Cinema São Luiz é o único sobrevivente da era de ouro dos cinemas no Centro do Recife O equipamento é parte indissociável da paisagem e também da história da cidade, que chegou a possuir 80 cinemas de rua

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 26/06/2018 09:01 Atualizado em:

Último dos cinemas de rua em atividade no Recife, a sala às margens do rio Capibaribe segue em atividade. Foto: Paulo Paiva/DP
Último dos cinemas de rua em atividade no Recife, a sala às margens do rio Capibaribe segue em atividade. Foto: Paulo Paiva/DP


Quando se pensa em cinema na Boa Vista, é provável que o São Luiz surja como a primeira lembrança. Seja pela imponente beleza ou pela antiga presença – afinal, foi inaugurado em 6 de setembro de 1952 –, o equipamento é parte indissociável da paisagem e também da história do bairro. Último dos cinemas de rua em atividade no Recife, a sala às margens do rio Capibaribe segue em atividade, exibindo filmes que raramente chegam ao circuito comercial, seja na programação regular ou nos vários festivais que costuma abrigar. Hoje solitário, o equipamento surgiu em uma época profícua para o audiovisual na região, que contava com um bom número de salas.

“Na década de 1920, o Recife ficou meio conhecido como a Hollywood do Nordeste”, diz a arquiteta e pesquisadora Kate Saraiva, autora do livro Cinemas do Recife. Lançado em 2013, o volume reúne informações sobre as antigas salas da cidade, que chegaram perto da marca de 80 estabelecimentos. Entre as salas do bairro, além do São Luiz, podem ser citados o Cine-Teatro do Parque (fechado desde 2010 e, atualmente, em reformas), Boa Vista, Polytheama, Veneza, Cine Soledade. Completavam o ecossistema salas de bairros vizinhos, como Moderno, Trianon, Art Palácio, Cine AIP (Santo Antônio), Astor e Ritz (Santo Amaro) e Ideal (São José).

Fachada do cinema Moderno. Foto: Arquivo/DP/D.A Press
Fachada do cinema Moderno. Foto: Arquivo/DP/D.A Press

Se nas últimas décadas ocorreu um movimento de antigas salas de cinema de ruas transformadas em igrejas, o São Luiz, curiosamente, ocupa uma área onde antes funcionou o Templo Anglicano da Santíssima Trindade (Holy Trinity Church), edificado em 1838 e demolido, junto a outras construções na área, cem anos depois, no processo de alargamento da Conde da Boa Vista. Entre outras intervenções urbanas da época, está a construção do Edifício Duarte Coelho, prédio de 13 andares cujos primeiros quatro pavimentos são ocupados pelo cinema.

Enquanto a conversão de uma sala de exibição em igreja pode ser encarada pelos cinéfilos com um dos destinos mais trágicos para um cinema, Kate Saraiva considera esse uso o menos prejudicial, em termos de preservação. “É algo que pode ser revertido mais facilmente, ao contrário dos que foram transformados em bancos ou supermercados”, avalia ela, que é integrante do Movimento CineRuaPE. Infelizmente, o Recife não tem uma tradição de preservação desses espaços e fica bem atrás de outras cidades brasileiras, como São Paulo, que conta com pelo menos oito cinemas de rua, e Rio de Janeiro, com 16.

Entre as salas do Centro que desapareceram, um exemplo emblemático é o Cinema Boa Vista, na Rua Dom Bosco, fechado em dezembro de 1979. A sala, com capacidade para 1,8 mil pessoas, foi posteriormente transformada em papelaria e hoje abriga uma faculdade. Sem relação com o antigo estabelecimento, o bairro tem hoje em dia um homônimo Cine Boa Vista, na Rua Corredor do Bispo, local de projeção de filmes eróticos e realização de festas.


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