O refrão de um bolero

Os vizinhos nem sonham, mas a garota da porta ao lado tira a roupa para mais de oito mil pessoas via Twitcam e cobra entre R$ 15 e R$ 80 por apresentações exclusivas pelo MSN. Os casados preferem os domingos


Por Fred Figuerôa



Inevitavelmente esta será uma daquelas matérias que você vai ler e comentar, nem que seja só para si mesmo: “Inventam de tudo mesmo nessa internet”. Mas a palavra certa para definir esta história talvez nem seja “invenção”. Poderia ser “ousadia”, ou “iniciativa”, quem sabe “liberdade”, até mesmo “loucura”. No final das contas caberia, sobretudo, a palavra “sobrevivência”. E mais uma vez chegaremos à conclusão de que o mundo encantado dentro da tela dos computadores, dos telefones ou de qualquer desses troços modernos que se conecte é um reflexo da vida do lado de cá. Onde teias de redes sociais formam o que ainda chamamos de sociedade.

Esta é a história de uma Ana que não se chama Ana. De mais uma jovem que descobriu uma forma de ganhar dinheiro sem sair de casa. Ou, sendo mais preciso, sem sequer sair do quarto. Na semana passada, a revista Época apresentou oito brasileiros com menos de 30 anos que se tornaram milionários através da internet. A nossa personagem não chega a tanto. Certamente está longe de ter R$ 1 milhão em sua conta bancária. Porém, é mais uma jovem da chamada geração Y que, sentada (ou não exatamente sentada) na frente de um computador, conseguiu sua independência financeira.



“Mas não pensem que é fácil. Trabalho cerca de 14 horas por dia, sete dias por semana”, diz Ana. O quarto onde dorme é o seu escritório, com dois notebooks ligados a uma TV de LCD de 32 polegadas e três webcams. A internet de alta velocidade é indispensável. Mas não é só um escritório, é também um palco. A decoração forma o cenário e o clima para shows diários de strip-tease a qualquer hora. No início de uma manhã de domingo ou na madrugada de uma terça-feira, Ana está se exibindo diante da webcam, tirando a roupa, vestindo e despindo fantasias e outras coisas mais que os clientes (em qualquer lugar do mundo) peçam e – logicamente – paguem para ver.

“Ana” nasceu há pouco mais de quatro anos, quando teve a ideia de fazer o primeiro strip-tease virtual. “Eu entrava muito em chats de sexo e os homens sempre pediam para me ver na webcam. Comecei a perceber esse interesse de quase todos e vi que poderia cobrar para me mostrar. Nunca tive problemas em me exibir. Até já brincava um pouquinho na net...”, conta a jovem, que, na época, aos 23 anos, trabalhava como gerente de uma loja de roupas femininas. No início, os shows eram apenas um complemento para a renda. “Era tudo mais amador e difícil. Não existiam outras garotas no Brasil que fizessem isso, então tinha que explicar muito aos interessados”.

Mas a explosão das redes sociais acabou “profissionalizando” Ana como stripper virtual. O site (www.anastriper.net) foi sendo cada vez mais acessado. E o Twitter era a ferramenta que faltava. @anastriper já tem mais de seis mil seguidores e criou uma disciplina profissional para usar a rede social como canal de propaganda. Ela tira pelo menos um dia na semana para fazer novas fotos e atualizar o site e usa o Twitter para divulgar cada novidade e, principalmente, para anunciar os shows gratuitos via Twitcam. Em apresentações de pouco mais de uma hora, chega a atrair 8 mil pessoas ao mesmo tempo.

“Com o aumento no volume de atendimento, acabei largando tudo e me dedicando a trabalhar só na net. Até 2006 trabalhei com vendas em várias lojas e sempre ganhei bem menos do que consigo hoje trabalhando como stripper virtual”, conta Ana. Ela faz os shows privados pelo MSN. O cliente a adiciona à sua rede de contatos, negocia o valor e deposita em sua conta. Assim que o dinheiro “cai”, ela agenda a apresentação. Os shows são de, no máximo, 30 minutos e o preço varia entre R$ 15 e R$ 80 – dependendo das exigências do cliente. Nas apresentações a partir de R$ 30, Ana mostra o rosto. Recentemente, fechou contrato com dois “patrocinadores”. Veste roupas de uma sex shop e trocou o quarto de casa pelo de um motel no show via Twitcam.

Naturalmente, vários homens querem mais do que um strip pela webcam e fazem propostas para transportar “Ana” para o mundo real. Mas ela garante ser irredutível quanto a essa possibilidade. “Respondo apenas que não e encerro o assunto. Muitas das garotas que hoje fazem strip na net também são garotas de programa, então é natural acharem que eu sou. Já estou nisso faz muito tempo, muita gente me conhece e sabe que não faço. Às vezes acontece de alguns testarem meu limite me oferecendo quantias altas. Pra mim, não importa o valor, eu ganho bem na net sem precisar me expor a doenças, violência ou ter que fazer sexo real por dinheiro. Não preciso e nem sei se conseguiria”, resume.

E assim “Ana” vai levando sua vida. Ou suas duas vidas, como define. Praticamente ninguém sabe o que ela faz. A família nem imagina. Os vizinhos nem sonham o que acontece atrás da parede ao lado. “Não me escondo de ninguém e não tenho problemas com meu trabalho. Fora dele, faço tudo o que uma mulher normal faz. Só não saio por aí dizendo que sou stripper...” , explica, depois de aceitar a missão de escrever um diário de uma semana para Aurora, em outubro.

Onde “Ana” mora? Será que ela é a garota que você encontrou no supermercado? A menina que você viu no trânsito? Que conheceu na balada ontem à noite? Sua colega na faculdade? Será que ela é a vizinha a quem você deu “Bom dia” hoje no elevador? Quantas “Anas” existem por aí?


Domingo

Domingo é dia de descanso, de sair para passear, de ficar com a família...Mas não para mim. Não sei bem a razão, mas os domingos são sempre dias repletos de trabalhos na frente da webcam. Hoje já acordei com um show marcado para as 9h. É o único horário em que este cliente tem privacidade em casa para ficar na internet e relaxar comigo. Esses horários são muito comuns para os homens casados, que buscam novas experiências sem afetar o casamento. Então, acordo pontualmente às 8h, tomo café da manhã e começo a cuidar da aparência. Visto apenas calcinha e sutiã. Uma lingerie fina e elegante, já que este é um cliente que gosta de toques refinados, mas ao mesmo tempo quer ir direto ao assunto. Sobre ele, sei apenas que é de São Paulo, casado, e aparenta ter uns 40 anos. Não pergunto nada. Quando ligo a cam, ele já está se masturbando. Ele pagou R$ 30 por um show de 30 minutos. Sem muito papo, pediu logo para eu tirar o sutiã e começar. O show durou menos do que o previsto. Ele gozou, agradeceu e fechou a webcam. Para mim, era só o começo de um longo dia. Foram mais oito shows até a meia-noite.

Segunda-feira

Acordei ainda cansada de ontem. Foram muitos shows, tirando e colocando roupa sem parar. Às vezes, penso que já deveria abrir a câmera pelada... A segunda-feira começa mais tranquila. Show só às 11h. Tempo para cuidar de mim. Banho demorado, depilação, cuidados com o cabelo. Ando preocupada com as calorias. É comum para as mulheres, mas, para quem trabalha com o corpo, a preocupação se quadruplica. Chega a hora do show e me visto de babá, a pedido de um antigo cliente. Gosto de atendê-lo. Logo depois, hora de finalmente sair do apartamento e ir para o mercado. É engraçado sair e pensar que as pessoas nem sonham com o que faço. Nem os meus vizinhos, que cruzam comigo diariamente no prédio. O dia passa rápido e termino na academia. Malhando, paquerando e sendo paquerada.

Terça-feira

Sempre tiro um dia na semana para cuidar de coisas fundamentais para o meu trabalho. Assim que acordo, visto fantasias e lingeries para tirar fotos sensuais e atualizar o meu site. Também entro no Twitter para avisar os seguidores sobre as fotos novas e, principalmente, para anunciar um show aberto pela Twitcam que farei na madrugada. Só de pensar, já fico nervosa. Na semana passada, mais de oito mil pessoas entraram para me ver. Das redes sociais, o Twitter é, hoje, a minha principal ferramenta de divulgação. E as twitcams, então, nem se fala. Mais gente me conhece, mais clientes, mais trabalho e, enfim, mais dinheiro. A de hoje promete. Vou me fantasiar de colegial, algo que faz muito sucesso entre os homens e me deixa, digamos, mais gostosa.

Quarta-feira

Comecei o show na Twitcam no início da madrugada, por volta de 1h, e dessa vez atingi mais de 6 mil views. Hoje vou me dar uma folga. Trabalhar com sexo virtual é divertido, mas, como tudo em excesso, tem horas que enjoa. Hoje o dia está lindo e vou tomar um sol. Tenho que manter minha marquinha de biquíni... Os homens adoram!! À tarde, abro o MSN e está cheio de pessoas que viram o show e querem saber como ter um particular. Respondo, repito, explico. É chato, mas faz parte do negócio.

Quinta-feira

Comecei o dia separando fantasias que os clientes pediram. Enfermeira, secretária, dominadora... Ah, também recebi um convite para uma matéria na TV. Vou gravar um programa “piloto”, mas ainda é segredo. Dos shows de hoje, a novidade foram três clientes de Portugal. Eles são bem diferentes dos brasileiros. São mais pornográficos, gostam de ouvir e falar baixarias. Não fico chateada ou abalada com grosserias. Me considero uma artista que se transporta para o personagem durante o espetáculo e que, ao fechar das cortinas, volta à sua vida normal. Quando abro meu MSN, ali está a Ana Striper, “A Namoradinha Virtual”. Quando desligo, volto a ser uma mulher entre tantas outras.

Sexta-feira

Acordei com o telefonema de um amigo me convidando para sair. Oba! Hoje vou relaxar. Com esta vida doida que levo é difícil ter namorado fixo. Tive só um desde que comecei com os shows, há quatro anos. Ele aceitou bem e nunca tivemos problemas com isso. Mas, pela minha liberdade financeira e sexual, acabo tendo relações curtas, sem muito envolvimento ou cobranças. Muitos homens acham que também faço programas, mas não é o meu caso. Sexta-feira é dia de movimento fraco. Então, aproveito para cuidar de mim. Vou no cabelereiro, fazer unhas, dar uma geral e me sentir poderosa.

Sábado

A noite de ontem foi boa. Aliás, ótima… Mas esta parte não vou contar. Coloco meu som bem alto. Só vou abrir meu MSN para o trabalho no fim do dia. Quero curtir a minha casa. Ouvir música, dançar nua, sem ninguém me vendo. Contei aqui uma semana inteira de trabalho. Foram dezenas de homens que me viram na webam. Me mostrei e dei prazer. Fui namorada, amante, escrava, psicóloga e confidente. Ganhei meu dinheiro e paguei minhas contas. Quanto ganhei? Prefiro não entrar nestes detalhes. Tenho que preservar isso por segurança e para não chamar muita atenção de concorrentes. Ganho bem, mas trabalho muito. Nesses sete dias, foram quase 14 horas diárias de trabalho, com shows, atualização de sites e negociações. Nenhuma outra atividade formal me daria a renda mensal que tenho hoje.


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