Estudo Cientistas descobrem em micro-organismos nova esperança contra a obesidade

Por: Correio Braziliense

Por: Victória Fernandes - Correio Braziliense

Publicado em: 10/05/2019 22:07 Atualizado em:

Foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
Foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
As bactérias que compõem o corpo humano têm sido alvo de pesquisas, já que alterações em seu equilíbrio podem ser a causa de doenças diversas. Entender melhor o funcionamento desses mecanismos internos pode gerar tratamentos para enfermidades incuráveis e abordagens mais eficazes que as disponíveis.
 
Com esse objetivo, investigadores americanos inseriram micro-organismos da microbiota de pessoas magras em indivíduos obesos. A medida provocou alterações promissoras, que poderão abrir as portas para novos tratamentos de perda de peso. As descobertas foram apresentadas no Digestive Disease Week, evento científico realizado durante esta semana, em San Diego, nos Estados Unidos.

Muitos pacientes com sobrepeso não conseguem perder peso com os tratamentos atuais. Essa dificuldade foi uma das motivações para estudar o poder da microbiota sobre o emagrecimento. “Em nossa clínica, vemos pessoas que realmente não têm nenhum outro problema médico, simplesmente não conseguem perder peso. É uma população de pacientes muito importantes, a quem realmente queremos dar foco e tentar ajudar a entendê-los o máximo possível”, afirma, em comunicado, Jessica Allegretti, principal autora do estudo e diretora do Programa de Transplante de Microbiota Fecal no Hospital Brigham and Women, nos Estados Unidos.

No estudo, os cientistas analisaram 22 pacientes com obesidade e que não apresentavam outros problemas de saúde comumente associados à enfermidade, como diabetes e doença hepática. Durante 12 semanas, metade dos participantes tomou cápsulas contendo matéria fecal de um doador magro, e o restante ingeriu cápsulas de placebo. Os pesquisadores procuravam detectar mudanças no hormônio intestinal chamado peptídeo tipo glucagon 1 (GLP1), que está ligado ao reflexo da saciedade — a sensação de ter comido o suficiente. Nos resultados iniciais, não observaram diferenças na perda de peso ou no hormônio GLP1.

Duas alterações na microbiota dos participantes, porém, chamaram a atenção: diminuição na quantidade de um ácido biliar relacionado a resistência à insulina e alterações nas amostras de fezes dos participantes — a composição ficou mais similar a do doador magro. Essas alterações, segundo os cientistas, apontam para a possibilidade de gerar intervenções metabólicas ao manipular a microbiota humana. “Nosso estudo adiciona um primeiro passo encorajador na tentativa de entender o papel do microbioma intestinal em pessoas metabolicamente saudáveis com obesidade. Esperamos que isso sirva para terapias mais direcionadas no futuro”, ressalta Allegretti.

Resultado promissor
Segundo Bernardo Martins, médico gastroenterologista do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia (SBG), o estudo americano explora moléculas conhecidas como essenciais na perda de peso. “Sabemos que pacientes que são obesos tendem a ter uma microbiota mais inflamatória e, por isso, produzem menos GLP1, o que está relacionado à sensação de saciedade”, explica. “Trocar a flora intestinal seria a saída para mexer nesse processo. Apesar de não ter tido resultados satisfatórios na redução do peso durante essa pesquisa, houve alterações importantes. Isso mostra que estamos no caminho certo”, avalia.

O médico brasileiro explica que o hormônio GLP1 é foco em tratamento de pacientes diabéticos. “Existem remédios que fazem com que ele não seja destruído, e isso ajuda esses indivíduos. Ou seja, sabemos que é uma via importante e que vale ser estudada também em relação à obesidade”, complementou.

Pesquisas anteriores com animais mostraram que ratos obesos podem ficar magros e roedores magros, obesos apenas alterando a microbiota intestinal. Ensaios anteriores em humanos submetidos a transplante fecal revelaram melhora na resistência à insulina no fígado em pacientes com síndrome metabólica. “Os nossos dados sobre o ácido biliar certamente são intrigantes e sugerem que, talvez, haja uma ou mais vias diferentes em ação. A obesidade é um transtorno muito complexo, e acreditamos que, no centro de seu desenvolvimento, está um processo multifatorial”, diz Allegretti.

Mais desafios
A cientista conta que o estudo terá continuidade: a equipe vai buscar medidas mais sensíveis, que possam ter um impacto sobre o GLP1. Também planejam, com estudos adicionais, examinar doses variadas de material fecal e outros mecanismos para entender melhor o papel do microbioma na obesidade.

No Brasil, segundo Martins, os estudos relacionados à microbiota humana também avançam. “Temos especialistas na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) que trabalham com esse tema. Acredito que, só aos poucos, com pesquisas como essas, poderemos entender melhor o poder da microbiota e como ela pode ser usada para combater problemas como a obesidade”, diz.

O médico brasileiro pontua possíveis resultados dos desdobramentos de pesquisas. “Poderão mostrar maneiras de alterar o GLP1, qual a quantidade de bactérias que precisa ser transplantada para que isso ocorra e em que periodicidade isso precisa ser feito, semanalmente, mensalmente etc. Existem muitos pontos a serem aprofundados”, frisa.

“Nosso estudo adiciona um primeiro passo encorajador na tentativa de entender o papel do microbioma intestinal em pessoas metabolicamente saudáveis com obesidade. Esperamos que isso sirva para terapias mais direcionadas”
Jessica Allegretti, principal autora do estudo e diretora do Programa de Transplante de Microbiota Fecal no Hospital Brigham and Women


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