Redescobrindo o brilho Todos os dias, em Pernambuco, pelo menos uma pessoa volta a enxergar, graças a novos tratamentos capazes de restabelecer um dos sentidos mais essenciais do ser humano e fazer pacientes literalmente redescobrirem o mundo, cor a cor. Na contramão de diagnósticos pessimistas que mudam vidas, técnicas extremamente apuradas conseguem trazer de volta a luz a olhos que já haviam desaprendido a enxergar. Em 'Ensaio sobre a cegueira', o escritor português José Saramago fala sobre o caminho de quem se encontra 'no escuro'.
"O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros. São palavras certas. Já éramos cegos no momento em que cegamos. O medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos". No desfecho do romance, o mundo 'volta à luz' e reencontra a simples capacidade de ver. Mas é a partir desse ponto, após anos de escuridão, que a história desses pernambucanos começa.
Foto: Lais Telles/Esp DP/D.A Press
Estar imerso no escuro constante, a despeito de se estar desperto ou dormindo, é a consequência mais dramática da cegueira, especialmente para quem enxergava normalmente sem se dar conta de quanta falta a visão poderia fazer. Tristeza e solidão os sentimentos mais evidentes de quem é obrigado a conviver com a total falta de luz. Justamente por isso, voltar a enxergar acaba significando a recuperação de mais que uma habilidade, mas da autoestima, da vontade de viver e da própria independência.
Foi o caso da aposentada Julia Bernardo Muniz, de 72 anos. Diabética, com glaucoma e acometida por uma doença chamada degeneração macular do tipo exsudativa, ela perdeu a visão pouco antes dos 60 anos. Na época, uma das últimas imagens de que lembra é a da bisneta, Cássia, então recém-nascida e símbolo, ao lado dos irmãos e primos, do que Dona Julia mais gostaria de poder rever durante seus 12 longos anos de cegueira. "Hoje vejo minha bisneta bonita já grande. É bom demais ver o sorriso dela. É bom poder enxergar a imagem de uma pessoa feliz", garante.
Submetida no ano passado a um tratamento ainda recente em Pernambuco, a expectativa é de que ela continue com pelo menos 70% da visão pelo resto da vida, como explica o oftalmologista Mario Emery Filho. "Fizemos uma intervenção com laser de argônio para aliviar a pressão nos olhos dela e, então, aplicamos três injeções anti-vegf (ver quadro), em três meses. Nas duas primeiras semanas, ela já começou a enxergar", explica.
O milagre que tirou Julia da escuridão, no entanto, não é de fácil acesso. Não cobertas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as injeções custam em média de R$ 3 mil. Somente alguns poucos planos de saúde reembolsam o tratamento. A substância atua como inibidor da degeneração do tecido da córnea e auxilia sua recuperação. A manutenção da intervenção é feita em casa, com comprimidos antioxidantes que custam R$ 80 mensais. "Hoje, todos os dias, pacientes que não enxergavam há muito tempo, recuperam a visão. A vantagem é que o procedimento não tem riscos maiores que os comuns a qualquer intervenção", completa Emery Filho.
Ainda se acostumando a enxergar, Julia comemora cada simples detalhe: consegue procurar chaves perdidas dentro de casa, abrir cadeados, passear sem acompanhamento pelos cômodos sem se machucar e oferecer, ela mesma, seu agradecimento aos anjos da guarda de sua família e das pessoas que a ajudaram a voltar à luz. "Antes, pedia para alguém. Nem podia vir aqui (um beco recuado na parte de trás de casa) e até evitava sair do quarto. Hoje eu mesma posso acender essas velas. É uma felicidade que não tem preço", conclui, emocionada, ao poder observar a chama.
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