COLUNA Empreendedor Social: profissão ou paixão?

Por: Fábio Silva

Publicado em: 11/01/2019 08:08 Atualizado em:

Foto: Divulgação (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação
No Brasil, um mercado que nunca foi valorizado tem ganhado cada vez mais força, apesar de ainda permanecer quase invisível: o do empreendedorismo social. Mas ao contrário do que ainda se pensa por aqui, esta é uma área promissora para os profissionais, para a economia e para o poder público. Países como os Estados Unidos, Inglaterra, Portugal e Espanha, por exemplo, já perceberam isso, e estão colhendo muitos frutos. É um mercado em que todos saem ganhando. Explico:

Eu era empresário do ramo da odontologia. Eu, meu pai e meu irmão, montamos uma empresa que se tornou líder de mercado na implantação de consultórios odontológicos móveis. Do Recife, expandimos nossos negócios para todo o Brasil. Foi um case. Tanto que outras empresas passaram a oferecer o mesmo serviço a partir do nosso sucesso. O segredo foi descobrir o quanto um negócio voltado para as classes mais baixas poderia ser tão promissor quanto vender para quem tem dinheiro. Ganhamos no volume e ajudamos milhares de pessoas que desejavam ter um sorriso mais bonito.

Só que esse sucesso financeiro mexeu também com o meu coração. Como foi bom trabalhar para realizar o sonho das pessoas. Passei logo a pensar em outras possibilidades de trabalhar com isso, mas logo veio o choque de realidade: como ganhar dinheiro e manter a carreira trabalhando pra fazer o bem? Seria utopia demais? Alguém consegue viver disso?

Sim! Os empreendedores sociais!

Descobri isso em 2014, ao ser convidado pelo Departamento de Estado Americano para uma capacitação voltada para líderes sociais nos Estados Unidos. O convite surgiu a partir da atuação no projeto social que criei, junto com amigos, no Recife,  chamado Novo Jeito. As mobilizações que fizemos na cidade em prol da gentileza, quem diria, chamou a atenção do Tio Sam. É que lá já existe a profissão do "empreendedor social" há muitos anos, fruto de uma cultura maciça de incentivo ao voluntariado que começa desde as escolas. Prova disso é que, em cada 10 americanos, oito fazem algum tipo de trabalho voluntário. Já no Brasil, a proporção é inversa: somente 2 em cada 10 brasileiros tem o voluntariado na sua rotina.

Na volta pra casa, muitos questionamentos: será que o voluntariado poderia ajudar o País a sair da crise moral em que vivemos? Será que o empreendedorismo social poderia ser um braço de cidadania para o poder público? Será que as empresas seria mais bem sucedidas se apoiassem projetos sociais que trabalham pra melhorar a qualidade de vida da população?

Tentando responder a essas perguntas, me deparei com algumas constatações. Enquanto no poder público o que vemos muitas vezes é a falta de compromisso e empenho mesmo daqueles que recebem pra fazer o serviço, no empreendedorismo social as pessoas trabalham por paixão e mobilizam um grande número de pessoas. Enquanto na iniciativa privada até os profissionais apaixonados pela carreira visam ganhar cada vez mais, no empreendedorismo social as pessoas são criativas justamente porque não tem apoio financeiro, mesmo sem receber nada em troca.

Como empreendedor, não tinha outra alternativa: criar, empreender. É o que tenho feito, através das plataformas Transforma Recife e Transforma Brasil, que oferecem alternativas para quem quer ser voluntário e não sabe onde, e também do Porto Social, que é a primeira incubadora de projetos sociais do Brasil.

Hoje, não tenho a menor dúvida de que a profissão do futuro é a do empreendedor social. É ele que será capaz de transformar a atuação do poder público, levando qualidade e especialização aos serviços que precisam chegar à população; de inspirar a iniciativa privada, sensibilizando empresários, executivos e profissionais; e de mobilizar cidadãos, fazendo com que eles se empoderem da cidade e assumam a responsabilidade de cuidar dela. Tudo isso, ganhando dinheiro, sim! Porque não? Produtos e serviços “com causa” estão em alta e são, mais do que nunca, necessários para contribuir com uma sociedade mais justa. A união entre criatividade e solidariedade nunca deu tão certo como agora.

**Fábio Silva é empreendedor social, criador da ONG Novo Jeito, do Porto Social, e das plataformas Transforma Recife e Transforma Brasil



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.