Venezuela Guaidó convoca marcha a base militares; Maduro chama 'diálogo'

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 04/05/2019 08:51 Atualizado em:

Fotos: Federico Parra/AFP
Fotos: Federico Parra/AFP
O líder opositor Juan Guaidó convocou os venezuelanos para que saiam às ruas novamente neste sábado (4) em uma "marcha pacífica rumo a bases militares para entregar um documento pedindo que passem a integrar a Operação Liberdade". Guaidó também lamentou as mortes dos cinco venezuelanos nos últimos dias, três deles menores de idade, Yoifre (14), Josnel (16) e Yonder (15). "Já são 271 mortos desde que Maduro está sentado na cadeira presidencial. Este é um genocídio silencioso.

O oposicionista falou em uma entrevista coletiva cercada de mistério, uma vez que ele tem mudado seu itinerário e mantido sua localização em segredo para evitar uma possível detenção. O local e horário do encontro foram mudados duas vezes, e Guaidó esteve presente apenas meia hora.

Na quinta (2), quando a Folha o entrevistou, foi orientada a não relevar sua localização. Depois da coletiva, Guaidó foi a um encontro com funcionários da PDVSA, a petrolífera estatal, para também levar uma carta e fazer um pedido de adesão aos que ainda trabalham na empresa.

Na sexta, houve assembleias da oposição em vários estados. Mas em Caracas o dia foi normal, embora não tenha havido aulas e boa parte do comércio estivesse fechada. Guaidó disse que convocaria as greves por setor nos próximos dias, reafirmando que elas devem acontecer tanto no setor estatal como no privado, até culminar numa greve geral, ainda sem data.

No domingo (5) será realizada uma missa pelos "venezuelanos que morreram pela pátria nos últimos anos". O líder opositor diz que exigirá investigação e Justiça para todos os assassinados, que são "mártires da liberdade". À Folha o deputado e chefe de gabinete Sergio Vergara contou que as operações de busca e apreensão e mesmo de detenção de políticos na Venezuela têm sido acompanhadas por roubos e saques. Vergara teve sua casa revistada há um mês.

"Me colocaram no chão, de costas, com um sujeito apertando a bota sobre a minha coluna. Quando me levantei, vi que não tinham levado só meu computador e documentos, mas também meu barbeador e meu tênis de corrida." Segundo ele, essas operações, que começam com a chegada da Guarda Nacional Bolivariana ou da polícia, acabam sendo uma espécie de saque.

"Da casa de Lilian [Tintori] e Leopoldo [López; líder opositor] levaram leite da bebê, mamadeiras, remédios", afirmou. "É uma demonstração do desespero em que está a tropa em geral. Depois, o promotor me pediu desculpas, mas meu barbeador jamais voltou."

Para sábado (4) e domingo (5), Maduro convocou "uma grande jornada de diálogo, ação e propostas". "O Congresso Bolivariano dos Povos, o PSUV [seu partido] e todos os níveis de governo vão elaborar um plano de mudança e retificação da Revolução". A convocação foi anunciada após Guaidó ter liderado, ao lado de Leopoldo López, a rebelião de um grupo de militares na base aérea de La Carlota, em Caracas, na terça.

O ato foi apontado por Maduro como uma tentativa de golpe. No entanto, poucos agentes atenderam ao apelo, e Guaidó deixou o local. López, libertado por soldados de sua prisão domiciliar, refugiou-se na casa do embaixador da Espanha. "Me perguntam se foi um êxito ou um fracasso [o movimento de terça]. Mas fracasso é a crise humanitária, o que nós fizemos foi uma conquista da cidadania. Por isso é preciso voltar às ruas e continuar os protestos."

Guaidó, que perdeu a imunidade parlamentar por decisão da governista Assembleia Constituinte, afastou-se de uma mobilização que havia convocado para o 1º de Maio e no dia seguinte não apareceu em público.

Na manhã de quinta, Maduro apareceu na TV com o alto comando das Forças Armadas e 4.500 militares para anunciar uma ofensiva contra os "golpistas". "Estamos em um combate, máxima moral (...) para desarmar qualquer traidor, qualquer golpista", afirmou no Forte Tiuna, principal complexo militar do país.

As manifestações de apoio do comando militar a Maduro incluíram insultos a Guaidó. "Não nos deixamos mandar por ninguém que não seja nossa linha de comando fundamental e muito menos por um idiota que se faz passar por presidente", afirmou o comandante estratégico operacional, almirante Remigio Ceballos, que chamou Guaidó de "vagabundo".

Maduro, acusado pela oposição de ter conseguido a reeleição de maneira fraudulenta, se aferra ao poder e tem o apoio da China e da Rússia. Durante seu governo, iniciado em 2013, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo entrou na pior crise socioeconômica de sua história moderna.

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