O país nordestino
Operário em fábrica de dormentes de concreto em Salgueiro (PE)
Foto:Juliana Leitão/DP/D.A Press
Para entender o Nordeste é preciso compreender suas contradições
e perceber que a região tem pujança econômica apesar da pobreza
O ano em que a
região pode
alcançar o brasil
No imaginário nacional o Nordeste aparece como uma região de pobres, mas o seu PIB é quase do tamanho do de Portugal e maior que o do Chile. Em compensação, seus indicadores de analfabetismo estão na mesma faixa dos de El Salvador. Quem olha só para o semiárido, vê uma infraestrutura africana; quem se restringe ao litoral delicia-se com o que parece ser uma Cancún abrasileirada. Nos anos 50 o economista Hans Singer viu a região como um meio termo entre a Turquia e a Índia. Nos anos 20 o presidente Epitácio Pessoa a via como um Egito ou Mesopotâmia. O Nordeste sempre teve vocação para comparação com outros países. Em 1982 a autora Heloneida Studart lançou um livro que teve repercussão nacional, China - O Nordeste que deu certo. Hoje, 28 anos depois, é o Nordeste que é a China.
Nos últimos oito anos recebeu um inédito conjunto de obras públicas e privadas. Acabam de ser anunciadas para Pernambuco uma siderúrgica, com investimento previsto de R$ 1,5 milhão, e uma montadora da Fiat, que deve ter investimento de R$ 3 bilhões. Com população de 53 milhões de habitantes, a região tornou-se um cobiçado mercado consumidor. A Sadia implantou fábrica na região e está produzindo uma mortadela adaptada ao gosto dos nordestinos - mais macia, mais vermelha e mais apimentada que a de outras regiões. O Nordeste não é um só, são muitos - por isso é tão comparado com países. Celso Furtado já dizia: “No Nordeste tudo escapa a explicações fáceis”.
Analfabetismo da população de 15 anos ou mais (%), 2008
Fonte: Unesco (Elaboração: Ipea)
Tamanho
O Nordeste tem área de 1,5 milhão de km2 (19,5% do território nacional); 53 milhões de habitantes (27,8% do total do país, segundo o último censo) e 13,1% da renda nacional. Sua área equivale aos territórios da França, Espanha, Alemanha e Suíça, juntos. A população é maior do que as da Argentina e Portugal, reunidas. E o PIB (US$ 232 bilhões) equipara-se à soma dos do Chile (US$ 169 bi) e Luxemburgo (US$ 54 bi).
Sem água e sem emprego
Da área do Nordeste, 63% é semiárido (Sertão). O resto fica assim: 16%
cerrado; 11% litoral-mata, e 10% pré-amazônia. O semiárido tem gente demais (é o mais povoado do mundo), água de menos e quase nada de indústria. Lá estão os piores indicadores sociais e econômicos da região. Da mesma forma que se diz que não há solução para o Brasil sem solução para o Nordeste, pode-se dizer que o desenvolvimento do Nordeste é impossível sem uma solução para o semiárido.
Trabalho e Consumo
De janeiro de 2003 a setembro de 2010 o Nordeste foi a segunda região do país em que o nível de emprego mais cresceu: 59,52%, o que representou a criação de cerca de 2,9 milhões de empregos formais (com carteira assinada). A taxa foi superior à média nacional, 51,34%. A região que alcançou o melhor índice foi o Norte, com 76,56%. Há uma tendência simplista no país de considerar que a elevação do consumo na região deve-se exclusivamente ao Bolsa Família. O fato é que isso ocorreu em decorrência de uma série de fatores: a transferência de renda (não só Bolsa Família, mas também outros programas sociais e a Previdência Social), a criação de empregos em massa e o aumento real do salário mínimo. Como 50% dos trabalhadores de carteira assinada no Nordeste recebem um salário mínimo (o maior percentual desse indicador entre todas as regiões), o aumento real desse ganho tem um forte impacto na região. O ganho real do mínimo entre 2005 e 2010 foi de quase 50%.
Projetos de
infraestrutura
Quando os grandes projetos de infraestrutura terão efeito no PIB nordestino? Os cálculos são de que, depois de concluídos, isso acontecerá num período de cinco a 10 anos. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), avalia que o PIB do estado vai dobrar nesse período. Atualmente é de R$ 70,4 bilhões, equivalente a 2,3% do PIB nacional. O estado sedia o empreendimento que melhor encarna o ciclo de expansão do Nordeste: o Complexo Portuário Industrial de Suape. Lá estão o Estaleiro (que marca a retomada da indústria naval brasileira, e já está em funcionamento), a refinaria Abreu e Lima (em obras) e mais 138 indústrias. A montadora da Fiat e a siderúrgica também farão parte do Complexo, e 25 outras empresas estão em negociação para instalar-se lá. Suape foi criado em 1979. Até 2006 tinha 81 indústrias. Hoje são 140. O futuro ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, era presidente do Complexo, função que acumulava com a de secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco.
Mandando dinheiro
para o Sudeste
Quando a renda criada numa região não fica nesta mesma região diz-se
que há “vazamento”. Uma das formas do vazamento dá-se por meio do déficit comercial com o Sudeste. Um exemplo: em 2004 o Nordeste teve um superávit comercial de R$ 11,3 bilhões com o comércio exterior, mas um déficit de R$ 34,8 bilhões no comércio com as regiões desenvolvidas do Brasil. Resultado final: déficit de R$ 23,5 bilhões, valor que na época era equivalente a 9,5% do PIB nordestino. É um problema antigo; Celso Furtado o chamava de “operação triangular”, em que a região menos desenvolvida sempre sai perdendo. Repete-se ano após ano, como mostra o estudo “Entraves ao Desenvolvimento Regional: uma análise a partir dos fluxos comerciais da região Nordeste do Brasil”, de autoria dos economistas Antonio de Castro Queiroz Serra e Otávio Augusto Miranda (Fortaleza, 2009). É uma conta reveladora de que, assim como acontecia nos anos 60, o Nordeste permanece vazando renda para o crescimento do Sudeste (na medida em que compra bens e serviços de lá). O que, de outro lado, gera a reivindicação do Nordeste de que a União precisa compensar o déficit com transferências para a região.