Dicas de Português
Esta página reúne as dicas de português
da colunista do Diario de Pernambuco Dad Squarisi, autora
da coluna
Dicas de Português. A página
é atualizada sempre às segundas-feiras
(com o conteúdo publicado pelo Diario no domingo
anterior) e às quintas-feiras (com o conteúdo
da coluna da quarta-feira anterior do Correio Braziliense).
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Data de publicação: 25/07/2010
Esperneio dos fichas sujas
Assunto: Verbo
Recado
"A poesia é a palavra que se faz pássaro para cantar e voar."
Anderson Braga Horta, poeta
Esperneio dos fichas sujas
"Chega! Xô, político pendurado na Justiça!", desabafaram os brasileiros. Valeu. A sociedade decidiu agir. Apresentou o Projeto Ficha Limpa — com 1,7 milhão de assinaturas. Dois milhões de cidadãos aderiram depois pela internet. Objetivo: impedir que pessoas julgadas pelo tribunal se candidatem a cargo eletivo. Pressionada, a Câmara aprovou o texto.
Chegou a vez do Senado. Suas Excelências reagiram. "A prioridade do povo não é prioridade do Senado", disse o líder Romero Jucá. Mais tarde, voltou atrás. Os senadores aprovaram o Ficha Limpa. Os fichas sujas festejaram. Por quê? A mudança no tempo verbal livrou os condenados antes da aprovação da emenda.
Mas a alegria durou pouco. Protestos se ouviram em Europa, França e Bahia. Editoriais de jornais, comentaristas políticos, gente como eu você, ele espernearam. Não deu outra. Consultado, o tribunal botou passado e futuro num saco só. Condenado -- antes ou depois da lei -- fica banido das urnas. Rua!
Teimosia
Muitos não se conformaram. Candidataram-se. O Ministério Público entrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com pedido de impugnação — requerimento para impedir que o postulante se mantenha na disputa. O TSE decide. Acolhe ou rejeita o pedido. Se acolhe, o sujão cai fora da corrida eleitoral. Fica impugnado.
É luta
Impugnar tem sinônimos. Entre eles, combater, contestar, contradizer, contrariar, questionar, rebater, refutar, repugnar, contrapor-se, divergir, opor-se. Também tem antônimos — apoiar, aprovar, confirmar, aceitar, admitir, concordar.
A indesejada dos políticos nasceu latina. É derivada de pugnar. Na língua dos Césares, pugnare quer dizer punir, brigar, lutar. No berço, criou montões de filhotes. Expugnar é um deles. Significa (conquistar à força), tomar de assalto, vencer pelejando. Impugnar, outro.
Retrato verbal
De ego nasceu eu. E deu origem a conhecida prole. Egoísta é um de seus membros. Egocêntrico, outro. Ególatra, mais um. Todos têm um ponto comum — o olhar posto no umbigo (ou na ponta do nariz). Políticos representam bem a espécie.
Adorar a si mesmo não é coisa nova. A mitologia grega tem até um deus pra simbolizar a egolatria. Trata-se de Narciso. O mancebo era o belo entre os belos. As ninfas não resistiam a seus encantos. Batiam o olho nele e não dava outra. Caíam de amor. O moço não estava nem aí pras mocinhas.
"Vingança", clamavam as desprezadas. Zeus as ouviu. Um dia, fez o bonitão contemplar a própria face nas águas de uma fonte. Ao ver tanta beleza, o moço ficou extasiado. Apaixonou-se por si mesmo. Sem conseguir sair do lugar, não deu outra. Morreu.
Serial killer
Que medão! Há três meses, Brasília tomou conhecimento da matança de Luziânia. Pedreiro em liberdade condicional matou rapazes a rodo. Agora, novo susto. Adaylton Nascimento Neiva assassinou a mulher e a enteada. Foi preso. Cumprido um terço da pena, passou para o regime de semiliberdade. Aí, fez e aconteceu. Ceifou vidas por atacado. O número de vítimas pode chegar a nove. A criatura é serial killer. Em bom português: assassino em série.
Leitor pergunta
É obrigatório ou facultativo o uso de título em uma dissertação de concurso público? Vou prestar concurso e só de pensar na prova discursiva fico aflita.
Daiane Ferreira, lugar incerto
O que não é proibido é permitido. Leia atentamente as instruções. Siga a orientação. Se não houver referência a título, escrevê-lo é facultativo. Quem não escreve pressupõe que o título esteja subentendido na ordem. Quem escreve reafirma o tema.
***
Estou estudando para o concurso da Polícia Federal. Na aula de redação, o professor disse que se perdem pontos se o candidato misturar letra cursiva com letra de forma. É verdade?
Nathália Mai De Rose, Porto Alegre
As letras, Nathália, devem ser escritas com clareza para facilitar a leitura. Não podem deixar dúvida sobre maiúsculas e minúsculas. O desenho da letra depende de cada pessoa. Respeita-se.
Novidade na velha nova novela das sete
Assunto: Figura de linguagem
Recado
"Simplicidade é o comportamento de quem começa a ser sábio."
Luiz Gonzaga Pinheiro
Novidade na velha nova novela das sete
Na vida nada se cria. Tudo se recria. Ou se copia. Ou se recicla. A nova novela da Globo serve de exemplo. Os mais vividos se lembram do folhetim de Cassiano Gabus Mendes que foi ao ar lá por 1985. A história dos costureiros rivais volta reescrita por Maria Adelaide Amaral e interpretada por atores da moda. Entre eles, Alexandre Borges, Murilo Benício e Cláudia Raia.
O nome se mantém. Mas a grafia muda. Antes da reforma ortográfica, tititi se escrevia assim — tudo junto. Agora exibe hífen. Virou ti-ti-ti. Por quê? Ganharam tracinho os compostos formados com elementos repetidos de formas onomatopeicas que mantêm o acento. É o caso de blá-blá-blá, zum-zum, cri-cri, reco-reco, tique-taque, zigue-zague, zigue-zigue.
Palavras sonoras
Onomatopeia? O que é isso? O dicionário responde. Palavra cuja pronúncia imita o som natural da coisa significada. Exemplos? Há montões. Au-au, late o cão. Miau-miau, geme o gato. Tique-taque, alerta o relógio. Toque-toque, bate o visitante com pressa de entrar.
Mais? Pois não: murmúrio, sussurro, cicio, chiado, mugir, pum, reco-reco, fofoca, trouxe-mouxe.
Filhotes
O adjetivo derivado de onomatopeia? O danado tem duas formas. Uma: onomatopaico. A outra: onomatopeico. Reparou? O ditongo aberto ei perdeu o acento. Tal como em ideia, assembleia, epopeia e ateia, em onomatopeia e onomatopeico o grampinho bateu asas e voou. Olho vivo! Ele deu adeus nas oxítonas. Permanece firme e forte nas oxítonas — papéis, cartéis, fiéis.
É proibido bater
Palmada na bundinha? Nem pensar. Pai, mãe, avô, avó, tio, tia & cia. ilimitada não podem levantar a mão contra a criança. Se alguém tentar, que se prepare. Vai pro xilindró. A proibição trouxe uma palavra à tona. É tapa. Pintou, então, a dúvida. Em que time joga a dissílaba? Ela é fêmea ou macha? Faça a sua aposta. Feminina? Acertou. Masculina? Acertou. Tapa é gilete. Corta dos dois lados.
Não, obrigado
Coluna da Veja descobriu tropeço no menu eletrônico da Sony do Brasil. No texto, aparece "TV à cabo". Ops! O sinalzinho da crase sobra. Por quê? Cabo é masculino. Empedernido, não muda de gênero nem sob ameaças da gangue do Bruno. "O grampo", diz ele, "é coisa feminina". Tem razão.
Leitor pergunta
Colunista do Estado de Minas afirma que "literalmente, ninguém deu bola para a jabulani". Ficou a dúvida. Dar bola literalmente significa ceder, presentear ou doar uma bola. Como alguém pode ceder, presentear ou doar uma bola para outra bola? Acho que é possível dar bola para uma bola somente no sentido figurado, que seria dar confiança à bola, dar atenção à bola, importar-se com a bola. Estou correto?
Geraldo Xavier, BH
É isso, Geraldo. No caso, "dar bola" não tem parentesco nem remoto com doar. Significa, como você deduziu, "dar confiança".
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Ao redigir um memorando, escrevi "chefe de gabinete". Uma colega me disse que o correto é "chefe-de-gabinete". E daí?
Divaldo A. M. F. Souza, Brasília
O Vocabulário Ortográfico não registra o vocábulo. Mas ele entra na regra do pé de moleque. Três ou mais palavras ligadas por preposição, conjunção ou pronome perdem o tracinho: chefe de divisão, chefe de esquadra, tomara que caia, dor de cotovelo, mula sem cabeça.
Exceção? Se a palavra designa seres do mundo animal ou vegetal, mantém o hífen: castanha-do-pará, pimenta-do-reino, cana-de-açúcar, bicho-do-pé, joão-de-barro. E por aí vai.