minas gerais Sob risco de barragem romper, Barão de Cocais entra em estado de vigília

Por: AE

Publicado em: 25/03/2019 08:35 Atualizado em: 25/03/2019 08:39

Foto: Leo Tavares/Divulgação - 22/02/2008
Foto: Leo Tavares/Divulgação - 22/02/2008
Dois meses após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) - tragédia que soma 212 mortos e outras 93 pessoas que ainda estão desaparecidas sob a lama de rejeitos de minério - a cidade de Barão de Cocais, onde outra barragem da Vale está em risco iminente de rompimento, vive um estado de vigília.

Desde 8 de fevereiro, com a subida para o nível de segurança 2 da barragem Sul Superior, da mina de Gongo Soco, cerca de 6 mil dos 28 mil moradores da cidade, habitantes das margens do Rio São João, têm dificuldade para dormir. Em caso de rompimento, a lama de refeitos descerá pelo curso d'água.

A partir de sexta-feira, com nova elevação do nível de segurança da estrutura, agora para 3, o mais alto, que significa ruptura iminente ou em andamento, o temor se intensificou. Moradores que poderão ser atingidos chegam a manter o carro pronto na garagem com documentos, álbum de formatura de filhos e lembranças da residência que pode ser destruída.

Maria Oliveira Coluna, de 52 anos, que mora às margens do rio, na região central da cidade, conta que está em pânico. Ela afirma ter feito a única coisa que poderá levar consigo se tiver que deixar sua casa. "Fiz um vídeo. Gravei tudo na minha casa. Até as plantas. Ao vê-lo depois, se eu tiver mesmo que ir embora vou lembrar da vida que tive e arrancaram de mim."

Outra moradora da cidade com casa às margens do rio, a dona de casa Edna Aparecida Oliveira Silva, de 60 anos, decidiu se preparar para a partida a qualquer momento, levando tudo o que não pode deixar para trás. "Já disseram que a gente não vai ter tempo de pegar nada, então coloquei no porta-malas do carro o álbum de formatura da minha filha, algumas lembranças da casa e documentos."

Adriana Aparecida Dutra, de 37 anos, transformou o carro praticamente em um guarda-roupas. "Aqui ninguém aguenta mais. Tem hora que dá vontade de ver essa barragem ruir, para acabar com isso de vez." Ela conta que alguns conhecidos já abandonaram suas casas. "Uma família de Mariana, que tinha uma parente de 90 anos vivendo aqui, a levou embora", diz.

Placas indicando rotas de fuga foram instaladas na cidade. Com temor, um grupo de moradores faz vigília à noite em uma das pontes sobre o Rio São João. "Eles dormem de dia e ficam lá à noite", conta Edna.

Sem volta
A elevação do nível de segurança da barragem da Vale em Barão de Cocais fez com que a agente de saúde Isabel Cristina Batista, de 45 anos, perdesse por completo a esperança de voltar para casa. Isabel morava no distrito de Socorro, o mais próximo da represa, e foi retirada de casa no dia 8 de fevereiro. Na ocasião, cerca de 500 pessoas que moravam na chamada zona de autossalvamento (ZAS) foram retiradas das suas casas. Essas moradias, que ficam a uma distância de até 10 km da barragem, seriam atingidas muito rapidamente em caso de rompimento. Já os moradores do centro seriam atingidos em cerca de 1 hora, o que, segundo a Defesa Civil, é tempo suficiente para evacuar todo mundo em risco.

Isabel, que morava no distrito com o filho, a irmã, o pai e a mãe, está agora em um hotel em Santa Bárbara, junto com todos os parentes. "A situação piorou. Quando disseram que a barragem seria descomissionada, achamos que poderíamos voltar. Agora, com essa incerteza, acho difícil", afirma.

A Defesa Civil concluiu neste domingo, 24, um plano de salvamento para o caso de a barragem se romper. Com base em novos cálculos, o órgão estimou que 6.054 moradores de Barão de Cocais, em vez dos 9 mil anunciados anteriormente, terão de ser evacuados. Mas um eventual rompimento pode atingir também duas outras cidades: Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo. Somando as três cidades: cerca de 9,8 mil pessoas teriam de ser tiradas de suas casas.

De acordo com a Defesa Civil de Minas Gerais, o tempo para que a lama atinja Santa Bárbara é de 3h06. A São Gonçalo do Rio Abaixo os rejeitos chegam 6 horas após o rompimento. As três cidades passarão por simulados de rompimento da barragem nos próximos dias. O de Barão de Cocais ocorre nesta segunda-feira, 25.

O Ministério Público de Minas enviou neste domingo duas petições à Justiça. Na primeira, requer que a Vale "se responsabilize pelo abrigamento e acolhimento de pessoas e animais", prestando toda a assistência às famílias desabrigadas. Em outra, pediu o bloqueio de R$ 120 milhões da Vale para realização de auditoria técnica para garantir a segurança de barragem. A promotoria afirma que, apesar de ter pedido à empresa, ainda não há certeza sobre a condição das estruturas. 

Empresas questionam remoção de estrutura abaixo de barragens

Um grupo de 13 gigantes dos setores de mineração e geração de energia tem questionado uma exigência que passou a ser feita após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em Minas, no dia 25 de janeiro: a remoção de toda estrutura operacional que concentrar funcionários abaixo de suas barragens.

A reportagem teve acesso a uma carta da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape), que inclui entre seus associados a própria Vale e a Samarco Mineradora, protagonista da catástrofe de Mariana, em 2015. 

No documento enviado à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a associação questiona os impactos da medida que foi instituída pelo governo federal a partir do Conselho Ministerial de Supervisão e Resposta a Desastres, coordenado pela Casa Civil. A Abiape afirma que "algumas estruturas têm de ficar alocadas na região do barramento (pois são componentes essenciais ao próprio empreendimento e de apoio à operação) e não podem ser removidas por serem inerentes as atividades de operação". Por esse motivo, a associação diz que "percebeu que alguns pontos do ofício precisavam ser melhor esclarecidos".

No dia 15 de março, a Aneel realizou uma reunião com a associação para tratar do assunto e das mudanças necessárias que precisam ser feitas, especificamente, em usinas hidrelétricas, que são o tipo de barragem fiscalizado pela agência. O prazo para que as empresas apresentassem seus planos de "remoção de instalações de suporte" às suas barragens venceria na última sexta-feira. As empresas pediram que o prazo fosse esticado até 30 de abril, mas a Aneel concordou em estender somente até o dia 19 de abril. 

Questionado sobre o assunto, o vice-presidente da Abiape, Cristiano Abijaode Amaral, disse que, devido ao volume de dúvidas que as empresas tinham e, pelo fato de alguns associados terem muitas usinas, o prazo original tinha ficado muito apertado. "Não significa que não estamos fazendo. Estamos elaborando todos os planos, agora com as dúvidas equacionadas", disse Amaral.

Justificativa
O representante afirmou, porém, que há situações em que, segundo as empresas, a remoção seria desnecessária. "Tem barragens, por exemplo, que ficam a dez quilômetros de distância da casa de máquinas (da hidrelétrica), onde tem um almoxarifado, uma oficina. No caso de um acidente numa barragem dessas, você tem tempo de evacuação, desde que o plano de comunicação e o sistema de comunicação atuem", declarou. Ele disse ainda que havia dúvidas sobre a remoção de demais estruturas erguidas abaixo dos barramentos, com áreas reservadas para peixes e viveiros de plantas. 

Após a reunião com a associação, a Superintendência de Fiscalização dos Serviços de Geração (SFG) da Aneel reforçou a determinação da nova lei, regra que tem o objetivo de "resguardar a integridade de trabalhadores dos empreendimentos hidrelétricos, realizando, assim, a remoção de instalações de suporte aos empreendimentos localizados na área de influência das barragens".

A agência declarou que as estruturas de apoio, após o início da operação da usina, deverão ser removidas, permanecendo apenas as estruturas essenciais à operação do empreendimento, como casa de força. 


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