meio ambiente Índios Arara, além do 'zoológico' de Bolsonaro

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 25/04/2019 09:58 Atualizado em: 25/04/2019 10:04

Foto: Mauro Pimentel / AFP
Foto: Mauro Pimentel / AFP

De bermuda e camiseta, os Araras estão longe de ser o clichê de índios seminus e com penas, mas permanecem fortemente apegados a sua cultura e território, no coração da Amazônia brasileira, no estado do Pará.

Costumam denunciar invasões de suas terras por traficantes de madeira e afirmam que estas se multiplicaram desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder, em janeiro. 

O presidente de extrema direita, um capitão da reserva, anunciou sua política ao se perguntar, pouco depois de sua eleição: "Por que no Brasil temos que mantê-los (os índios) reclusos em reservas como se fossem animais em zoológico?".

"O índio é um ser humano igualzinho a nós. Quer evoluir, quer médico, dentista, internet, carro, viajar de avião", acrescentou.

Cerca de 200 Araras vivem em Laranjal, um povoado na beira do rio Iriri, a quatro horas de barco de Altamira, a principal cidade da região. Uma equipe da AFP passou alguns dias entre eles em meados de março.

Mesmo quando se vestem como habitantes na cidade, alguns têm seus rostos ou extremidades pintados com padrões inspirados em plantas ou animais, utilizando pigmentos extraídos das bagas de jenipapo.

Suas casas de madeira com paredes azuis foram edificadas pela Norte Energia, uma companhia que administra a represa de Belo Monte, atualmente em construção, como compensação por danos ambientais.

O dispensário e a casa da técnica de enfermagem, também construídos pela companhia, são de cimento.

Segundo cifras oficiais, há cerca de 800.000 indígenas de 305 etnias no Brasil, de 209 milhões de habitantes.

Alguns são mais apegados às tradições, vivem isolados e vestidos apenas com panos no meio da selva. Outros abandonaram totalmente seu estilo de vida ancestral e se instalaram nas cidades.

Foto: Mauro Pimentel / AFP
Foto: Mauro Pimentel / AFP
 
 
Diferentemente de outros nativos, os Araras falam seu idioma ancestral e muitos idosos se negam a falar português.

Um gerador elétrico está ligado de 19H00 a 22H00, o tempo necessário para que alguns jovens carreguem seus telefones celulares. Não se conectam a uma rede, mas veem clipes de estrelas como a cantora pop Anitta, que baixam quando estão na cidade.

Este é o registro de um dia comum entre os Araras:
- 04H00: O canto dos galos atormenta os ouvidos muito antes do nascer do sol. Toda a aldeia é um curral gigante, com dezenas de galinhas caminhando livremente - à espera de irem para a panela. 

Curiosamente, alguns mantêm macacos em semicativeiro, às vezes com uma corrente. Passam um tempo como animais de estimação, antes de terminarem em um guisado.

- 07H30: A técnica de enfermagem Karina Silva Marçal, de 32 anos, não tem tempo de terminar seu café da manhã. Uma criança pequena já está batendo em sua porta pedindo xarope para tosse. Marçal é itinerante: passa dois meses em uma aldeia e volta à cidade por um mês.

Em Arara, Karina tem que cuidar especialmente de duas pessoas com deficiência. "Mas a pior praga é a gripe, quando voltam da cidade, muitos estão doentes e às vezes contaminam a aldeia toda", diz ela.

- 10H00: As aulas recomeçaram há mais de um mês na cidade, mas a escola da aldeia abrirá suas portas na semana que vem. A professora Janete Carvalho, de 35 anos, já está trabalhando. É hora da grande limpeza, de modo que as quatro salas, agrupadas em duas grandes casas de madeira, estejam perfeitamente operantes. Nas paredes há papéis coloridos com os nomes das crianças, em sua maioria do registro ancestral, como Mupera, Tjianden ou Mogoia, e suas datas de aniversário. Os jovens indígenas "são fera em matemática e adoram a aula de artes plásticas", explica.

-11H30: Enquanto sua esposa descasca milho e cozinha mandioca e peixe, Munenden, de 23 anos, um jovem sorridente de corpo atlético, olha pela janela para seu filho de um ano e seis meses que anda pela grama, com pinturas de jenipapo nos braços e no rosto. "Não gosto de passar tempo demais na cidade, há doenças demais, só vou quando é necessário", diz o jovem.

"Às vezes vamos a Altamira fazer compras, mas não passamos mais de dois dias lá", acrescenta seu vizinho Mouko, um homem de 43 anos, com expressão séria. "Bolsonaro quer os índios vivendo do jeito dos brancos, mas nunca renunciaremos a nossos costumes, viveremos pescando e caçando, devemos preservar a natureza, parar de derrubar árvores", conclui.

Caçam porcos selvagens (negros como javalis, mas menores e sem presas) e pescam peixes como o tucunaré, de meio metro de comprimento, emblemático dos afluentes do Amazonas. Mas os Araras também dependem do Bolsa Família para viver.

-15H30: Uma dezena de homens correm para a floresta com seus rifles. Foi avistada uma manada de porcos selvagens - a oportunidade de organizar uma caça. 

Os jovens vão por uma trilha, um idoso escolhe outra, seguido à distância por uma quinzena de mulheres e crianças que carregam uma carreta e machetes. Os jovens voltam com as mãos vazias, mas o idoso demonstra sua experiência e consegue matar quatro porcos.

A carreta é pequena demais para carregar tudo, mas os machetes estão bem afiados. Descartam as entranhas e as crianças carregam sem dificuldade as patas e as costelas cuidadosamente cortadas. 

-19H30: O gerador já funciona, mas um grupo de crianças de entre três e oito anos prefere se divertir perto do fogo. Com pedaços de pau, apontam uns para os outros como se estivessem atirando, e os "mortos" desabam no chão de forma teatral.

Do que estão brincando? "De índio!".


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