Plano Guaidó busca tirar Maduro do poder na Venezuela

Publicado em: 07/04/2019 09:19 Atualizado em:

O líder opositor e presidente interino autoproclamado da Venezuela, Juan Guaidó, lançou neste sábado (6) o que promete ser a escalada da pressão definitiva para tirar do poder o presidente Nicolás Maduro, que insistiu em um diálogo com mediação internacional para resolver a crise.

Diante de milhares de partidários em Caracas, Guaidó, reconhecido por mais de 50 países como chefe de Estado encarregado, ativou a "operação liberdade", uma estratégia para articular suas bases para a queda de Maduro.

"Aqui estamos, vamos prosseguir! Todos às ruas, à fase definitiva do cessar da usurpação!", convocou o chefe do Parlamento, de maioria opositora, falando na plataforma de um caminhão.

Para tanto, Guaidó convocou nova manifestação para a próxima quarta-feira, destinada a multiplicar um voluntariado que, segundo disse, será encarregado de organizar e manter viva a pressão nas ruas.

Começa "a maior escalada de pressão que já vimos na nossa história", afirmou Guaidó, que também convidou os funcionários públicos a comparecer ao Legislativo, na segunda-feira, em seu empenho para que parem de apoiar Maduro.

Também anunciou um encontro na Venezuela com líderes mundiais para abordar a crise no país, a pior da história moderna.

O líder opositor disse que sua ofensiva inclui, ainda, uma marcha até o palácio presidencial de Miraflores, em data não especificada, mas não voltou a tocar no assunto.

Chamado ao diálogo

Perante milhares de chavistas vestidos de vermelho, que se concentraram em vários pontos de Caracas para caminhar rumo ao palácio presidencial e "ratificar o caráter anti-imperialista" do país, Maduro pediu que se retome uma proposta de dialogo de México e Uruguai para resolver a crise.

"A Venezuela pede apoio e acompanhamento para um grande diálogo de paz, de entendimento", afirmou o presidente, que reiteradamente se mostra disposto a negociar, ao que Guaidó nega por considerar que Maduro só quer ganhar tempo para se manter no poder.

Como contrapartida aos "comandos de ajuda e liberdade" (o voluntariado de Guaidó), Maduro pediu para multiplicr as chamadas "quadrilhas da paz", que aglutinam todas as organizações de base, "para a defesa da pátria".

"Devem estar atentos aos grupos de mercenários, de violentos. Não vamos permitir a violência", advertiu.

As quadrilhas incoroporam os chamados "coletivos", organizações de base da situação, que Guaidó tacha de "paramilitares e terroristas", que reprimem a oposição.

Pas Larry Moreno, verdureiro de 65 anos, defende que os chavistas estão em legítima resistência e tacha a operação liberdade de camuflagem para uma intervenção americana.

Durante as manifestações da oposição, houve distúrbios em Maracaibo (oeste), onde os deputados Renzo Prieto e Nora Bracho foram detidos momentaneamente pelos militares.

"A repressão foi brutal, lançaram bombas de gás lacrimogêneo do helicóptero, mandaram blindados da Guarda e depois da repressão dos militares, chegaram os coletivos (civis armados)", contou à AFP a deputada Elimar Díaz.

O próprio Guaidó ficou sob ameaça de prisão, depois de a governista Assembleia Constituinte suspender na terça-feira sua imunidade e autorizar processá-lo por usurpar as funções de Maduro.

Deter Guaidó "seria um erro muito grave, talvez o último do regime" de Maduro, advertiu na sexta-feira Elliott Abrams, representante especial dos Estados Unidos para a crise venezuelana.

"Não vamos aqui dizer exatamente o que vamos fazer, mas a reação, asseguro-lhes que temos planos e será muito forte", afirmou, em declarações ao canal NTN24.

O número dois do chavismo, Diosdado Cabello, reagiu neste sábado às declarações de Abrams, a quem chamou de "assassino".

"Quem deveria estar preso é Abrams, condenado nos Estados Unidos por genocídio na América Central", disse Cabello a jornalistas durante a marcha governista em Caracas.

Cabello acrescentou que "nem Abrams, nem ninguém" impõe os tempos à Justiça venezuelana e assegurou que um processo contra Guaidó está em curso, segundo a Constituição e as leis do país.

"Abrams não tem nada a ver com a Justiça venezuelana (...). Sua opinião não significa nada para nós", emendou Cabello.

O governo de Donald Trump não descarta uma ação armada no país sul-americano, que detém as maiores reservas de petróleo do planeta. Guaidó, por sua vez, considera pedir ao Legislativo que autorize a entrada de uma missão militar estrangeira no país.

As marchas em Maracaibo se dirigiam às empresas estatais de serviços públicos, arruinados como o restante do país por apagões que se sucedem desde 7 de março, afetando o abastecimento de água.

"Estamos cansados, mas temos que ir às ruas porque é a única maneira de tirar essa gente!", disse à AFP Verony Méndez, de 48 anos.

Apostando no desgaste

Enquanto Guaidó estimula a pressão popular, Washington aperta o cerco sobre Maduro, apoiado pelas Forças Armadas, que enfrentará um embargo petroleiro a partir de 28 de abril.

Na sexta-feira, a Casa Branca também sancionou 34 embarcações da estatal PDVSA e duas empresas que enviam petróleo venezuelano a Cuba.

Durante as mobilizações opositoras deste sábado em Caracas, Guaidó advertiu o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que o envio de petróleo venezuelano à Havana chegou ao fim, denunciando a commodity financia um grupo de Inteligência cubana, denominado pela oposição como "G2".

Segundo o líder do Parlamento, este suposto comando reprime militares contrários a Maduro.

"Acabou a exploração do petróleo da Venezuela. Sendo assim, senhor Díaz-Canel, a única ingerência que não vamos permitir é a que seu G2 cubano quer fazer na Venezuela e por isso chega de petróleo, não vão usar o petróleo da Venezuela para submeter nossos militares e investigá-los", disse Guaidó.

A pedido dos Estados Unidos, o Conselho de Segurança da ONU vai abordar, na próxima quarta-feira, a situação humanitária na Venezuela.

Em sua contra-ofensiva, o chavismo também inabilitou Guaidó, através da Controladoria, de exercer cargos públicos durante 15 anos. O deputado não reconhece a medida e a suspensão da imunidade.

"O governo está jogando no desgaste de Guaidó", disse à AFP o analista Luis Salamanca.

Guaidó se declarou presidente interino depois que o Legislativo declarou Maduro um "usurpador", alegando que seu segundo mandato, iniciado em 10 de janeiro, resultou de eleições fraudulentas.

Durante seu governo, iniciado em 2013, a Venezuela mergulhou na pior crise de sua história moderna, com escassez de alimentos e medicamentos e uma inflação que o Fundo Monetário Internacional estima em 10.000.000% para 2019.

O líder socialista tem entre seus aliados a Rússia, que em 23 de março enviou dois aviões com uma missão militar, provocando a reação da Casa Branca.

Guaidó "pode se desgastar porque a realidade venezuelana é uma espécie de moedor de líderes", avalia Salamanca, que por enquanto descarta que o opositor esteja perdendo força.


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