Quem vai combater a violência?
Paulo
Rebêlo
Do Diario de Pernambuco
Depois de fazer a revisão de uma prova, às 19h30 saí
da faculdade em direção à residência de um
amigo, em Afogados. No cruzamento próximo à loja Tupã,
fui abordado por alguém que saiu por trás de uma árvore
e agia nas imediações há bastante tempo. Eu olhava
para a direita quando ouvi o grito de "pare" e, em seguida,
ele atirou a cerca de 30cm do meu rosto. A bala partiu o queixo pelo lado
esquerdo. Um segundo tiro entrou no painel do carro. Foram sete horas
na sala de cirurgia, dias na UTI e uma traqueostomia. Durante a recuperação,
fui à delegacia do Bongi e registrei queixa. Os policiais não
fizeram nada para investigar o caso. Dois anos depois, tive um carro arrombado
na minha garagem, prestei queixa na delegacia do Cordeiro. Sabe o que
os policiais fizeram? Nada.
O relato acima poderia partir de qualquer um dos 1.533.580 habitantes
do Recife, cujo índice de violência é, de novo, um
recorde em nível nacional. A única diferença é
que a situação ocorreu em 2004 com o candidato à
prefeito Roberto Numeriano (PCB). De todos os concorrentes à prefeitura
nesta eleição municipal, o comunista ostenta a situação
mais traumática.
Raul Henry (PMDB) teve seu veículo roubado, em 1994, após
um jogo do Brasil na Copa. "O assaltante chegou a bater em minha
costela com o revólver", recorda. Kátia Telles (PSTU)
foi assaltada junto a um grupo de amigos, em 2000, mas não lembra
direito. Edilson Silva (Psol) teve o relógio furtado, no ônibus,
há dez anos. Todos os demais - João da Costa (PT), Cadoca
(PSC) e Mendonça Filho (DEM) - não foram vítimas
da violência no Recife, segundo relataram ao Diario.
É inócuo desfilar números e estatísticas.
A insegurança do Recife, reflexo direto da realidade caótica
de Pernambuco, é percebida em todos os bairros, horários
e classes sociais. Diferentemente das doenças por falta de saneamento
básico, ausência de moradia ou filas no Hospital da Restauração,
a violência atinge as classes média e alta da cidade. Chega
à Avenida Boa Viagem e aos restaurantes chiques, sempre tão
competentes em omitir os ocorridos. Não à toa, hoje nenhum
candidato permite que o tema passe em branco em suas promessas e discursos.
O argumento de gestores públicos no Brasil sempre foi o apelo constitucional,
ou seja, segurança pública é de responsabilidade dos governos federal
e estadual. O alto índice de homicídios e crimes violentos nas capitais,
contudo, esvaece o discurso. Estudos acadêmicos e pesquisas científicas
comprovam uma realidade há muito conhecida: somente com atuação ampla
e integrada, pela prefeitura, se consegue reduzir índices de violência
nas cidades mais afetadas pelo crime.
Crimes precisam de estatísticas
Qual será o maior desafio do próximo prefeito? Complementar o aparato
policial ou planejar espaços públicos e boa convivência social? Não há
resposta objetiva, mas há indicadores. De modo geral, as propostas dos
candidatos são convergentes. Com destaque para a revisão da atuação da
guarda municipal e para a reurbanização de bairros carentes e escolas
públicas.
O argumento é simples. A ausência de opções para lazer urbano, espaços
públicos e geração de renda cria um ciclo vicioso o qual, comumente, desboca
no crime: ócio, desemprego, ignorância, falta de expectativas, desinformação.
Para o cientista político e pesquisador da área, José Maria Nóbrega (UFPE),
não basta apenas investir em qualidade de vida, é preciso elaborar dados
informacionais concretos, para estudos e aplicação de políticas públicas
de segurança. "Hoje isso não existe aqui. Há delegacias que não possuem
sequer computador, não há banco de dados, não há como mapear as ocorrências,
tudo ainda é muito incipiente", diz.
A urbanista Clarissa Duartetambém defende os processos de reurbanização
para combater a violência. "Estimular a dinâmica urbana e o comércio de
bairro, a iluminação e a arborização viárias são iniciativas fundamentais
para estimular o aumento do uso dos espaços públicos. E este uso intenso
pela população gera a necessária e gratuita vigilância social", define,
reforçando o papel da sociedade.
Trata-se de posicionamento um pouco diferente do ex-secretário Nacional
de Segurança Pública e coronel da reserva da PM de São Paulo, José Vicente
da Silva Filho. "Ninguém se pergunta por que vocês têm o maior índice
de homicídios do Brasil, parece que apenas engolem os números e lançam
novos projetos sociais que nunca dão certo", condenou, em entrevista ao
Diario no início do ano.
Propostas
Roberto Numeriano (PCB)
Já foi vítima da violência? SIM
- Aumentar efetivo da guarda municipal, para atuar como força
auxiliar da PM
- construir núcleos da cidadania em áreas com altos índices
de violência
- começar a Reforma Urbana (prevista pelo Plano Diretor) nas
comunidades degradadas, priorizando as ações nas áreas
de saúde, educação e transporte
Raul Henry (PMDB)
Já foi vítima da violência? SIM
- programas de complementação de renda, capacitação
profissional, microcrédito e empreendedorismo
- acompanhamento psicológico de famílias e jovens em
situação de risco
- ampliar, equipar e capacitar a guarda municipal como força-auxiliar
à PM
- troca de iluminação em toda a cidade
Mendonça Filho (DEM)
Já foi vítima da violência? NÃO
- criar secretaria de segurança comunitária e espaço
formal de participação da sociedade pelo conselho municipal
de segurança
- redefinir o papel e atribuições da guarda municipal
- elaborar mapa do crime, com informações georeferenciadas
Kátia Telles (PSTU)
Já foi vítima da violência? SIM
- criar escolas profissionalizantes municipais
- isenção de tarifas públicas para desempregados
- fundar casas de abrigo com assistência médica, psicológica
e jurídica para mulheres
- desmilitarização da PM
João da Costa (PT)
Já foi vítima de violência? NÃO
- continuidade aos programas da gestão do prefeito João
Paulo
- Focar a repressão e a prevenção
- reforçar iluminação em áreas carentes
da cidade
- aprofundamento do Pacto pela Vida e na valorização
da educação
Edilson Silva (Psol)
Já foi vítima de violência? SIM
- transferir os contratos de prestação de serviços
para populações da periferia
- reformar as escolas públicas, com turnos integrais e centros
de esportes
- melhoria na iluminação pública
- promover a regularização fundiária e urbanização
de comunidades populares
Cadoca (PSC)
Já foi vítima da violência? NÃO
- mil câmeras de seguranças em locais estratégicos
com visão noturna
- central de monitoramento em sintonia com as Polícias Civil
e Militar
- urbanização e requalificação de áreas
urbanas e investimento em iluminação
Desafios do próximo prefeito
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. Saúde
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. Educação