protestos Cenas de violência marcam dia de paralisação nas capitais

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 14/06/2019 18:15 Atualizado em:

No Recife, momentos antes de o ato ser iniciado, manifestantes expulsaram uma equipe da Globo que fazia a cobertura do protesto, no centro da cidade - Foto: Rosália Vasconcelos/DP
No Recife, momentos antes de o ato ser iniciado, manifestantes expulsaram uma equipe da Globo que fazia a cobertura do protesto, no centro da cidade - Foto: Rosália Vasconcelos/DP
Tiro de borracha no rosto de um manifestante, pessoas atropeladas, prisões, depredações e hostilidade à imprensa marcaram nesta sexta-feira (14) o dia de greve geral nas principais capitais do país. 

No Rio, um motorista atropelou manifestantes que fechavam uma das principais avenidas de Niterói (região metropolitana). Ele furou o bloqueio, ferindo duas professoras e três estudantes, de acordo com a Aduff (Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense).

A roda do carro passou por cima da perna de uma das professoras, Kate Costa, 32, e um dos estudantes teve escoriações leves no braço. Parte dos vidros do carro foram quebrados na confusão, e o motorista fugiu. A polícia disse que está "analisando imagens e procurando possíveis testemunhas que ajudem a identificar o autor do crime".

Também durante a manhã, no centro do Rio, policiais militares soltaram bombas de efeito moral para dispersar um grupo de manifestantes que ocupava a pista lateral da avenida Brasil e causava trânsito na região. Houve correria, mas a situação se normalizou minutos depois.

No Paraná, um manifestante integrante do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) em um protesto próximo à Repar (Refinaria Getúlio Vargas), em Araucária, região metropolitana de Curitiba. Sandro de Lima, 44, foi atingido por um tiro de bala de borracha no rosto.

A Secretaria de Saúde do Paraná confirmou que ele está internado no Hospital do Trabalhador, na capital, onde à tarde passou por uma cirurgia e que, no prontuário médico, consta que ele teve uma fratura no lado direito da face, na mandíbula, ocasionada por um tiro de bala de borracha.

Segundo o MST, os manifestantes foram atingidos pela guarda municipal de Araucária durante trancamento da rodovia federal BR-426. Eles afirmam que estavam se retirando do local quando receberam os tiros de bala de borracha. Participavam do ato também representantes da Frente Brasil Popular, do Sindicato dos Petroleiros, professores e caminhoneiros.

Para o MST, a repressão atenta contra a democracia e o direito de greve. "A Rodovia Federal BR 426, está sob jurisdição da Polícia Rodoviária Federal, no entanto os tiros foram disparados pela Guarda Municipal de Araucária, agravando a situação, uma vez que não compete a uma guarda municipal atuar em área federal", diz a nota da entidade.

Também em nota, a prefeitura afirma que a guarda municipal foi solicitada pela polícia para dar apoio a desobstrução da rodovia que havia sido bloqueada com pneus em chamas. Com a aproximação da guarda e da PRF, os manifestantes teriam lançado mais gasolina para aumentar o fogo e em direção às forças de segurança.

Neste momento, segundo a nota, houve a intervenção com três tiros de granilha, que serve apenas para dispersão. Apenas com a resistência, conforme a prefeitura, houve disparo de quatro tiros de bala de borracha contra o grupo. "É preciso esclarecer que os tiros de borracha são sempre direcionados para, no máximo, a altura da cintura; jamais em direção ao rosto. (...) Para ser atingida no rosto pode ter ocorrido de a bala ricochetear ou de a pessoa estar agachada", diz a manifestação. 

Ainda segundo a prefeitura, no local, não houve relato de ferido com bala de borracha, e as informações só surgiram depois pela imprensa. O órgão alega que a maioria dos manifestantes estava de um outro lado, mais próximo à Repar, e afirmaram à guarda não reconhecer o grupo que portava galão de gasolina como parte da manifestação.
    
Em Porto Alegre, o transporte funcionou normalmente ao longo do dia e teve interrupções nos ônibus e trens apenas no início da manhã. Em um único piquete em frente a uma garagem de ônibus da zona sul da capital gaúcha, a Brigada Militar, como se chama a PM no estado, prendeu 54 pessoas. 

Em outra garagem, na zona norte, a polícia usou bomba de gás lacrimogêneo, jato d'água e cavalaria para afastar cerca de 250 manifestantes. A corporação alega que os manifestantes reagiram e impediram a saída dos ônibus.

"Partiram para cima dos manifestantes com bomba de efeito moral, depois cavalaria com os brigadianos [policiais militares] com espada em punho, ameaçando. Não havia resistência, só reivindicávamos uma conversa prévia com os trabalhadores para saber se queriam aderir ao movimento, mas não foi permitido", disse Vidor à reportagem.

"Foi feito o uso progressivo da força. Não temos notícia que alguém tenha sido lesionado. Temos a técnica da utilização de todos os meios empregados e não temos notícia formal de algum excesso. Se alguém da população se sentir agredido, pode reclamar junto à Corregedoria, todos os fatos poderão ser analisados", disse comandante geral da BM, coronel Mário Ikeda. 

Em Alvorada, na região metropolitana, um soldado ficou feriado na cabeça após levar uma pedrada de um manifestante.

Em Salvador, 30 micro-ônibus foram vandalizados a em meio a paralisações. Ao todo, são 29 ônibus apedrejados e um atingido por um tiro. Não há registro de feridos.

Os veículos atingidos fazem parte do sistema complementar de transportes, que funciona de forma independente com uma frota de 290 veículos. Eles atuam prioritariamente na ligação de bairros da periferia com grandes avenidas da cidade.  

No final da tarde, um homem entrou no meio da manifestação na praça do Campo Grande e discutiu com militantes de esquerda. Houve troca de socos, mas ninguém feriu-se com gravidade.

No Recife, momentos antes de o ato ser iniciado, manifestantes expulsaram uma equipe da Globo que fazia a cobertura do protesto, no centro da cidade.

Aos gritos de "golpista" e "fora, fora", um dos manifestantes chegou a puxar a cinegrafista Ana Regina pela câmera. "Fazem isso porque eu sou mulher", disse ela.

Após o ocorrido, um pequeno grupo formado por integrantes da UNE (União Nacional dos Estudantes) pediu desculpas às profissionais e disse que a atitude não refletia a essência do movimento. 

Na capital mineira, o metrô não abriu as portas, diversas vias foram interditadas na região central e professores da rede pública paralisaram as atividades. A greve geral prejudicou o atendimento em bancos e centros de saúde. 

Os ônibus circularam normalmente, porém os passageiros precisaram ter paciência. Com o metrô fechado, o fluxo nos coletivos foi intenso. Não houve, contudo, registro de tumulto e o ato foi pacífico.  

No início da manhã, um incidente:  Edi Alves Guimarães, 53, foi intoxicada ao inalar fumaça de pneus queimados quando o veículo foi parado durante protesto na avenida Antônio Carlos, em frente à UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Até a tarde ela permanecia internada em estado gravíssimo no Hospital Risoleta Neves, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte. 

Edi Alves chegou na unidade de saúde por volta das 7h40 com parada cardiorrespiratória. A Polícia Militar informou ao hospital que ela foi intoxicada pela fumaça, mas as razões oficiais da tragédia ainda não foram divulgadas. Edi Alves está no Centro de Tratamento Intensivo (CTI).



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