RELAÇÕES INTERNACIONAIS O que podemos aprender com o Japão?

Por: Thales Castro

Publicado em: 03/04/2019 10:33 Atualizado em: 03/04/2019 10:36

Fui convidado, pelo governo japonês, por meio do Consulado Geral do Japão em Recife, para compor delegação de parlamentares brasileiros (quatro deputados federais e um senador da república) para realizar viagem oficial às terras do sol nascente com finalidade de conhecer o Japão, intensificar, ainda mais, a cooperação existente entre os dois países e apoiar a vasta comunidade nipo-brasileira residente neste país asiático. São quase duzentos mil descendentes nipo-brasileiros que, há trinta anos, decidiram fazer o caminho inverso após o primeiro grande fluxo migratório de 1908 de japoneses para os cafezais de São Paulo a bordo do navio Kasato Maru. Também foi objetivo desta viagem propor negociações comerciais, sobretudo de produtos agropecuários brasileiros, sobretudo a carne brasileira que concorre diretamente com a proteína animal vinda da Austrália que integra o TPP (Parceria Transpacífico). 

Fui o único da Região Nordeste a compor essa delegação. A organização meticulosa e variada em termos de agenda de trabalho e de visitação cultural muito nos impressionou. Tivemos a oportunidade de realizar visitas e reuniões no MOFA (Ministry of Foreign Affairs), o Ministério das Relações Exteriores, e no Ministério das Finanças, além da Dieta Nacional – o Parlamento Japonês bicameral. Também fomos recebidos pela Embaixada brasileira, na pessoa do Embaixador Eduardo Saboia, onde tivemos a oportunidade de conversar com o Conselho de Cidadãos, onde demandas bastante legítimas foram apresentadas. Tivemos um olhar atento e uma sensibilidade de alguém que partilha o vínculo com o Brasil. Também visitamos empresas japonesas e a JICA (Agência Japonesa de Cooperação Internacional) que tem tido um trabalho esplêndido de apoio às causas sociais e de pesquisa e investigação além de programas de prevenção a desastres naturais. A agenda cultural não ficou de fora: visitamos a antiga capital imperial Kioto e a cidade com grande concentração da comunidade brasileira: Nagoia, onde também visitamos uma escola primária, onde pudemos testemunhar os senso de limpeza, de responsabilidade coletiva e de disciplina e respeito das crianças, sobretudo, com a figura do professor. 

De fato, há muito pouco de união histórico-cultural e semelhança institucional entre Brasil e Japão. A começar pelo sistema político; o Japão é uma monarquia parlamentarista de linha unitária (em termos de destruição espacial de poder e de competências) e o Brasil é uma republica presidencialista de cunho federativo. Vale mencionar que o Japão possui a mais antiga monarquia em vigor no mundo. Detendo o terceiro lugar em termos de ranking econômico, o Japão possui 126 milhões de habitantes com altíssimo padrão de vida. A economia brasileira, por seu turno, está posicionada entre as dez maiores economias com uma condição de país em desenvolvimento. Mesmo assim, há muito que aprender e incorporar desta terra tão distante e, ao mesmo tempo, tão afetivamente tão próxima de nós em razão dos fluxos migratórios, celebrados por ambos os países. Há muito que o Brasil é considerado o país do futuro, onde esse futuro não chega. Então, o que podemos aprender e incorporar do Japão? Eu diria que três grandes fatores.

Primeiro, poderemos e devemos aprender das terras nipônicas o sentido profundo de honradez – algo tão esquecido em nossos trópicos brasileiros, Segundo, o sentido de cidadania ativa, versando sobre a dualidade direitos e obrigações. Aqui no Brasil, temos muito o viés de reparação social através do vitimismo, onde nos armamos através, unicamente, dos direitos e esquecemos, muitas vezes, das obrigações que temos para com a comunidade e com a pátria. Precisamos, neste quesito, de um novo pacto social neste nosso Brasil varonil. Terceiro, e por fim, o sentido urgente e necessário de incorporarmos a cultura do planejamento. Nossa mania atávica pela gambiarra e pelo improviso amadorista muito nos prejudica. Neste âmbito, planejar significa evitar surpresas e desenhar possíveis cenários para que toda a ação seja exitosa. Isso é essencial para o desenvolvimento pessoal e para o crescimento econômico. 

Desta forma, concluímos, mencionamos que é bom fazermos uma autocrítica como nação. É crucial, portanto, olharmos para dentro, como também mirarmos o que está lá fora, em termos de bom receituário de governança, para nossos destinos comuns do Brasil. O Japão, portanto, pode ser um excelente caminho; um novo porto de chegada para nos encontrarmos no presente, redefinindo o futuro.


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