Espanha Separatismo catalão moderado se reforça frente a líder radical

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 29/04/2019 14:42 Atualizado em:

Foto: ROSER VILALLONGA/AFP
Foto: ROSER VILALLONGA/AFP
Com 22 cadeiras no Congresso espanhol, quatro delas para líderes detidos, o separatismo catalão ganhou terreno nas eleições de domingo (28), mas com uma virada para a moderação do partido ERC em detrimento do ex-presidente Carles Puigdemont.

Com seu líder e ex-vice-presidente regional Oriol Junqueras como candidato (ainda preso), o Esquerda Republicana (ERC) foi a primeira força na região com 15 deputados, dobrando os sete obtidos pelo Juntos da Catalunha (JxCat) de Puigdemont.

Entre ambos, ficaram os socialistas (12) e o Podemos (7), os dois partidos favoráveis a apaziguar um conflito que chegou a seu ápice em outubro de 2017 com a frustrada tentativa de secessão.

"O fator comum é o predomínio da moderação (...) Há claramente na Catalunha uma vontade de pacificação do debate", afirma o cientista político da Universidade Autônoma de Barcelona Joan Botella.

Esses resultados surgem, após uma dura campanha concentrada no conflito catalão e os constantes ataques da direita espanhola ao chefe de governo, Pedro Sánchez, por ter iniciado uma negociação com os separatistas.

E tudo em paralelo ao julgamento contra 12 dirigentes separatistas, nove em prisão preventiva, que acontece desde fevereiro no Tribunal Supremo de Madri. Cinco deles concorreram nas eleições e foram eleitos (quatro para o Congresso; um, para o Senado). Agora, a Justiça terá de decidir se poderão tomar posse.

Caminhos inversos
No domingo, as urnas reforçaram a distensão, tanto na Espanha, com a vitória de Sánchez frente à direita, quanto na Catalunha, com a vitória da ERC.

Depois do fracasso da ruptura unilateral e da detenção de Junqueras, enquanto Puigdemont seguia para a Bélgica, a sigla moderou sua estratégia.

Defendendo o diálogo e uma estratégia mais a longo prazo para a independência, a ERC superou no domingo o milhão de eleitores pela primeira vez em sua história depois do golpe sofrido nas eleições regionais de dezembro de 2017.

O caminho do ex-presidente foi o inverso: o habitual espírito negociador de seu partido Convergência (agora refundado como PDECAT e integrado ao Juntos pela Catalunha) deu passagem a uma estratégia de bloqueio e manutenção do conflito.

"A disputa entre o Juntos pela Catalunha e a Esquerda Republicana está se resolvendo a favor da ERC, que agora é o partido moderado", avaliou Botella.

Mais deputados, menos determinantes
Além disso, apesar da melhora de resultados em relação a 2016 (de 32% para 39% de votos e mais cinco deputados), "já não são tão imprescindíveis para o governo de Sánchez", afirma a analista Berta Barbet.

Na legislatura anterior, o socialista precisava do apoio dos dois partidos separatistas catalães para alcançar a maioria absoluta.

Sánchez conseguiu isso na moção de censura contra seu predecessor conservador Mariano Rajoy, em junho passado. Não teve, entretanto, o mesmo apoio na votação do orçamento, o que levou à antecipação das eleições.

Agora, com 123 deputados de 350, pode ficar a apenas uma cadeira da maioria absoluta apenas com o apoio do Podemos e de outros partidos regionais não separatistas. Para tomar posse, bastaria a abstenção de um dos partidos separatistas catalães.

Dificilmente, porém, haverá alguma negociação antes de 26 de maio, data das eleições municipais, regionais e europeias na Espanha. Nelas, previa-se um duelo direto entre Junqueras e Puigdemont, candidatos ao Parlamento europeu por seus respectivos partidos. A Junta Eleitoral espanhola proibiu hoje a participação do ex-presidente.

Em um comunicado, o JxCat denunciou a medida da Junta Eleitoral como uma "flagrante violação dos direitos fundamentais" de Puigdemont, de Toni Comín e de Clara Ponsatí, que tiveram as candidaturas nos três primeiros lugares da lista ao Parlamento Europeu anunciadas pela sigla em março.

"Querem silenciar e afastar uma candidatura para que não possam explicar no coração das instituições europeias aquilo que representa: a decisão de milhões de catalães de constituir uma república", afirmou o JxCat.

O partido catalão anunciou que mobilizará de forma "imediata todas as ações jurídicas no Estado espanhol e na Europa para defender os direitos dos três candidatos".

Para Botella, estas eleições são "um segundo turno" do choque entre as duas forças separatistas e, no caso de uma nova vitória da ERC, "pode haver movimentos importantes" na Catalunha.

Com seus rivais desgastados e em meio à paralisia do atual governo de coalizão liderado por um aliado de Puigdemont, Quim Torra, os republicanos poderão manobrar para "forçar novas eleições" e governar na Catalunha pela primeira vez desde a Segunda República espanhola (1931-1939), prevê.


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