Alívio Manifestantes comemoram no Sudão após renúncia do chefe da junta militar

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 12/04/2019 20:58 Atualizado em:

Alaa Salah, uma estudante que se transformou em "ícone" do movimento. Foto: Reprodução/Twitter (Foto: Reprodução/Twitter)
Alaa Salah, uma estudante que se transformou em "ícone" do movimento. Foto: Reprodução/Twitter
No dia seguinte da destituição de Omar Al-Bashir do poder no Sudão, o chefe da junta militar de transição que dirigia o país renunciou nesta sexta-feira (12) e nomeou outro militar para sucedê-lo, uma decisão que foi recebida com alegria pelos manifestantes em Cartum. Antes, os militares no poder haviam negado ter dado um golpe de Estado, em uma tentativa de tranquilizar a comunidade internacional e os manifestantes. 

Awad Ibn Ouf, o chefe do conselho militar de transição, anunciou em um discurso à nação transmitido pela televisão pública que renunciou ao seu cargo, e nomeou em seu lugar Abdel Fattah al Burhan Abdelrahman, inspetor-geral das Forças Armadas. Esta declaração foi recebida com gritos de júbilo na capital sudanesa, segundo jornalistas da AFP. 

"O papel do conselho militar é proteger a segurança e a estabilidade do país", havia declarado pouco antes o chefe do comitê político da junta, o tenente-general Omar Zinelabidine. "Não é um golpe de Estado militar, mas uma tomada de posição a favor do povo", acrescentou.

"Governo civil"
 
"Iniciaremos um diálogo com os partidos políticos para estudar como governar o Sudão. Haverá um governo civil e não interviremos em sua composição", disse, repetindo as garantias formuladas antes pelos chefes militares.

Os militares tinham afirmado que Al-Bashir, que dirigiu o país com mão de ferro durante 30 anos, está detido, mas que não será entregue ao exterior. O Tribunal Penal Internacional tem um pedido de prisão ao ex-presidente por crimes de guerra.

Em protesto pelas decisões dos militares, os manifestantes passaram a sexta noite consecutiva diante do quartel-general das Forças Armadas em Cartum, apesar do toque de recolher.

Por ocasião de uma grande manifestação pela oração dessa sexta, milhares de mulheres e homens vestidos de branco compareceram ao quartel-general sob um sol escaldante, segundo testemunhas.

"É o nosso lugar. Vamos continuar até que a vitória seja alcançada, até conseguirmos um governo de transição", disse Abu Obeida, um manifestante.

"Estou impressionado com o que todos esses jovens estão fazendo aqui", disse Husein Mohamed, um idoso que disse ter vindo de Omdourman, perto de Cartum. 

Na quinta-feira (11), o ministro da Defesa, Awad Ibn Ouf, anunciou a instauração durante dois anos de um "conselho militar de transição", cuja direção assumiu.

Integrar os civis 
 
Após o anúncio da destituição de Al-Bashir, no poder desde um golpe de Estado em 1989, a multidão comemorou nas ruas. Mas esse entusiasmo durou pouco e os manifestantes chamaram a continuar o protesto, que teve início com a decisão do governo em 19 de dezembro de triplicar o preço do pão em plena crise econômica.

Al-Bashir tentou reprimir os protestos pela força antes de estabelecer em 22 de fevereiro o estado de emergência em todo o país.

A polícia indicou na sexta-feira à noite que 16 pessoas morreram baleadas nas últimas 48 horas. Um balanço oficial dava conta, até agora, de 49 mortos desde o início dos protestos, em 19 de dezembro. 

"As pessoas não querem um conselho militar de transição", mas "um conselho civil", declarou na quinta-feira Alaa Salah, uma estudante que se transformou em "ícone" do movimento.

Uma sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre o Sudão foi realizada nesta sexta-feira a portas fechadas, a pedido de seis capitais, incluindo Washington, Paris e Londres. Foi encerrada após uma hora de discussão, sem emitir uma resolução, segundo diplomatas.

Os militares serão "garantidores de um governo civil", reiterou pela manhã o embaixador do Sudão na ONU, Yasir Abdelsalam.

No Sudão do Sul, que conquistou a independência em 2011 após 22 anos de conflito, Riek Machar, líder rebelde oposto ao poder, disse que espera que a destituição de Al-Bashir não afete o processo de paz em curso no seu país, em guerra civil desde 2013.

O espaço aéreo do Sudão foi fechado na quinta-feira por 24 horas, e as fronteiras terrestres até nova ordem.

Um cessar-fogo foi anunciado em todo o país, especialmente em Darfur (oeste), onde um conflito causou mais de 300.000 mortes desde 2003, segundo a ONU. 

Um dos líderes rebeldes de Darfur rejeitou na quinta-feira esta "revolução palaciana" e pediu "um governo civil de transição". 


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