo, Al-Baghdadi mencionou 92 operações recentes do EI em oito países e prometeu vingança pelas mortes em Baghouz. De acordo com Neurink, o EI usou os ataques no Sri Lanka para mostrar os músculos. “A mensagem é: ‘Nós podemos atingir vocês onde quer que estejam’. Eu espero que o Estado Islâmico organize ou inspire atentados globais. Também porque, depois de ter perdido território, ele precisa combater no mesmo campo de atuação da rede terrorista Al-Qaeda”, comentou, ao citar a rede fundada por Osama bin Laden e hoje dirigida pelo médico egípcio Ayman al-Zawahiri.

O australiano Rodger Shanahan, especialista em Oriente Médio e islã político pelo Lowy Institute (em Sydney), admitiu que o modo como o vídeo de Al-Baghdadi foi estruturado (enquanto comandante, recebendo relatos orais e escritos de assessores) busca mostrar que o Estado Islâmico ainda é funcional e tem habilidade para comandar elementos díspares. “Quando ele disse que haveria uma jihad (guerra santa) até o juízo final, isso significava inspirar outros a não desistirem do combate e continuarem a atacar inimigos do Estado Islâmico (o Ocidente e os infiéis). Depois da queda de Baghouz e do fim do califado, era necessário para Al-Baghdadi permitir à opinião pública saber que o EI ainda está ativo e operacional.”

Lealdade
Shanahan observa que a organização de Al-Baghdadi sempre se manteve descentralizada, até certo ponto, ao se revelar hábil em atacar diferentes alvos mundo afora. “Ao contrário de outros grupos terroristas, o EI simplesmente precisa de lealdade e oferece pouco em troca. Antigamente, se uma facção extremista reivindicava responsabilidade por um atentado, isso normalmente significava que ela planejou, dirigiu, apoiou e executou a ação. O EI, necessariamente, não usa esse modelo. O mundo globalizado e interconectado permite fazer isso”, disse. Segundo o australiano, sem o califado e sem acesso a vários militantes estrangeiros, o EI tem demonstrado disposição de planejar ou inspirar atentados complexos e coordenados, como aqueles ocorridos em Paris e no Sri Lanka. Também tem buscado incitar ataques menores utilizando facas e carros.


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