O eterno desafio da habitação
Paulo
Rebêlo
Do Diario de Pernambuco
Todo prefeito do Recife se orgulha da criação de novas moradias
populares e suas respectivas infra-estruturas, mas a conta não
fecha. Ao final de cada gestão, o problema de habitação
continua a ser um dos principais desafios do futuro prefeito, pois o déficit
habitacional cresce a cada ano. A depender da fonte de pesquisa, o número
pode até variar, mas os indicadores convergem ao resultado prático:
nas regiões Norte/Nordeste, o Recife é - novamente - a capital
com o pior índice do setor.
Como o tema habitação é diretamente relacionado a
saneamento básico, não surpreende que os índices
sejam tão ruins quanto. De acordo com o estudo "Déficit
Habitacional no Brasil", cujos dados mais recentes são de
2005, em áreas metropolitanas, o Recife também é
o mais carente. São 417 mil domicílios ausentes de esgoto
ou fossa séptica. O estudo é elaborado periodicamente pela
Fundação João Pinheiro, em parceria com o Ministério
das Cidades, o Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID)e Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Em termos de carências habitacionais, segundo a urbanista Isabella
Trindade, da Universidade Católica de Pernambuco, para equacionar
a demanda, o caminho mais curto é o investimento em moradias populares
considerando três fatores: estrutura física, adequação
das unidades e coabitação familiar. Doutoranda pela Universidade
Politécnica da Catalunha, na Espanha, a urbanista explica que o
cálculo de déficit habitacional é simples. Basta
medir o número de casas existentes dividido pelo de casas necessárias.
Para a doutora em planejamento urbano pela Universidade de Paris-Sorbonne,
Clarissa Duarte, geralmente os governos constróem as moradias sem
levar em consideração a educação e o acompanhamento
psicológico. "Pelo menos 80% das transferências de moradias,
como a de palafitas para apartamentos, é infeliz. É bom
que as famílias saiam de áreas de risco, claro, mas o convívio
fora de onde firmaram suas raízes e sem acompanhamento gera vários
outros problemas, às vezes até piores", declara Clarissa.
Soluções - Soluções - As
duas principais soluções apontadas pelos especialistas consultados
pelo Diario convergem com ações governamentais: a criação
de políticas públicas a partir de um dimensionamento mais
preciso do problema e investimentos em áreas hoje não exploradas
para construção domiciliar. Neste quesito, o ex-assessor
especial de planejamento na Prefeitura do Recife, Milton Botler, reconhece
que ainda há um longo caminho a ser trilhado.
Botler revela um dado espantoso. São 4 milhões de metros
quadrados vazios no centro expandido da cidade. "Temos que repensar
essa cultura de expansão, pois ninguém nunca se preocupa
em ir morar no centro, que não oferece condições
ideais de segurança e transporte, é verdade.
A meta é resolver estes problemas", arrisca o arquiteto, hoje
coordenador da campanha da "continuidade" do petista João
da Costa à prefeitura. Botler, porém, desafia qualquer um
a mostrar que houve outra gestão municipal a fazer mais pelas moradias
populares do que a atual.
Faltam números para políticas públicas
Para resolver a carência de saneamento básico no Recife,
é "simples": basta ter dinheiro. Difícil é
conseguir priorizar, dentro de uma gestão municipal, os transtornos
gerados pela série de obras necessárias para trocar os canos
e tubulações seculares, além de implementar redes
de tratamento de esgoto. A opinião é da ex-secretária
de planejamento do Recife, a urbanista Celecina Pontual. "Falta gestão
apolítica, que não tente reinventar a roda a cada eleição
municipal. O custo para saneamento é altíssimo, destroçaria
as vias e o nível das águas no Recife dificulta ainda mais
os trabalhos", explica Pontual. Por outro lado, acrescenta, seria
um método eficaz e simples de gerar emprego e renda. "São
as palavras-chave. Não há moradias porque as pessoas não
têm dinheiro para comprar, não há condições
financeiras de melhorarem", diz.
Conforme estudo da União Nacional da Construção (UNC)
em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV),
para combater o déficit habitacional, seriam necessários
investimentos da ordem deR$ 160 bilhões aplicados ao longo de 16
anos. No Recife, não há números concretos. Daí
parte a maior crítica da urbanista Isabella Trindade. "Não
temos diagnóstico e dimensão corretas para formular e implementar
políticas públicas".
Um dos maiores orgulhos da atual gestão municipal é a remoção
de palafitas. Os números oficiais mostram que das 15 mil palafitas
na cidade, 5 mil foram removidas. E somente de recursos para saneamento
básico, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) e de recursos próprios, são quase R$ 500 milhões
prometidos para os próximos anos - independente de quem seja o
futuro prefeito.
Com o clima atual e as constantes chuvas, é fácil perceber
como é a vida nas áreas de risco e nos morros. O esgoto
é a céu aberto, não há fossas, as crianças
estão sempre doentes e animais contaminados ajudam a proliferar
doenças causadas pela falta de higiene e esgotamento sanitário.
A urbanista Celecina Pontual provoca: "a realidade é pior
do que esses números. Para o IBGE, basta uma privadano domicílio
e já contabilizam como saneamento. Se ilude quem acha que Boa Viagem,
por exemplo, tem saneamento básico. Coleta, por si só, não
adianta. Falta tratamento adequado. Há toda a problemática
do lixo entre as prefeituras da região metropolitana", relembra.
À espera do novo Plano Diretor
Planejar habitação é planejar a cidade. Tal controle
urbano deveria ser delimitado por um novo plano diretor, cujo debate no
Recife se alonga há pelo menos sete anos entre prefeitura e vereadores,
sem conclusões. À exceção de técnicos
da prefeitura, nenhum outro especialista ouvido pelo Diario considera
convincentes os relatórios preliminares da revisão do plano,
atualmente nos gabinetes da Comissão Especial de Revisão
do PD, na Câmara Municipal.
As críticas vão desde a "falta de rumo" à
total ausência de diretrizes em setores cruciais, como transporte
e meio ambiente. E mesmo dentro da seara política, parte dos técnicos
e urbanistas que assessoram vereadores também não se convencem
das propostas apresentadas até agora. O assunto foi abordado pelo
Diario em detalhes, diariamente, nas edições de 20 a 26
de abril deste ano.
Parque Dona Lindu, Via Mangue, Corredor Leste-Oeste e até mesmo
passarelas entre hospitais e shopping centers. Apenas uma pequena parcela
de obras, mas querepresenta uma grande frustração para quem
espera até agora que um novo plano aborde diretrizes objetivas
sobre intervenções urbanas e tantas outras questões
relacionadas ao desenvolvimento municipal. Antes de o projeto chegar à
Câmara, já estava estacionado nos gabinetes da prefeitura
desde 2002.
Na mesa da comissão parlamentar destinada à revisão,
o projeto recebeu diversas sugestões e propostas de emendas, tanto
dos vereadores, quanto de movimentos sociais. Estes, por sua vez, rejeitam
vários anexos e inclusões originados da prefeitura, sob
alegação de que não houve debate. Procurados pelo
Diario, por meio do relator Jurandir Liberal (PT), a comissão parlamentar
optou por não revelar quais as novas propostas e emendas em análise
até a conclusão do relatório final - sem previsões,
aliás.
Emendas - A vereadora Priscila Krause (DEM), integrante
da mesma comissão, acusa a prefeitura de incluir emendas "estranhas"
de última hora. Em uma delas, segundo a parlamentar e sua equipe
de assessores técnicos, estariao fim de várias restrições
à construção imobiliária. "Embora a proposta
original mantivesse a Lei dos 12 bairros e até a ampliasse para
Boa Viagem, a nova emenda altera o controle sobre os bairros, mexendo
no direito de construir e na outorga onerosa, mudando os coeficientes
de cálculos", explica. Derby, Graças, Aflitos, Espinheiro,
Jaqueira, Parnamirim, Santana, Poço da Panela, Casa Forte, Monteiro,
Apipucos e parte da Tamarineira são os bairros.
A urbanista Nelly Spencer de Holanda lembra que a lei em questão
foi bem feita, de modo a diminuir a densidade dessas áreas, pois
já estão saturadas em demasia. "No entanto, se o novo
PD for aprovado como está proposto, a área será novamente
uma das mais convidativas para se construir, incentivando ainda mais o
adensamento", critica.
Transporte e segurança também devem ser metas
O maior desafio para o próximo prefeito, no setor de habitação
e saneamento, não se restringe às moradias populares ou
às classes menos favorecidas. Para a urbanista Clarissa Duarte,
o clima de medo e insegurança em vigor no Recife, aliado à
carência de transporte público de qualidade, resulta em verdadeiras
aberrações urbanas.
Um dos exemplos citados pela pesquisadora - que também integra
a equipe técnica de assessores do candidato Raul Henry (PMDB) -
é a altura dos muros nos edifícios residenciais. "A
lei permite até 7,8 metros e as construtoras estão criando
muralhas de guerra. A gente não vê quem está do lado
de fora; e ninguém vê quem está dentro. Retiram as
grades, levantam os muros e o clima de insegurança aumenta mais",
opina.
Outro problema relacionado à habitação é o
transporte urbano. O ex-assessor especial de planejamento da prefeitura,
Milton Botler, usa um exemplo curioso e atual. "A classe média
compra um carro que custa o mesmo que um apartamento. Se o centro não
oferece condições de segurança para guardá-lo
ou de transporte público para usar menos o veículo, teremos
esta situação comum e a meta é criar as condições
para que não continue assim", antecipa o atual coordenador
da campanha de João da Costa (PT).
A chamada "inversão de prioridades", umas das bandeiras
do prefeito João Paulo em seus discursos pela cidade, é
questionada nacionalmente, no quesito habitação, a partir
de um estudo da Associação Brasileira dos Mutuários
da Habitação (ABMH). Consultor jurídico do Instituto
Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo e
membro da ABMH, o consultor Rodrigo Daniel dos Santos escreveu, em artigo
divulgado em virtude da pesquisa do Déficit Habitacional 2005,
que "o déficit aumenta porque o foco de investimentos dos
governos é errado". Clarissa Duarte recorda que há
décadas os gestores se "orgulham" da retirada de palafitas,
mas até hoje ninguém vê preocupação
com o que ocorre depois da retirada.
Geração de empregos
Habitação e saneamento poderiam não causar preocupação.
Bastava a economia local oferecer condições de emprego.
A afirmação, da urbanista e ex-secretária de planejamento
Celecina Pontual, é respaldada por indicadores relativos a financiamento
imobiliário. A maior parte das famílias sem moradia permanece
deste modo pela simples falta de renda para assumir baixas prestações,
quiçá parcelas maiores.
Sem condições de pagar aluguel, o processo é previsível:
a ocupação de áreas públicas, de preservação
ambiental ou de áreas de risco, como é o caso dos inúmeros
"altos" e "morros" no contorno urbano do Recife. E
mesmo para aquelas que aos poucos adquirem condições iniciais
de endividamento, a burocracia estatal repele o acesso a crédito
ou à documentação necessária para a devida
regularização.
Comprovando ainda mais que os problemas do Recife - como de qualquer outra
cidade - são interligados e não podem ser solucionados isoladamente,
conforme o Diario mostrou na primeira reportagem desta série ,
no dia6 de julho, aausência de educação formal também
está carnalmente ligada à problemática habitacional.
Celecina Pontual cita casos concretos, como famílias que após
poucos meses na nova moradia de conjunto habitacional, cedido pela prefeitura,
resolvem vender o imóvel - que na prática é um cubículo
de 20 a 30 metros quadrados - e retornar às favelas ou comunidades
sem a menor infra-estrutura. "Se não há emprego, não
há geração de renda. Mesmo sem pagar pelo imóvel,
como ficam as outras contas? Muita gente se sente com a corda no pescoço,
vai embora e não há fiscalização", aponta.
Propostas dos candidatos
Cadoca (PSC)
Zerar o déficit habitacional para moradores das áreas
de risco e de palafitas
Viabilizar os programas Capibaribe Melhor e o Prometrópole, que
estão atrasados
Buscar mais recursos do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC)
Edilson Silva (Psol)
Destinar parcela fixa de recursos da prefeitura para zerar o déficit
habitacional
Priorizar o déficit dos trabalhadores sem teto
Maior intervenção da prefeitura nas habitações
populares
Maior intervenção nacional e melhor uso dos recursos federais,
via Caixa e BNDES
João da Costa (PT)
Erradicar as palafitas da cidade
Fazer todo o saneamento da bacia do Cordeiro, bacia do Beberibe e boa
parte da bacia do Tejipió, com recursos disponíveis do
PAC e próprios da prefeitura
Elaborar novos projetos para o restante da bacia de Tejipió
Implementar política de reabitação urbana, visando
o centro expandido do Recife
Kátia Teles (PSTU)
Aumento de impostos sobre as empresas da construção civil
Titulação para todas as ocupações urbanas
Urbanização de todas as favelas sem a retirada da comunidade
do local de origem
Ocupação de prédios e terrenos públicos
e privados para moradia
Nenhuma repressão ao movimento dos sem-teto
Mendonça Filho (DEM)
Criar programa de incentivo à construção de moradias
de interesse social
Construção de habitações nas áreas
vizinhas à linha centro do metrô
Programa Morar no Centro
Produção imediata de 4.200 unidades para às famílias
desalojadas
Criar o programa de aumento da cobertura de esgotamento sanitário
Projeto de revitalização das pequenas e médias
calhas - "Calha d'Água"
Raul Henry (PMDB)
Planejar a expansão imobiliária da cidade com a iniciativa
privada
Promover a melhoria habitacional de áreas pobres e degradadas,
sem remover as populações
Incrementar o processo de regularização de posse da terra
Elaborar planos diretores de água e esgoto, em parceria com a
Compesa
Fixar metas para a cobertura da rede de esgoto e reduzir das perdas
d'água
Roberto Numeriano (PCB)
Ampliar o conceito de saneamento integrado, que consiste em saneamento,
drenagem, regularização da coleta de lixo e calçamento
Definir política de aproveitamento de imóveis (públicos
e privados), desocupados, conforme o Plano Diretor
Ampliar a construção de casas populares
Criar coleta seletiva de lixo a partir de cooperativas de trabalhadores
Desafios do próximo prefeito
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