religião Em missa para oito mil pessoas, Papa Francisco pede tolerância

Por: Rodrigo Craveiro - Especial para o EM

Publicado em: 01/04/2019 08:17 Atualizado em:

No último dia da peregrinação, Francisco orienta os cristãos a evitarem esforços para converter a maioria muçulmana.  Foto: Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press
No último dia da peregrinação, Francisco orienta os cristãos a evitarem esforços para converter a maioria muçulmana. Foto: Rodrigo Craveiro/CB/D.A Press
No último dia da visita ao Marrocos, a primeira de um papa desde João Paulo II, em 1985, o papa Francisco advertiu a minoria cristã do país a não tentar converter os muçulmanos, que representam 99% da população. “Cristão não é o que adere a uma doutrina, a um templo ou a um grupo étnico. Ser cristão é um encontro: somos cristãos por termos sido amados e encontrados, não graças ao proselitismo”, afirmou, durante encontro com sacerdotes, religiosos, consagrados e o Conselho Ecumênico das Igrejas, na Catedral de São Pedro, em Rabat. “Os caminhos da missão não passam pelo proselitismo, que leva sempre a um beco sem saída, mas por nosso modo de ser com Jesus e com os demais”, acrescentou, sob aplausos dos fiéis e religiosos que lotavam a igreja.

Com 34,3 milhões de habitantes, o Marrocos abriga apenas 25 mil católicos, que professam a fé em 38 paróquias espalhadas pelo país. O proselitismo ativo é tema sensível no reino, e pode ser punido com até três anos de prisão. Durante o encontro na catedral, Francisco voltou a frisar a importância do diálogo inter-religioso e da caridade.

Se o evento na igreja foi mais intimista e voltado a poucos membros da comunidade cristã, a missa no complexo esportivo Príncipe Moulay Abdellah foi um momento de festa e de reflexão para as 8 mil pessoas que lotaram o estádio. Nas cadeiras, era possível ver bandeiras de Brasil, Espanha, Portugal, México e Chile. “Viva o papa”, gritava a multidão, quando o pontífice entrou em procissão no ginásio, por volta das 14h45 (hora local).

Um coro com 500 jovens, procedentes do Marrocos, de países da África Subsaariana, das Filipinas e da Europa, cantou e dançou músicas típicas do continente. Ao fim da celebração, antes de embarcar de volta para Roma, Francisco tornou a destacar a importância do ecumenismo. “Quero, mais uma vez, encorajá-los a perseverar no caminho do diálogo com nossos irmãos e irmãs muçulmanos, colaborando para que se torne visível aquela fraternidade universal que tem sua fonte em Deus. Possam ser vocês, aqui, os servidores da esperança de que o mundo tanto precisa! E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim”, pediu.

Francisco agradeceu aos católicos do Marrocos por seus esforços a fim de tornar as comunidades oásis de misericórdia. “Continuem ao lado dos humildes e dos pobres, daqueles que são rejeitados, abandonados e ignorados”, recomendou. A conclusão da homilia foi um aceno de confraternização com o islã. “Que o Misericordioso e o Clemente — como tantas vezes O invocam nossos irmãos e irmãs muçulmanos — os fortaleça e faça frutificar as obras do seu amor.” A comunidade católica de Rabat entendeu o recado. Na saída do estádio, a alegria era visível no semblante de jovens. Alguns dançavam e exibiam a bandeira do Vaticano.

“Impensável”
Javier Martinez, arcebispo de Granada (Espanha), classificou a visita como “absolutamente maravilhosa”. “Ela aproxima duas realidades que têm grande influência em muitos milhões de pesoas. O rei Mohammed VI arrisca muito ao apostar na fraternidade, e o papa responde a uma exigência profundamente cristã: o desejo da unidade entre todos os povos”, comentou. Na opinião de Martinez, o ato de Francisco foi extraordinário e “belíssimo”. “Algo assim era impensável 10 anos atrás. Estamos em um bom caminho”, disse ao Correio.

Casada com um muçulmano e radicada há 25 anos em Rabat, a espanhola Estefania González definiu como “fenomenal” a visita de Francisco. “O papa falou da reconciliação entre as religiões, da tolerância e da liberdade de culto. Ele pediu que as pessoas se entendam, se amem e se respeitem. Também abordou a questão do clima e do respeito pelo planeta”, relatou.

Antes da chegada do pontífice, a Coordenadoria dos Cristãos Marroquinos divulgou nota na qual apelava em favor da liberdade de culto público. “Nós renovamos a expressão de nossas aspirações às liberdades básicas das quais nós, cristãos marroquinos, ainda somos frequentemente privados”, diz o texto da entidade, que congrega muçulmanos convertidos ao cristianismo.

Antes da missa solene, o papa fez uma visita privada ao Centro Rural dos Serviços Sociais de Tamara, administrado pelas Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo. Francisco presenteou a instituição com um quadro da Sagrada Família produzido a partir de técnicas artesanais antigas próprias da cultura bizantina.

Vinde a mim
Após o encontro com sacerdotes, religiosos, consagrados e o Conselho Ecumênico das Igrejas, na Catedral São Pedro, o Correio ouviu a mãe de quatro crianças que atraíram todos os holofotes depois de serem chamadas a se aproximar do papa. A italiana Roberta Sarmin Wlaa e o marido, Antonio Licheri, não se continham de felicidade com a surpresa. “Eu não tenho palavras para descrever a emoção. Acho que minhas crianças são muito sortudas”, brincou, ao lado de Matteo, Jullie, Andrea e Gabriel.

Dois presentes
Francisco também recebeu dois presentes, como sinal de gratidão pela visita. Um marroquino de nome Hayat ofereceu a ele um vaso com argania, uma planta típica do Marrocos. Por sua vez, um artista tunisiano que não teve o nome divulgado deu a Francisco uma grande imagem do Cristo carregando a cruz, em bronze.

“Reze por nós”
Sem esconder a emoção, o arcebispo de Rabat, monsenhor Cristóbal López Romero, leu uma mensagem de agradecimento pela visita de Francisco. Ele lembrou que o papa costuma pedir a todos os fiéis que rezem por ele. “Não, não, reze por nós”, pediu, arrancando aplausos da multidão. O pontífice presenteou Romero com um cálice de prata e ouro.

Comunhão para todos
Para facilitar a participação de todos os presentes na eucaristia, 36 padres subiram as escadas do ginásio e distribuíram a hóstia entre os fiéis que desejassem comungar. Antes, perto do altar, o grupo de sacerdotes repetiu o gesto do pontífice e fez fila para beber o vinho consagrado de um cálice colocado sobre a mesa, além de comungar.

União dos povos
O tom de fraternidade que marcou a homilia de Francisco, no Complexo Esportivo Principe Moulay Abdellah, esteve presente em vários momentos da missa. Doze jovens da África Subsaariana ajudaram a distribuir a hóstia. Seis pessoas de diferentes etnias participaram da celebração em outro instante, ao pedirem pelo pontífice, pelos bispos e padres da Igreja Católica, pela família real do Marrocos, pelos migrantes e refugiados, pelos pobres e pelos que sofrem.

Saudação a imãs
A aproximação do cristianismo e do islamismo esteve presente na celebração em um gesto do pontífice e no próprio cenário montado para a homilia. O mural do altar representava motivos árabes e o símbolo da cruz. Ao fim da celebração, Francisco se dirigiu até um grupo de seis imãs (clérigos islâmicos) que assistiram à missa. Fez questão de cumprimentar um a um.

* O repórter viajou a convite da Embaixada do Reino de Marrocos


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