REINVENÇÕES SUSTENTÁVEIS Caatinga do futuro

Por: Sérgio Xavier

Publicado em: 29/05/2019 08:09 Atualizado em: 29/05/2019 10:05

Foto: Divulgação
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Caatinga é o bioma que caracteriza a alma, a cultura e a resiliência do Sertão nordestino. Carregada de vida solar, inspira cantadores, poetas e visionários. Mas sempre foi vista como ambiente pobre e sem perspectivas socioeconômicas.

De fato, as estiagens prolongadas e a falta de políticas públicas sustentáveis sempre dificultaram a produtividade e as condições de vida de 25 milhões de habitantes do nosso semiárido. Mas o que faz prevalecer a visão de pobreza é a incapacidade de perceber potencialidades, aprofundar conhecimentos e imaginar um novo modelo de desenvolvimento, baseado nas vocações da região e não copiado de outros lugares.

Com expectativas de menos água e mais calor, resultantes de aquecimento global e desmatamentos (perdemos 5 milhões de hectares de mata nativa de 1985 a 2017, segundo o MapBiomas) é urgente estancar a desertificação crescente, reflorestar e inventar um futuro de prosperidade sustentável na Caatinga.

Mas como acelerar o ecodesenvolvimento em áreas muito pobres, sem água e em processo de desertificação? Áreas desérticas têm sol e vento. Portanto, são adequadas para usinas solares e eólicas, grandes indústrias sem água, que podem ser instaladas rapidamente em muitos pontos do semiárido (como já vem ocorrendo). Instaladas em áreas suscetíveis à desertificação, estes empreendimentos que geram energia limpa e empregos locais, podem criar condições financeiras, técnicas e sociais para reverter degradações.

A ecotransformação do semiárido requer eixos econômicos propulsores (como as energias renováveis). Mas exige, sobretudo, interconectar inovações multissetorias, políticas públicas criativas, empreendedorismo disruptivo e conhecimentos multidisciplinares, hoje dispersos, para implantar soluções rápidas, sistêmicas e em larga escala, com expertises, talentos e olhares genuinamente sertanejos.

A Sudene bem que poderia ser reinventada, em versão século 21, para fazer planejamento holístico e fomentar bioindústrias, agroecologia, economia circular, energias limpas, acesso universal à internet, apicultura, ecoturismo, esportes naturais, manejo florestal, eficiência hídrica, design thinking, artesanato, manejo de caprinos (reverter sobrepastagem), produção artística e capacitação profissional intensiva, com rede de parceiros e suportes digitalizados.

Fundado nestes novos paradigmas, foi lançado no fim de semana, em Belém do São Francisco (PE), o CircuLAB - pioneiro Laboratório de Inovação para Economia Circular, dedicado ao fomento da BioEconomia da Caatinga e à estruturação de cadeias produtivas de materiais recicláveis. Durante Simpósio de Meio Ambiente, com palestras, minicursos e exposição das potencialidades dos produtos da Caatinga, assinamos parceria do Projeto Circularis com Ana Gleide Sá, presidente da AB- CDE, instituição mantenedora do Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco – CESVASF e Patrícia Ferraz Xavier, presidente do Instituto InterCidadania.

O CircuLAB CESVASF vai otimizar estruturas que já existem, integrar parceiros diversos e prospectar produtos da caatinga, que podem ser manejados economicamente por extrativismo, visando proteger e regenerar o bioma e, ao mesmo tempo, promover negócios, empregos e renda.

A Plataforma Circularis, que integra um aplicativo de coleta seletiva de material reciclável e um canal de gestão de logística reversa para empresas e prefeituras, será implantado na região e servirá como “Radar de Inovação”, aglutinando e testando ideias e conhecimentos voltados para o desenvolvimento sustentável da caatinga. O objetivo é mapear estudos científicos de centros universitários, soluções, casos de sucesso, produtos sustentáveis e projetos geniais que estão ocorrendo em todo o Nordeste e podem ser potencializados, interligados e multiplicados.

Projetos como o Ecolume, coordenado pela pesquisadora do IPA, Francis Lacerda, que está criando uma floresta bioeconômica, para aproveitamento das propriedades nutricionais e farmacológicas do saboroso umbu (ou imbu, como chamam corretamente os sertanejos) na Serra do Giz, com apoio do prefeito de Afogados da Ingazeira, José Patriota, que articulou a criação de uma reserva natural de caatinga no município. Mais de 700 mudas estão sendo plantadas para dar vida a novos arranjos produtivos.

Iniciativas como “Bichos da Caatinga” (@BichosDaCaatingaOficial), liderado pelo inovador Bruno Bezerra, presidente da CDL de Santa Cruz do Capibaribe (PE), que visa valorizar e proteger a ‘bichodiversidade’ do bioma a partir da difusão colaborativa de imagens raras de animais.

E outras inúmeras ideias que possibilitam, por exemplo, reciclar esgoto das cidades sertanejas, aproveitando água para irrigação; combinar energia solar com hortas hidropônicas ou a criação de caprinos sob placas mais elevadas; produzir adubos orgânicos com restos de frutas e plantas; fabricar colchões e travesseiros com sobras de tecidos para atender comunidades em situação de emergência etc.

No futuro distante, certamente não vamos precisar de muitas construções e processos que hoje desmatam, poluem e desertificam. Mas, com certeza, vamos continuar dependentes de vegetação, solo, água, biodiversidade e equilíbrio climático. Logo, a maior obra que podemos realizar no semiárido é conservar e regenerar a caatinga. Então... mãos (e mentes) à obra!! Interação: Projeto Circularis – www.circularis.cc / MapBiomas - Dados sobre a Caatinga – http://mapbiomas.org/

* Sérgio Xavier é jornalista, consultor e desenvolvedor de inovações para a sustentabilidade (InovSi e Circularis - Porto Digital). É ecologista e foi Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco.


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