minas gerais Distritos sentem impacto de obras de escavação para conter rejeitos

Por: Gabriel Ronan

Publicado em: 03/06/2019 07:43 Atualizado em:

Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que ontem o deslocamento do talude da mina superou em 9 centímetros o de sábado, e com maior velocidade. Uma placa de 600 metros descolou-se na sexta-feira. Foto: Leandro Couri/Refinaria
Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que ontem o deslocamento do talude da mina superou em 9 centímetros o de sábado, e com maior velocidade. Uma placa de 600 metros descolou-se na sexta-feira. Foto: Leandro Couri/Refinaria
Aos 63 anos, José Mendes de Carvalho —seu Chico, para os mais próximos — vive no distrito de Cruz dos Peixotos, em Barão de Cocais, desde que nasceu. No rancho, que tem partes ainda dentro da mancha de inundação da Barragem Sul Superior, da Mina de Gongo Soco, ele colhe o próprio café, planta milho e cuida de dezenas de gatos e cães, além de poucas cabeças de gado. O dia a dia que era pacato enfrenta, agora, o vai e vem dos caminhões, tratores e máquinas que, aos poucos, avançam em uma mata vizinha. A poucos metros dali, operários a serviço da Vale trabalham na escavação da bacia que terá a função de conter rejeitos que podem vazar da represa, no mais alto nível de alerta desde 22 de março.

Moradores do vilarejo ouvidos pela reportagem se espantam com a velocidade de avanço da obra. Ao abrir as portas de casa para a equipe, seu Chico serve água e café e oferece bancos para acomodação. Contudo, o tom é de queixa quando o assunto é sair do lugar em que vive, apesar do risco. “A mineradora deveria conversar com a gente primeiro. Sou nascido e criado aqui, e só saio morto. Tentaram me tirar, mas eu não saio. Vou resistir”, garante seu Chico.

Vizinho dele, o também agricultor Wellerson Ribeiro, 42, se sente desamparado e se queixa do mandado judicial que permitiu que máquinas e operários iniciassem trabalhos em propriedades particulares da região. “O complicado é que a comunidade aqui é pouca, não dá para mobilizar tanto. Se não for Deus, não temos chance”, lamenta. Sua casa não está na zona de risco, mas a mudança na rotina e a perda dos amigos do distrito de Socorro – evacuado desde 8 de fevereiro, quando nível de risco na represa subiu para 2 – mexem com o produtor rural. “Eu vendia um boi e dois porcos por semana. Hoje não consigo nada”, reclama.

Uma das maiores preocupações no distrito de Cruz dos Peixotos diz respeito ao Rio Santa Bárbara e ao Parque Nacional da Serra do Gandarela, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Moradores afirmam que houve desmatamento grande na área, além do risco de contaminação do manancial.

O povoado fica entre os distritos de André do Mato Dentro e Socorro, todos de Barão de Cocais. A interdição de Socorro também representa dificuldades para quem ficou. “Se romper, nosso maior problema será a estrada para ir para Barão de Cocais e Santa Bárbara. Teremos que sair por Caeté. Antes passávamos por dentro de Socorro”, conta a aposentada Silvane dos Santos, 47.

A reportagem entrou em contato com a Vale, mas, até o fechamento desta edição, a empresa não se manifestou sobre as queixas de moradores locais.

Monitoramento
A situação do talude norte da Mina de Gongo Soco segue em monitoramento. O último boletim divulgado pela Agência Nacional de Mineração (ANM) indicou que a estrutura se deslocava a 42,4 centímetros por dia. O dado, registrado na manhã de ontem, supera o último levantamento, divulgado no sábado, em 9cm/dia. Para efeito de comparação, a velocidade aumentou quase 18cm/dia desde sexta-feira, quando uma placa da estrutura, de 600 metros quadrados, se desprendeu.

O paredão tem  cerca de 96 mil metros quadrados. O temor é de que uma queda brusca do talude abale a estrutura da Barragem Sul Superior. Militares da Defesa Civil, da polícia e do Corpo de Bombeiros mantêm plantão no município para agir em eventual desastre.

A atenção das autoridades se concentra, principalmente, na chamada zona secundária de segurança (ZSS), onde vivem 6 mil pessoas. A lama demoraria uma hora e 12 minutos para chegar aos bairros dessa área. Esses moradores participaram de dois simulados de emergência da Defesa Civil estadual. Porém, mesmo somando as duas ações, ao menos 800 pessoas da ZSS nunca tiveram treinamento.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.