O caos da saúde
Paulo
Rebêlo
Do Diario de Pernambuco
A situação é conhecida. O paciente sai de casa em
busca de atendimento de urgência e, ao chegar ao posto de saúde
ou a policlínica municipal, é encaminhado a um hospital
de referência do estado. E lá encontra filas enormes e uma
unidade sem estrutura para atender a demanda por atendimento, assim como
os jornais noticiam rotineiramente. Isto quando não vai direto
para um hospital de referência ao lembrar de suas experiências
anteriores nas dependências municipais.
Muito além de dinheiro, distribuição de recursos
no orçamento e quantidade de policlínicas instaladas no
município, os principais gargalos da saúde pública
municipal passam pela falta de entendimento sobre necessidades e metas;
hierarquização do atendimento a partir da complexidade e
parcerias entre gestores. A repercussão negativa é mútua,
para doentes e os profissionais sem condições de trabalho.
Além de policlínicas, ambulatórios, postos de saúde,
serviço de atendimento de urgência (Samu), Programa de Saúde
da Família (PSF), o futuro prefeito do Recife terá um grande
desafio pela frente, até hoje não encarado: cobrar o cumprimento
de metas dos profissionais, qualificá-los devidamente e instruir
a população sobre as capacidades e deficiências do
atendimento municipal. E, de quebra, entrar em sintonia com o governo
estadual e com gestões vizinhas -algumas das principais policlínicas
ficam entre limites de municípios, por exemplo.
O discurso do vice-governador e atual Secretário da Saúde,
João Lyra Neto, pontua bem a relação tumultuada:
"pelo SUS (Sistema Único de Saúde), os municípios
devem cuidar dos atendimentos de baixa e média complexidade, mas
como isso não ocorre, o estado está entrando nessa área.
É por falta de consultas e pronto-atendimentos que hoje há
um déficit de 5 milhões de consultas por ano no SUS. E é
por essa carência que a Restauração está superlotada",
definiu, na última sexta-feira.
A opinião do vice-governador retrata uma realidade imemorial, histórica,
compartilhada por boa parte dos especialistas e profissionais de saúde
consultados pelo Diario. O médico Izaías Francisco Souza,
integrante do núcleo do PSF, cita outros gargalos conhecidos e
ainda não solucionados. "Fazemos a prevenção
pelo PSF. Quando necessário, fazemos a referência para a
policlínica, mas quase sempre não recebemos a contra-referência
dos plantonistas de lá, fica impossível de acompanhar. A
instrução existe, mas não é cobrada pelas
gestões", pontua. Para Souza, muitos profissionais não
conseguem entender as verdadeiras demandas e a hierarquia do sistema de
saúde, passando pelo sistema primário (PSF), secundário
(atendimento municipal), terciário (hospitais de referência)
e quaternário (UTI, cirurgias, transplante). Sem metas, qualificação,
recursos humanos e gestão política, é quase impossível
para qualquer município fechar os gargalos.
Quem vai comprar a briga política?
O quadro de pobreza e desigualdade reflete diretamente nas condições
de saúde da população. A frase, aparentemente óbvia,
parte do Plano Municipal de Saúde 2006-2009, elaborado pela Prefeitura
do Recife. E de acordo com o documento, a cidade convive com sérios
problemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário,
aliados a condições ambientais desfavoráveis. Trata-se
apenas de uma variável, entre tantas, de que o papel dos próximos
prefeitos vai além da construção de academias da
cidade e ampliação das unidades do Programa Saúde
da Família.
Embora todo prefeito reclame sobre a falta de recursos financeiros, para
o médico da emergência do Hospital Agamenon Magalhães,
Honório Justino Júnior, dinheiro nunca foi o problema. "O
que se faz, hoje, é encaminhar para o estado. A população
precisa de urgência e não encontra sequer gente para fazer
uma sutura".
A cirurgiã-geral e atual diretora técnica do Hospital das
Clínicas, Iaracy Melo, acredita que falta empenho para comprar
a briga política contra municípiosque empurram pacientes
para o Recife. "Se a gente não tem estrutura, em outras cidades
a situação é bem pior. Aqui, não temos atendimento
de média complexidade, o qual deveria ser feito via policlínicas.
Procedimentos simples deixam de ser feitos. E mesmo que as gestões
resolvam estruturar melhor esses locais, não temos política
de recursos humanos. Iria faltar profissional habilitado", resume
Iaracy, que também já foi chefe da emergência da Restauração.
A ex-secretária de planejamento do Recife na gestão Roberto
Magalhães, a urbanista Celecina Pontual, lembra uma máxima
internacional clássica: para cada dólar investido em saneamento,
quatro dólares são economizados na saúde pública.
Não à toa, o tema foi abordado em detalhes no último
dia 20 de julho, na seqüência de reportagens para discutir
os principais desafios do futuro prefeito no Diario.
Responsabilidades municipais
- Integração com a rede estadual
- Gestão sobre todo o sistema e todos os prestadores de serviços
- Cadastramento Cartão SUS
- Garantia do atendimento em seu território para sua população
e para a população referenciada por outros municípios,
disponibilizando serviços necessários
- Pagamento dos prestadores de serviços, controle, auditoria
e avaliação
- Avaliações sobre o impacto das ações
do Sistema sobre as condições de saúde da população
- Execução das ações básicas, de
médias e altas complexidades
- Execução de ações de epidemiologia, de
controle de doenças e de ocorrências mórbidas, decorrentes
de causas externas, como acidentes e violências
- Firmar o Pacto de Atenção Básica com o estado
Fonte: MS
Repasses do Ministério da Saúde
ao Recife
2008 - R$ 224,9 milhões (até julho/2008)
2007 - R$ 347,1 milhões
2006 - R$ 244,1 milhões
2005 - R$ 126,6 milhões
2004 - R$ 116,8 milhões
2003 - R$ 94,7 milhões
Fonte: SIOPS/Ministério da Saúde
Propostas
Roberto Numeriano (PCB)
Atendimento neonatal nas policlínicas
Ampliar horário de atendimento
Construção de mais creches e ambulatórios, com
pronto-atendimento;
Criar farmácias populares nas RPAs, distribuindo genéricos;
Racionalizar o atendimento ao público, a partir de um sistema
que evite as filas e os prazos excessivos para marcar consultas.
Raul Henry (PMDB)
Criar dois hospitais municipais de referência
Construir oito novas policlínicas com atendimento de emergência
e 24h
Reestruturar a rede de ambulatórios, ampliando as especialidades
de atendimento
Descentralizar o Samu, passando de uma única base para seis
Prontuário Único: todo o histórico do cidadão
ficará em ficha médica única
Mendonça Filho (DEM)
Oferta de 320 mil consultas em clínicas particulares para população
atendida no PSF
Transformação da Maternidade Bandeira Filho em hospital
de referência para atendimento à mulher
Transformação do Hospital Geral de Areias em referência
no atendimento ao idoso
Atendimento 24h nas policlínicas
Atendimento odontológico para o trabalhador à noite
Kátia Telles (PSTU)
Ampliar o Programa Saúde na Família (PSF)
Descriminalização e legalização do aborto
Programa municipal de assistência à saúde da mulher
Postos de saúde abertos 24h
20% do orçamento para a saúde pública
Nenhum financiamento com dinheiro público para hospitais particulares.
João da Costa (PT)
Três novas policlínicas: Caxangá, Casa Amarela
e Pina
Concluir a policlínica de Água Fria, projeto já
aprovado pela atual gestão
Implantar dois centros odontológicos especializados
Implantar 42 novas equipes de saúde bucal, ampliando o atendimento
para 140 mil pessoas
Implantar 80 novas equipes no PSF
Criar mais 10 Academias da Cidade
Edilson Silva (Psol)
Ampliar o Programa Saúde da Família (PSF)
Abrir os postos de saúde que estão fechados
Ativar 100% das policlínicas, que hoje não funcionam
Fazer concurso público para especialidades mais demandadas pela
população
Analisar a necessidade de construção de mais postos e
policlínicas
Ações preventivas, principalmente para saneamento básico
Cadoca (PSC)
Implantação de seis centros de especialidades médicas
com 90 profissionais
Meta: oferecer 570 mil consultas/ano
Remédio em casa, quando for de uso contínuo
Resultados de exames na internet em até 10 dias
Qualificar e ampliar o Programa de Saúde da Família (PSF)
Atendimento móvel nas escolas e laboratório móvel
oftalmológico
Desafios do próximo prefeito
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. Segurança
. Habitação
. Educação